quinta-feira, abril 26, 2007

Tempos de Nóia

Vivemos tempos de nóia.

A chamada “escalada da violência” nas grandes cidades, explorada sem piedade pelos grandes veículos de comunicação de tendência duvidosa, produz um efeito de bola de neve que faz com que muitos “cidadãos de bem” tenham os batimentos cardíacos acelerados com o simples estouro de um estalinho na rua.


Penso que a sensação da violência – e não a violência per se – seja uma das principais responsáveis pelo sentimento de apreensão que acompanha muitos de nós. Ontem, por exemplo, vi um garoto, com aspecto de morador de rua, iniciar uma briga no Arco-íris, bar da Lapa, porque o garçom havia encostado nele ao pedir que saísse do estabelecimento. Alguns amigos que chegaram depois ouviram meu relato do ocorrido, que envolveu voadoras, mata-leões e garrafas quebradas – tudo verídico.


Aqueles que me ouviram não viveram a violência por mim descrita – mas tiveram a sensação da violência bem próxima. E muitos dos freqüentadores que estavam no local provavelmente contaram a mesma história para outras pessoas, que também experimentaram semelhante sensação. O mesmo ocorre quando alguém é assaltado: embora somente uma pessoa viva a violência de fato, diversas outras pessoas ouvirão o relato e dirão: “porra, o Rio está cada vez mais violento!”. O que pode não ser uma verdade de fato – o aumento dos índices de criminalidade – transmuta-se em uma sensação de aumento da violência, uma vez que a divulgação desse tipo de informação promove correlato tipo de sensação.


E agora, em tempos de internet, existe uma modalidade nova desse tipo de “terrorismo”: são e-mails que, com a intenção de prevenir os “cidadãos de bem” (pois que muitos são supostamente assinados pela polícia, alguns com o título de “utilidade pública”), produzem o efeito de aterrorizar as pessoas. É de deixar neurótico qualquer um que leve o negócio a sério. Vamos então a alguns exemplos, retirados dessa modalidade de e-mails a qual me refiro:



“Você e seus amigos estão num bar, batendo papo, tomando uma cervejinha e se divertindo. De repente, chega um individuo e pergunta de quem é o carro tal, com placa tal, estacionado na rua tal, solicitando que o proprietário dê um pulinho lá fora para manobrar o carro, que está dificultando a saída de outro carro. Você, bastante solícito, vai e, ao chegar até o seu carro, anunciam o assalto e levam seu carro e seus pertences. E ainda terá sorte se não levar um tiro...”


Essa, então, é clássica:


“Comunidades do Orkut e sites pessoais estão repletos de gente que afirma ter tido seu rim roubado depois de ser dopado na balada. A vítima geralmente sai para se divertir com os amigos e não presta atenção à sua bebida. O interessado no rim joga algo dentro do copo, leva a vítima sedada para casa, arranca seu rim e deixa o atacado dentro de uma banheira com gelo até a cintura. Quando acorda, o jovem, de ressaca, lê no espelho de seu banheiro: “Corra para o hospital. Roubamos seu rim e você pode morrer de hemorragia”. O rim acaba indo para grupos de contrabando de órgãos internacionais e a vítima passa o resto da vida fazendo hemodiálise”.


As mulheres, nesses casos, são as que mais se fodem, vejam só:


“Quando as mulheres vão a toaletes, banheiros, quartos de hotel, vestiários de mudar de roupa, academias, etc., quantas podem estar certas de que o espelho, aparentemente comum, pendurado na parede, é um espelho de verdade ou um espelho de duas direções? (daqueles em que você vê sua imagem refletida, mas alguém pode te ver do outro lado do vidro como os da Casa dos artistas e Big Brother). Tem havido muitos casos de pessoas instalando espelhos de duas direções em locais freqüentados por mulheres, para filmar, fotografar ou simplesmente ficar olhando”.


E as dicas para se safar de um estupro?


“1 - A primeira coisa que eles olham em uma vítima potencial é o penteado. É mais provável que eles ataquem uma mulher com rabo-de-cavalo, coque, trança ou qualquer outro penteado que seja possível puxar mais facilmente. É provável também que ataquem mulheres com cabelos longos. Mulheres com cabelos curtos não são alvos comuns.

2 - A segunda coisa que eles olham é a roupa. Eles vão olhar para mulheres em que a roupa seja fácil de tirar rapidamente. Eles também procuram mulheres falando no celular ou fazendo outras coisas enquanto anda, isto sinaliza que estão desatentas e desarmadas e podem ser facilmente apanhadas.

3 - A hora do dia em que eles mais atacam e estupram mulheres é no começo da manhã, entre as 5:00h e 8:30 horas.

4 - O lugar campeão para apanhar mulheres é o lugar onde ficam os estacionamentos de escritórios. Em segundo lugar, estão os banheiros públicos.

(...) 7 - Disseram que não pegam mulheres que carregam guarda-chuvas ou objetos que possam ser usados como arma a uma certa distância (chaves não os intimidam, porque para ser usadas como arma, a vítima tem que deixá-los chegar muito perto).

(...) 10 - Esteja sempre atenta ao que se passa à sua volta. Caso perceba algum comportamento estranho, não o ignore. Siga seus instintos. Você pode até descobrir que se enganou, ficar meio desnorteada no momento, mas pode ter certeza de que ficaria muito pior se o rapaz realmente atacasse”.


Tirando o caso do rim, típica lenda urbana (que, pelo que li, circula inclusive em países da Europa e nos EUA), não duvido que os outros casos possam ser verdadeiros. Só duvido que, entre o efeito de prevenção e a paranóia generalizada, esse tipo de e-mail produza algum aspecto positivo. Mas é melhor nos acostumarmos, pois vivemos tempos de nóia e a qualquer momento um lunático pode te estuprar, levar seu carro, te abrir pra tomar o seu rim ou simplesmente te espiar enquanto você troca de roupa na academia.


E quanto a você, mulher, é melhor que, para sua própria segurança, corte os cabelos bem curtinhos, ande de guarda-chuva constantemente, chegue atrasadas ao trabalho para não saírem às ruas antes das oito e meia, não vá de carro e nunca mije na rua.


Afinal, é como ensina a sabedoria popular:


“quem tem cu tem medo”.


Cuidado!!!

sexta-feira, abril 20, 2007

Dois filmes brasileiros no Odeon

Ontem à noite fui ao Odeon com minha bonita para assistir dois filmes brasileiros, sem sair de cima. Achei ambos os filmes tão bons, que resolvi recomendá-los neste espaço. Para quem se interessar, aproveitem que os dois continuam em cartaz durante essa semana. E o Odeon é ótimo, só de não estar dentro dum shopping (e de ser um dos dois sobreviventes da praça que outrora foi a terra dos cinemas) já sai na frente de qualquer multiplex.



Antes de entrar na sala de projeção, eu já sabia que o documentário Cartola, dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, seria emocionante. E, obviamente, não estava enganado. Estão todos lá, em vídeos ou em depoimentos antigos: Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Nara Leão, Chico Buarque, Beth Carvalho e vários outros bambas.


Duas curiosidades interessantes: uma, que eu já sabia, é o fato de Cartola (1908-1980) ter sido re-descoberto por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, enquanto guardava carros em um edifício em Ipanema. Sumido da Mangueira desde 1948, foi somente em 1956 que Cartola, a partir deste encontro com Stanislaw (este um jornalista influente), arrumou um emprego numa repartição pública e voltou ao cenário da música brasileira. O primeiro disco de Cartola sairia somente em 1974, quando o cantor mangueirense já contava 65 anos de vida. É talvez a maior obra-prima do samba, reunindo, numa só bolacha, Disfarça e Chora, O Sol Nascerá, Sim, Alegria, Acontece, Tive Sim, Corra e Olhe o Céu, Amor Proibido e Alvorada.


A outra curiosidade é a resposta de Cartola à pergunta de um repórter: “quem você gostaria que gravasse uma música sua”? (Àquela altura, muita gente já tinha gravado Cartola, especialmente As Rosas não Falam). E o grande Angenor de Oliveira responde mais ou menos assim: “Olha, aquele garoto, o Roberto Carlos, tinha manifestado a vontade de gravar uma música minha. Eu ia ficar muito satisfeito se ele gravasse”.


Mas o rei RC nunca atendeu ao pedido.






O outro filme é uma comédia, dessa feita com personagens esquisitos e perturbados. Confesso que, atualmente, tenho muita dificuldade de rir em comédias. O humor que me apraz não é feito com pastelões americanos, piadas sobre peido ou no estilo global diarista-sob nova direção-casseta e planeta, mas sim com muita acidez, personagens escrotos e situações tendendo para o politicamente incorreto - sem forçação de barra. E é como defino O Cheiro do Ralo, dirigido por Heitor Dhalia e baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli. O personagem de Selton Mello, Lourenço, é o cara mais escroto que existe, e é aí que está metade da graça do filme.


O filme, basicamente, é sobre um ralo, um olho e uma bunda. Entre essas três opções, fico com a bunda, e com a frase superescrota do Lourenço:


“Eu poderia passar semanas só olhando pra essa bunda. Mas eu não quero casar com essa bunda. Eu quero é comprar ela pra mim”.




Cartola - Música para os Olhos: 13h15 17h 20h45 exceto segunda, terça e quinta

O Cheiro do Ralo: 15h 18h45

quinta-feira, abril 19, 2007

Caio Prado Júnior

Em razão do centenário de Caio Prado Júnior, a Biblioteca Nacional promove, agora às três da tarde, uma mesa-redonda com o título Caio Prado Júnior: vida e obra. Também ficará aberta na BN, até o dia 18 de maio, uma exposição dedicada ao centenário deste grande intelectual brasileiro.


Há algum tempo atrás, postei aqui um texto que mencionava fatos recentes da História do Brasil e separei, naquela ocasião, uma frase do livro Evolução Política do Brasil (1933), de Prado Jr (que acabei não usando). Reproduzo-a agora, uma vez que considero tal frase bastante pertinente para repensarmos a História que tradicionalmente nos é ensinada nas escolas e em muitas universidades:



“Os heróis e os grandes feitos não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes, em cujo benefício se faz a história oficial”.



E seguindo o rastro de homenagens, encerro esta postagem com outra bela frase de Prado Jr, que consta no folder de divulgação do evento supracitado:



"Refiro-me ao intelectual atuante, ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim, e daí contempla sobranceiro o mundo, (...) aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa".

terça-feira, abril 17, 2007

Contagem de corpos

Já escrevi hoje aqui no blog, e o tema é inclusive bem mais palatável do que esse. Mas não pude me furtar de desabafar aqui depois do que acabou de acontecer.


Há alguns minutos, por volta das 15hs, escutei três tiros do escritório onde trabalho, junto ao Consulado Estadunidense. Já está na página virtual do Globo (e os ascensoristas daqui, e por extensão todos no prédio, já sabem): uma tentativa de assalto resultou num assaltante morto e duas pessoas feridas (outro assaltante e o assaltado).


Lembrei-me então que chegara atrasado hoje por causa de um congestionamento causado pela chamada “guerra do tráfico” no Morro da Mineira, localizado em cima do túnel Santa Bárbara. O Globo virtual revela: “pelo menos 14 bandidos, segundo a PM, morreram na favela”.


Até agora, portanto, já contamos 15 mortos.


A esses quinze, podemos somar um empresário de funkeiros morto a tiros no Irajá e seis homens mortos a tiros por policiais na favela do Rebu, em Senador Camará, na madrugada de ontem pra hoje.


Nas minhas contas, 15 + 7 = 22.


A divertida Nair Belo também faleceu, mas de morte natural, então não conta. São, até agora (e que eu saiba, podem haver mais) 22 mortes por armas de fogo em menos de 24 horas – e só na cidade do Rio de Janeiro.


E qual a manchete de capa de hoje do mesmo Globo?


“A maior tragédia das armas”.


Mas eles estão se referindo ao massacre feito por um sul-coreano numa universidade da Virginia. O cara matou 32 pessoas por lá. Mas sei que, se o pessoal daqui se esforçar, sem dúvidas consegue bater esse recorde.


Pronto, era isso. Depois desse breve choque de realidade, podemos voltar à mediocridade de nossas vidas, num lugar onde a vida não vale a pedra portuguesa em que se pisa.



Os livros com os quais andei

Desde a mais tenra idade, sempre fui um moleque obsessivo. Tendo desenvolvido o hábito da leitura desde cedo (o que agradeço a meus pais e ao Colégio de Aplicação), caso eu simpatizasse com o estilo de algum escritor, passava imediatamente a devorar toda a sua obra. Comecei pelos que existiam na casa do meu pai, em sua maioria best-sellers: li uns dez livros de Sidney Sheldon, até cansar daquele estilo e partir pra Agatha Christie, de quem li mais uns quinze títulos. Depois foi a vez de Stephen King, mastigando quase tudo que este autor havia produzido na época.


Fazendo esta digressão pelo meu passado, aliás, vi que passei boa parte de minha infância e pré-adolescência lendo livros gringos de suspense. Os títulos brasileiros acabaram tendo pouco espaço nas minhas prateleiras, débito este que pretendo corrigir nos longos anos que me aguardam.


Mas voltando ao assunto, depois de um longo período compulsivo fui finalmente apresentado a Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, cujo estilo literário me era completamente estranho e pelo qual fiquei fascinado. E daquele momento em diante, minha obsessão passou a ser não propriamente um autor, mas sim um estilo específico, conhecido como realismo mágico (ou realismo fantástico), que encontrou na América Latina o seu mais profícuo terreno.

Em muitos livros deste estilo, os autores recorrem a narrativas fantásticas para contar histórias verdadeiras de lutas dos povos oprimidos, como o extermínio de trabalhadores grevistas na Colômbia em Cem Anos ou a revolta camponesa no Peru contra uma empresa mineradora norteamericana em Bom-dia para os Defuntos (livro que, aliás, já foi muito bem recomendado no quintal do camarada Diogo Lyra).


O segredo do realismo mágico reside, segundo o português João de Melo, na descoberta de uma prática ficcional “simples e simultaneamente deslumbrada, recorrendo aos grandes temas sociais, sem dúvida, mas envolvendo as realidades descritas numa auréola de sonhos, crenças e rituais lendários que bem podem estar na origem de uma nova mitologia literária.” Nada que pudesse satisfazer com mais propriedade meus anseios literários.


De fato, não é difícil aproximar a mitologia grega clássica do realismo mágico. Além da aura de fábula, da naturalização do fantástico e da presença do elemento sensorial como parte da percepção da realidade, também podemos encontrar em ambos os estilos uma representação cíclica do tempo, onde presente e passado se visitam e se misturam sem respeitar uma linearidade.


Isso me remete à história deus grego Prometeu, que enfureceu Zeus por levar o fogo à humanidade e, como castigo, foi amarrado ao Monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia monstruosa devorava parte do seu fígado – que voltava a crescer e era devorado no dia seguinte, todos os dias, por um período de cerca de 12 gerações. E o que dizer do cavalo de Pedro Páramo (primoroso livro de Juan Rulfo), que continuava a cavalgar todas as noites até a casa da amada de seu dono – mesmo depois deste ter morrido?


Estou seguro (expressão típica da língua espanhola) que até hoje nenhum estilo literário me foi tão instigante quanto o tal realismo mágico – tanto que já reli maioria dos livros que tenho. Assim, àqueles que não tiveram a oportunidade de se maravilhar com a fantasia latino-americana, deixo uma lista contendo alguns destes títulos, para que possam fazê-lo no futuro (ou no passado, já que nestas histórias o tempo é relativo):


De Gabriel García Márquez: Amor nos Tempos do Cólera, uma fantástica história de amor; Memórias de Minhas Putas Tristes, o mais recente, curto e lírico, ideal pra os neófitos que desejam se iniciar na leitura; e Cem Anos de Solidão, hors concours, que emplacou inclusive o prêmio Nobel de literatura de 1982.


De Juan Rulfo: Pedro Páramo e Planalto em Chamas. São os dois únicos livros que o autor escreveu, e desde então vastamente estudados nas universidades desde que foram publicados, nos anos 50 - tendo influenciado García Márquez e vários outros autores. Neste ano ganharam nova tradução em edição recente, sendo o Planalto rebatizado de Chão em Chamas.


De Manuel Scorza: Bom-dia para os Defuntos revela uma primorosa escrita do autor, e uma tragédia vivida pelo povo peruano nas mãos da Cerro de Pasco Corporation.


De Júlio Cortazar não li nada, infelizmente, mas já me recomendaram O Bestiário.


De Manuel Vargas Llosa: não sei se caberia chamar de realismo mágico, mas que se dane: Pantaleão e as Visitadoras brinca com os procedimentos e burocracias militares e é o livro mais divertido que já li.





segunda-feira, abril 16, 2007

Ainda sobre o "baixo"


...E enquanto o Gol Mil não vem, reproduzo aqui duas sugestões extraídas do texto de L.A. Simas:



1. Romário faz o milésimo gol, só que contra. Seria fantástico ver o baixinho meter seu gol 1000 no próprio Vasco, não?


2. Roma não faz o gol, nem daqui há um mês, nem nunca mais. Encerra sua carreira no 999, a "besta invertida".



Difícil saber qual é a melhor opção. Mas bom mesmo é ler o texto do Simas na íntegra, cujo sugestivo título é "Ei, Galvão, vai tomar no cu".

quinta-feira, abril 12, 2007

O carro do Romário

Ele é milionário e pode ter Audis, Astras, Pajeros, até mesmo Ferraris, Porsches e Lamborghinis. Mas existe um carro que o baixinho não consegue dirigir...














infame, não?

terça-feira, abril 10, 2007

Tupi or not tupi, that is the question

Caso um neófito em história brasileira republicana se proponha nela mergulhar, com o intuito de desvendar o período em que a questão da identidade nacional começa a ser abertamente estruturada por intelectuais, artistas e até mesmo autoridades governamentais do país, encontrará seguramente nas décadas de 1920 e 1930 a sua fase mais frutífera. Tendo a abolição da escravatura e a proclamação da República como processos recentemente deflagrados, o Brasil do início do século XX procurou, através do movimento modernista, estabelecer um novo tipo de diálogo com as informações irradiadas dos países centrais.


Nesta época, as influências externas que chegavam ao Brasil estavam relacionadas ao processo civilizador pelo qual nações como França e Inglaterra haviam recentemente atravessado em suas conjunturas internas. Uma vez visto como completo e terminado pelas sociedades européias em seu próprio seio (especialmente no e após o século XIX), o conceito de civilização se transforma em justificativa para a conquista e dominação de povos não-europeus, vistos como incivilizados e, portanto, inferiores, da mesma maneira como a aristocracia da corte se enxergava perante os outros estratos sociais que a rodeavam.


Se a civilização tinha a Europa como centro, o ingresso do Brasil nos tempos modernos, especialmente após o advento da República, implicava a imposição de um modelo de civilização que excluía a diversidade brasileira, pois que calcado na experiência européia. O endeusamento do modelo civilizatório, notadamente parisiense, crescia durante as primeiras décadas do século XX, em detrimento da mistura de tradições que caracterizava a sociedade brasileira.


Neste período, conhecido como a belle époque carioca, a postura da elite (especialmente no Rio de Janeiro, então capital da República) era a de negar qualquer manifestação da cultura popular, o que era feito através da expulsão dos pobres e portadores de heranças culturais tradicionais dos centros (o que ocorreu no Rio através das reformas do prefeito Pereira Passos no panorama urbanístico do centro da cidade, na década de 1910) e da tentativa de erradicação das religiões afro-brasileiras e do controle policial das festas carnavalescas.


Tal visão elitista, como fica claro, encontrava-se impregnada de valores construídos de fora para dentro, resultante de um grande torcicolo cultural que denunciava o papel central de países estrangeiros na constituição do caráter nacional do Brasil. Com efeito, o vírus do recalque só acharia um antídoto, ao menos no plano cultural, a partir da fruição intelectual ocorrida no movimento Modernista.


Não irei aqui me deter nas idiossincrasias do Modernismo, uma vez que tal esforço exigiria a redação de um novo artigo (o que provavelmente farei em outra oportunidade). O importante, neste momento, é frisar que os modernistas brazucas procuraram valorizar um olhar introspectivo em relação à sua própria cultura, sem que a proposta de um contato mais direto com as particularidades brasileiras fosse revestida de um caráter exótico e cerrado, cientes que estavam da necessidade de alinharem-se à marcha de modernidade e progresso, símbolos da civilização européia que aqui se fazia impor.


O ponto é que, desde então, a discussão entre o que é parte da “cultura brasileira” e o que seria “influência externa” tem alimentado discussões em salas de aula, pátios de faculdades, mesas de botequins. Enquanto Mário de Andrade, na década de 20, não via com bons olhos a proposta oswaldiana de absorver influências externas – cioso da possibilidade de descaracterização da nossa cultura – , o crítico José Ramos Tinhorão, quase 50 anos depois, chegava ao ponto de ver na Tropicália de Gil e Caetano um plano para impor a dominação cultural estadunidense (afinal, aqueles baianos estavam botando roquenrol na bossa-nova, que porra é essa?).


Pra não dizerem que estou exagerando, vejam o que o cara escreveu:


“Alinhados com o pensamento expresso por seu líder Caetano Veloso, “Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas”, os tropicalistas renunciaram a qualquer tomada de posição político-ideológica de resistência e, partindo da realidade da dominação do rock americano (então enriquecido pela contribuição inglesa dos Beatles) e seu moderno instrumental, acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar de 1964 no plano político-econômico. Ou seja, a tese de conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no país” (Tinhorão, História social da música popular brasileira, p. 324-325).


Com o movimento Mangue não foi diferente. A peleja entre Chico Science e o escritor Ariano Suassuna, Secretário de Cultura de Pernambuco entre 1995 e 1998 (durante o governo de Miguel Arraes), resultou em frases como esta, dita por Suassuna a Chico:


“Você está servindo de ponta-de-lança para os piores inimigos do Brasil, aqueles que tentam descaracterizar a nossa cultura. Mude o nome de Chico Science para Chico Ciência que eu subo no palco do seu lado”.


Ou seja, existe um claro embate cultural travado há quase cem anos no Brasil (e também alhures) entre os que assumem uma postura “purista”, de defesa da legitimidade da cultura brasileira, e os que promovem a livre imbricação entre as culturas.



Pessoalmente, considero os dois lados discutíveis, pois se há algo de nocivo na irrefletida absorção de elementos culturais externos, por outro lado acho um tanto complicado recorrer a uma suposta “legitimidade” cultural tupiniquim – e assim como Alfredo Bosi, me recuso a ver a “cultura brasileira” assim, no singular, preferindo pensar em “culturas populares” de forma plural.



segunda-feira, abril 09, 2007

Churrasco na Floresta da Tijuca

Difícil, para realizar um programa como esse, é acordar cedo num dia de sábado. Superado este obstáculo, porém, a recompensa é imensurável: clima aconchegante, cerveja gelada, múltiplas carnes na brasa e a agradável companhia de amigos, bebês, borboletas, micos e guaxinins. Só faltou levar o violão.





A companhia de amigos: da esquerda pra direita, uma menina de lacinho rosa, Ligita, Cris, Cissa carregando o pequeno Otto, Paulinho, Lelo, Nanda, Dig e Guto. Vale dizer que metade desse pessoal nós encontramos na Floresta por acaso! Coisas da vida.





Nas lentes, este que vos escreve. E pilotando a churrasqueira, adivinhem – ela mesmo, minha bonita! É que, como bem frisou a Ligita, alguém tem que fazer o papel de homem nessa galera!







E na foto abaixo vocês podem ver o Otto, o bebê mais zen dessa Cidade Maravilhosa, tomando um chifrinho do sempre zoador Diogo Lyra, aquele que não poupa nem homem, nem mulher, nem ao menos velhinhos e sequer bebês!


quinta-feira, abril 05, 2007

O novo e o velho


"Não tenho ilusões de ser compreendido pelos jovens, porque é impossível instaurar uma relação de caráter cultural com eles, já que vivem novos valores com os quais os velhos valores - em nome dos quais eu falo - são incomensuráveis."



Pasolini

quarta-feira, abril 04, 2007

O fino do mau humor

Inaugura-se hoje, neste muquifo virtual, a coluna de El Cascarravias, que irá escrever sempre que lhe saltar a veia do meio da testa. Postei umas fotos para "colorir" um pouco o texto. E para os que não conhecem o estilo deste pujante escritor, leiam a frase que o próprio me mandou, apresentando este primeiro libelo:


"segue minha espuma de canto de boca dessa semana".



Divirtam-se... se puderem.



* * *



Deixai fazer, deixai passar...


Além dos amigos do Arthur com um outro amigo em comum, quem mais costuma ouvir falar da Comissão de Valores Mobiliários? Virtualmente ninguém, e a razão é simples: trata-se de uma autarquia com atuação discreta, e cujas funções, em condições normais de temperatura e pressão econômica, são de pouco interesse para o noticiário, ávido de factóides. Há pouco mais de dez dias a CVM tem se tornado vedete, se não do noticiário em geral, no mínimo dos cadernos voltados para economia; pequena pausa para uma olhadinha na página de economia mundial. Olha vejam só, não é que a União Européia está neste mesmo jornal, e por motivos ‘estruturalmente’ semelhantes ao do caso anterior? Chega de bobagem, aos fatos.


A CVM ronda as colunas de Miriam Leitão (putz!) e seus pares por ter encontrado uma saída clássica pra desviar a atenção de eventuais problemas internos: apontar erros externos. Se um certo governo prepotente de uma certa nação imperialista da América do Norte pode arrasar uma nação com este intuito, é razoavelmente tranqüilo que uma repartição pública atrapalhe negociatas escusas pra que esfriem rumores quanto à sua administração. De mais a mais, esta é sua função. Dando nome aos bois (ou crocodilos), as autoridades públicas responsáveis por controlar minimamente o mercado de capitais quiseram um pouco mais de explicações para os movimentos, mais do que atípicos, percebidos na movimentação de compra e venda de ações – da Ipiranga primeiro, e agora da Varig. Um cheiro de maracutaia foi sentido no ar depois que valorizações ‘sospechosas’ precederam dias de decisões cruciais na organização dessas empresas.


E a União Européia nessa? Bem, assisti ontem a indignação dos auditores do Velho Mundo com o padrão de comportamento da Apple em seu continente. Concluíram que as práticas comerciais da empresa de informática, no que se refere à negociação de músicas no espaço virtual, agrediam frontalmente as regras da harmoniosa concorrência; tucanaram o monopólio com o nome de cartel. Os astutos executivos da maçã digital elaboraram um eficiente esquema para evitar que portadores de dinheiro mais valioso conseguissem comprar o mesmo produto mais barato em outras paragens.


Há algo em comum nos dois casos? Muito. Em qualquer um dos dois, percebe-se claramente onde vai parar o ‘livre funcionamento das forças de mercado’: monopólio, predação, concentração. A falácia do laissez-faire como promotor preferencial dos interesses sociais cai por terra quando se dá uma olhadela em como funciona realmente o capitalismo contemporâneo. Deixado a sua própria sorte, o que o mercado promove é a aniquilação dos interesses gerais em nome do mais forte. Nada mais condizente com a lógica do salve-se quem puder em ambiente de competição.


Qual foi a resposta? A mesma que deram Bismarck na Alemanha, Napoleão III na França, Vargas no Brasil, e os EUA ao longo de toda sua história a partir do final do século XVIII: sem participação ativa do Estado, a economia leva ao fortalecimento gradual do mais forte, rumo ao colapso.


É por isso que não tenho dúvida – liberalismo no dos outros é refresco.


El Cascarravias

segunda-feira, abril 02, 2007

BBB 7


...E mais uma vez na história recente, homens, mulheres e crianças se unem para saudar o escolhido e gritar aos quatro ventos:




- Alemão, o povo está com você!!!







p.s. - Tá bom, eu sei que o cara aí em cima era austríaco, mas não queria perder a piada...

quinta-feira, março 29, 2007

Etnocentrismo (ou a peleja virtual de um Anarco-punk de Uberlândia contra um Anarco-gringo de Boston)

Há um texto que publiquei nesta página, quando da visita do delegado do mundo ao nosso território, que gerou um número recorde de intervenções – hoje, já passam de 50 comentários, como vocês podem conferir aqui. Isto se deu, basicamente, por causa de uma interminável discussão entre dois amigos meus (que não se conhecem), um legítimo brazuca e um gringo dos States. Embora o tema da discussão fosse eminentemente político, não foram poucas as vezes nas quais a discussão resvalou para as clássicas divergências culturais.



Durante o meu convívio com o americano em questão (trabalhamos juntos por cerca de três anos, dando aulas de inglês), percebi o quanto o cara sofria simplesmente por ser americano. Volta e meia, pessoas – inclusive alunos seus – lhe botavam o dedo na cara, culpando-o por todos os atos nefastos dos governos estadunidenses, de Lincoln a Bush. Meu próprio amigo de Uberlândia comenta, nessa batalha virtual, que “se vem de qualquer lugar ao norte de Tijuana, já nasce culpado por 80% dos problemas do mundo”.



Não obstante, sempre achei que este gringo diferia dos outros que eu havia conhecido, porque tinha uma opinião crítica em relação às atrocidades cometidas pelos governos do seu país, se colocando contra Bush, Blair, direitistas, esquerdistas, até mesmo Israel! E por isso eu procurava defender seus pontos de vista, sempre que achasse isso viável.



Isso até o ponto em que algumas questões culturais começaram a pipocar na tal peleja. Do alto da sua arrogância – meu camarada ianque pode ser gente boa, mas é, como talvez TODOS os americanos, arrogante – esse gringo sobre quem falo começou a distribuir “sugestões” aos brasileiros em geral – entre elas, a de pararmos de comer farofa em nossos churrascos e começarmos a jogar baseball, por exemplo, ao invés de esportes “de garotas”, como o futebol.



Se você é brasileiro, deve estar, no mínimo, boquiaberto. Se você é gringo, não deve estar compreendendo o que se passa aqui. E é aí que entra a questão daquilo que os antropólogos mais lúcidos chamam de “relativismo cultural”, algo que vai contra o etnocentrismo, ou seja, a tendência que cada indivíduo possui de considerar a sua cultura melhor que a de outrem.



Não pude, obviamente, ficar calado após essas “sugestões” do “americano tranqüilo”. Porque assim como todos os povos e sociedades, nós (ou a maioria de nós) acreditamos que nossos esportes são melhores, nossa música é melhor, nossas mulheres são melhores (tá, essa última é golpe baixo, até os americanos admitem que as nossas mulheres são, de fato, melhores). Mas dificilmente nos vestimos com tanta petulância e prepotência para impor nossos parâmetros culturais a pessoas dotadas de outros padrões, subjugando-as com tanta “tranqüilidade” – se vocês ainda não leram os comentários, façam isso e digam se estou exagerando ou não!



Mesmo assim, sigo defendendo a tolerância no trato com as diferenças culturais. É importante que a gente se rebele, até como exercício identitário, nos negando a absorver determinados “antropofagismos culturais” que só vêm para matizar e dizimar aquilo que consideramos nossas raízes culturais (taí mais um daqueles temas espinhosos, “raízes”...). Não precisamos adaptar-nos a outros padrões culturais, mas creio que é importante saber respeitá-los, mesmo que isso seja tão difícil quando, por exemplo, trata-se da cultura americana. Intolerâncias de qualquer tipo não costumam ter resultados práticos muito positivos, como vemos em vários cantos do mundo – o que não significa que devemos abaixar a cabeça ou dar um sorriso amarelo para os que tentam menosprezar nossos valores e dar-nos lições de como nos comportar.



Afinal, repetindo as sábias palavras do Senhor Lyra, “numa coisa todo mundo é igual: todo mundo é diferente”.

quarta-feira, março 28, 2007

A incrível, triste e verdadeira história da prisão de Lyra e as agruras de um homem no cárcere privado de sua primavera madura

Parte final




(para entender a história é necessário ler os capítulos anteriores, que se encontram aqui e aqui).





Terça-feira à noite, dia 20 de março. Dia de eliminação do Big Brother Brasil. Dois bandidos, enclausurados em uma pequena casa de alvenaria na zona oeste do Rio de Janeiro, abrem as primeiras latinhas de cerveja dos dois engradados que haviam pedido por telefone ao bar mais próximo, para acompanhar o emocionante paredão. O laptop, conectado à internet, já se encontra na página da Globo.com para que pudessem votar repetidas vezes em quem desejavam eliminar do jogo.



Havia, no entanto um fator de desarmonia na pequena casa: Gilson, rapaz novo e magro, votava compulsivamente para a saída de Cowboy, enquanto Wellington, um negão de um metro e noventa por dois de largura, torcia pra que a DJ Analy fosse a eliminada. Os motivos de cada um eram até convergentes: ambos acreditavam que o Cowboy era um filho-da-puta, motivo que fazia com que Gilson desejasse a sua saída e Wellington, a sua permanência – “pra ver o circo pegar fogo”, como bem gostava de dizer.



A população do Brasil, entretanto, estava com Gilson, e foi impiedosa no seu veredicto: com 85% dos votos, Pedro Bial anunciou, sem esconder sua satisfação: “Rala, Cowboy!”. Gilson não se cabia de tanta alegria, enquanto Wellington, cheio de cerva na idéia, grunhia puto da vida, até que resolveu descontar sua frustração no corpo do jovem franzino que mantinham preso no fétido quartinho dos fundos.



Mas o frio coração dos vilões foi tomado por um sobressalto quando lá chegaram: o quarto encontrava-se vazio. Nosso astuto herói, Diogo Lyra, fundador e faxineiro do Fundo de Quintal Literário, havia conseguido fugir do cárcere, encoberto pelo alto volume da TV. Os bandidos não puderam explicar porque é que os cachorros dormiam pesadamente ao invés de vigiar os arredores da casa, e bateram cabeça tentando achar nosso esquivo herói nas imediações – sem sucesso. E assim transcorreu-se a noite.





No dia seguinte, a notícia de que Diogo Lyra estava solto já era postada no FQL, enquanto a polícia prendia Paulito no mesmo local onde Diogo havia sido seqüestrado. Não foi difícil, através de Paulito, chegar ao advogado Olavo Lebre Cabrito, que também foi preso. Para terminar de desbaratar a quadrilha, a polícia também deteve Son Soh, Lao Chi Chi e Gil Evans, que, temerosos em serem deportados, explicaram todo o plano aos policiais.



Ficou claro que o trio imigrante é que tinha maior interesse no sumiço de Lyra, pois que desejavam apoderar-se do Fundo de Quintal Literário e, corrompendo seus milhares de leitores, dominar o mundo. Para ajudar na execução de tal plano maligno, veio a calhar uma carta que receberam, na redação do FQL, recheada de ameaças de morte endereçadas a Diogo Lyra, carta esta cujo remetente se dizia um antigo colega de classe do nosso herói (Lyra, um gozador nos seus tempos de moleque, havia destruído a imagem e reputação do colega ao afirmar que este nutria tendências homossexuais, algo inadmissível para aquela conservadora turma de adolescentes estudantes de Irajá. Este amigo, como o sagaz leitor já deve ter concluído, atendia pela singela alcunha de Paulito).



Assim, o trio iletrado aproveitou-se da situação para utilizar a ajuda não só de Paulito, mas também do insatisfeito advogado Olavo Lebre Cabrito, e assim arquitetaram um diabólico plano, contando ainda com a ajuda de dois bandidos de alta periculosidade da zona oeste – Gilson e Wellington, assassinos, estupradores e fãs de carteirinha do Big Brother.


E acabaram, na mesma cela, Son Soh, Lao Chi Chi, Gil Evans, Gilson, Wellington e Paulito. Olavo Lebre Carneiro, que era de fato advogado, teve direito a cela especial.


E mesmo depois de semanas, Carneiro ainda podia ouvir os gemidos de Paulito, vindos do fundo do corredor da prisão ao cair da noite. É que uma coisa Gilson e Wellington tinham em comum: reincidentes na prisão, há muito tempo que ambos eram chegados numa carne fresca...





Epílogo



Mesmo com todo o caso resolvido, uma dúvida pairou na cabeça dos bandidos: como é que Diogo, com toda a falta de direção que lhe é inerente, conseguiu escapar de um barraco na zona oeste e chegar até o centro do Rio de Janeiro?



O que os vilões não contavam é que Arthur Coelho Bezerra, este autor que lhes escreve agora, na qualidade de amigo de primeira grandeza do fundador e faxineiro do FQL, havia descoberto todo o plano dos imigrantes – o fiz utilizando meus conhecimentos de inglês para ouvir uma conversa de Gil Evans ao telefone, na porta de um bar na Lapa.



Ciente do diabólico plano, e já com o endereço do cativeiro, parti para a zona oeste pilotando a Pantera – a superpoderosa Parati 1997 movida a gás da minha bonita. Lá chegando, tratei de ir ao bar mais próximo, expliquei a situação para o seu Gervásio (dono do estabelecimento, muito simpático e solícito, por sinal) e me disfarcei de entregador, para confirmar a história.



Depois de entregar cerveja aos criminosos, deixei um pedaço de carne com sonífero para os ferozes cães e acenei discretamente para meu grande amigo, que podia me ver através de uma pequena janela nos fundos da casa.


Quando Lyra conseguiu escapar, passando entre os adormecidos caninos, eu já o aguardava com a Pantera ligada na esquina da rua, e foi assim que voltamos felizes para o coração da cidade maravilhosa, ouvindo uma coletânea da bela Julie London no CD do carro.





fim.

terça-feira, março 27, 2007

Os discos do Pink Floyd



Qual é o seu disco preferido?



?

segunda-feira, março 26, 2007

A incrível, triste e verdadeira história da prisão de Lyra e as agruras de um homem no cárcere privado de sua primavera madura



segundo capítulo






(para saber como começa essa história, clique aqui).







Enquanto o nosso herói Diogo Lyra, fundador e faxineiro do Fundo de Quintal Literário, era jogado em um pequeno quarto de 2 x 3, em algum bairro da distante zona oeste do Rio de Janeiro (os criminosos nem se preocuparam em vendá-lo, pois sabiam que o pobre faxineiro se perdia fácil nessas imediações), lembrava-se do grande filme Old Boy, no qual um homem é seqüestrado e posto em um quarto sem saber o motivo, e sem saber por quanto tempo ali ficaria. Na película, o homem é mantido no cárcere por 15 anos até ser espontaneamente liberto – tempo este que Lyra não estaria disposto a permanecer preso.




Utilizando de toda a sua sagacidade, empenhou-se em tentativas diárias de fuga, infelizmente sem sucesso. Mas após quase uma semana no cárcere, Lyra conseguiu sair do quarto onde estava, enquanto seus seqüestradores roncavam pesado com a TV ligada no Fantástico. Não pôde fugir, entretanto, já que ferozes cães cercavam a pequena casa de alvenaria. Mas teve a chance de acessar um laptop que se encontrava sobre uma poeirenta mesa, e instintivamente digitou o endereço virtual de seu local de trabalho.




Qual não foi surpresa ao ver que a notícia de sua “prisão” estava lá divulgada! E para seu estarrecimento maior, dois dias depois já havia uma nova postagem, assinada por um dos imigrantes ilegais que compunham a equipe do FQL, narrando um sem-número de absurdos, uma história pra lá de fantástica envolvendo celebridades e um sujeito gordo chamado Olavo Lebre Cabrito, apresentado como advogado.




Um advogado gordo? Aquela história não lhe cheirava bem.




Lyra lembrou-se rapidamente do motorista do carro importado – o mesmo advogado gordo – no qual fora seqüestrado quando tentava estacionar. E ficou ali, sem reação, tentando juntar as peças daquele quebra-cabeças, até passar para a próxima postagem do blog e ver, mais surpreso ainda, que Son Soh, Lao Chi Chi e Gil Evans, membros da equipe do FQL, haviam assumido o controle total da página virtual.




Ora, é sabido que Diogo Lyra, sempre metódico e perfeccionista, nunca havia permitido que estes imigrantes ilegais e semi-analfabetos escrevessem no blog, preocupado que estava em manter o padrão de qualidade de tudo que fosse ali postado. E agora, uma vez mantido em cativeiro, observava atônito o trio iletrado tomando conta das funções editoriais da página.




Mal teve tempo de se recuperar do choque, Lyra foi surpreendido por uma bordoada na cabeça, vinda de um dos seus algozes, que havia despertado ao ouvir a música de abertura do Big Brother Brasil – programa preferido dos dois criminosos que ali o mantinham preso. E Lyra recolheu-se ao chão, urrando de dor, enquanto os dois vilões espancavam-no sem qualquer piedade. Destruído, amassado, esculhambado, Lyra foi arrastado de volta ao seu cubículo, e recolheu-se em um dos cantos fétidos do mesmo enquanto arquitetava o seu plano de fuga.











Aguardem para ler, nesta quarta-feira, a conclusão desta incrível, triste e verdadeira história.

domingo, março 25, 2007

O porco de Rogério das Águas




* * *




Eu ao lado de Roger Waters, no longínquo verão de 1973

sexta-feira, março 23, 2007

A incrível, triste e verdadeira história da prisão de Lyra e as agruras de um homem no cárcere privado de sua primavera madura

Por Arthur Coelho Bezerra




Fazia um calor ameno na manhã de segunda-feira, dia 12 de março, quando o fundador e faxineiro Diogo Lyra se dirigia para o seu trabalho no escritório do Fundo de Quintal Literário, que ocupa uma modesta sala em um prédio comercial do Bairro de Fátima. Como estivesse adiantado em seu horário, Lyra resolvera parar no botequim de esquina da rua Monte Alegre para tomar um pingado e comprar seu maço de cigarros, grande companheiro nos momentos de solidão que pontuam o seu fatídico dia de trabalho.



Não foi sem surpresa que Lyra, ao terminar seu desjejum, avistou um antigo amigo dos tempos de colégio, localizado no saudoso bairro do Irajá. Paulito cumprimentou-o com um largo sorriso, e Lyra dispôs-se chegar cinco minutos atrasado no escritório para ter a chance de ouvir o que a vida tinha reservado a este antigo colega – mesmo sabendo que era ele, Lyra, o responsável por abrir a porta para que a equipe do FQL pudesse dar início às suas atividades.



Paulito contou a Lyra que, embora a maior parte da sua renda mensal viesse do trabalho de michê, que desempenhava nos cantos ermos da rua do Lavradio, procurava trabalhar durante o dia como guardador de carros, ali mesmo, nas imediações da Monte Alegre. Diogo ouvia a história com um certo pesar, uma vez que seu amigo não tivera a mesma sorte que ele na vida. E foi neste momento que, comovido por uma lágrima que displicentemente rolara no rosto de Paulito, Lyra aceitou a proposta de tomar conta do ponto do amigo por não mais que cinco minutos, enquanto Paulito ia receber um dinheiro pelos serviços prestados na noite anterior. Lyra, que já fora muito gozador em sua juventude, resolveu experimentar os louros da maturidade e ser solidário com o antigo companheiro. “Tudo pela felicidade dos meus amigos”, foi o que disse com um sorriso sincero.


E passaram-se cinco, dez, quinze minutos. Lyra já se mostrava preocupado, porém não podia abandonar o amigo, e tampouco telefonar para alguém da equipe do FQL para justificar o atraso, pois que sempre fora relapso com os seus celulares que, invariavelmente, perdia nas noites de bebedeira intensa.



Já estava quase desistindo quando pára um carro importado, de vidros fumê, de onde brota um senhor gordo, engravatado, que se apresenta simplesmente como “advogado” e, jogando as chaves na direção do franzino faxineiro, pede, sem cerimônias, que este estacione o seu carro, lhe estendendo uma nota de dez reais. Antes de Diogo poder balbuciar qualquer coisa, o homem desaparece na multidão, deixando-o só com o veículo.


Quem conhece o nosso herói sabe: Diogo não tem a menor vocação para motorista. Mas o que fazer? Não podia deixar aquele veículo importado, caríssimo, parado em fila dupla no meio de uma rua tão movimentada. Queimaria o filme do amigo. Eis que novamente tomado pelo ímpeto da solidariedade, a frase “tudo pela felicidade dos meus amigos” ecoando em sua cabeça, Lyra decide encarar o desafio e entra no possante, procurando familiarizar-se com os pedais, sentindo o câmbio pela primeira vez em muitos anos, experimentando uma leve sensação de poder atrás do volante. Mas foi um momento breve.



Em poucos segundos, a sensação de segurança se transfigurou em completo medo quando Lyra sentiu o frio cano da arma lhe cutucar as costelas. Atrás da pistola, uma voz lhe ordenou em alto e bom som:




- feche a porta e pule para o banco do carona.











Continua...

quarta-feira, março 21, 2007

Rage e Ginsberg contra a Máquina



Pelo menos na minha geração, a banda que conseguiu estabelecer a melhor junção entre música e contestação sociopolítica foi Rage Against the Machine. Através de um som porrada, para o qual contribuíram diversas vertentes do rock e do hip hop, a banda californiana projetou sua raiva contra a máquina imperialista americana, engajando-se, entre outras, na causa dos guerrilheiros zapatistas e na defesa de Mumia Abu-Jamal, membro dos Panteras Negras, e de Leonard Peltier, índio da tribo Sioux (sobre o caso de Mumia você lê aqui, e sobre Peltier, aqui).


Embora o guitarrista do RATM, Tom Morello, fosse graduado em Sociologia pela Harvard (além de sobrinho do primeiro presidente do Quênia), as letras da banda sempre foram compostas pelo vocalista Zack de la Rocha, filho de uma antropóloga e de um artista de um grupo político ligado a agricultores mexicanos. Os de la Rocha entendiam bem o que significava ser chicano na “América”, uma realidade tratada em letras como People of the Sun e Without a Face.


Uma música, entretanto, chamou-me a atenção por não ter tido a letra escrita por Zack. Isto porque a tal canção, de título Hadda Been Playing On The Jukebox, é na verdade a declamação de um poema homônimo do beatnick Allen Ginsberg, escrito em 1975.




Em Hadda Been Playing On The Jukebox, Ginsberg narra diversos eventos ocorridos nos anos 60 e 70 – incluindo o assassinato de Kennedy –, fala de americanos poderosos como Rockefeller, Nixon, J. Edgar Hoover e Frank Costello, afirma que a KGB e o FBI pensam da mesma maneira e brada: “It had to be the CIA and the Mafia and the FBI”; “One big set of gangs working together in cahoots”.


Abaixo reproduzo o poema, conforme cantado por Zack no disco Live and Rare, lançado pela Sony Japan em 1998.



Hadda Be Playing On The Jukebox


It had to be flashin' like the daily double
It had to be playin' on TV
It had to be loud mouthed on the comedy hour
It had to be announced over loud speakers

The CIA and the Mafia are in cahoots

It had to be said in old ladies' language
It had to be said in American headlines
Kennedy stretched and smiled
and got double crossed by lowlife goons and agents
Rich bankers with criminal connections
Dope pushers in CIA working with dope pushers from Cuba
working with abig time syndicate from Tampa, Florida
And it had to be said with a big mouth

It had to be moaned over factory foghorns
It had to be chattered on car radio news broadcasts
It had to be screamed in the kitchen
It had to be yelled in the basement where uncles were fighting

It had to be howled on the streets
by newsboys to bus conductors
It had to be foghorned into New York harbor
It had to echo onto hard hats
It had to turn up the volume in university ballrooms

It had to be written in library books,
footnotedIt had to be in the headlines
of the Times and Le Monde
It had to be barked on TV
It had to be heard in alleys through ballroom doors

It had to be played on wire services
It had to be bells ringing
Comedians stopped dead in the middle of a joke in Las Vegas
It had to be FBI chief J. Edgar Hoover and Frank Costello
syndicate mouthpiece meeting in Central Park,
New York weekends, reported Time magazine

It had to be the Mafia and the CIA together
starting war on Cuba, Bay of Pigs
and poison assassination headlines


It had to be dope cops in the Mafia
Who sold all their heroin in America

It had to be the FBI and organized crime
working together in cahoots against the commies

It had to be ringing on multinational cash registers
A world-wide laundry for organized criminal money

It had to be the CIA and the Mafia and the FBI together
They were bigger than Nixon
And they were bigger than war

It had to be a large room full of murder
It had to be a mounted ass- a solid mass of rage
A red hot pen
A scream in the back of the throat

It had to be a kid that can breathe
It had to be in Rockefellers' mouth
It had to be central intelligence, the family, allofthis, the agency Mafia
It had to be organized crime
One big set of gangs working together in cahoots
Hitmen
Murderers everywhere

The secret
The drunk
The brutal
The dirty and rich
On top of a slag heap of prisons

Industrial cancer
Plutonium smog
Garbage cities
Grandmas' bed soft from fathers' resentment
It had to be the rulers
They wanted law and order
And they got rich on wanting protection for the status quo

They wanted junkies
They wanted Attica
They wanted Kent State
They wanted war in Indochina, yeah

It had to be the CIA and the Mafia and the FBI

Multinational capitalists
Strong armed squads
Private detective agencies for the oh so very rich
And their armies and navies and their air force bombing planes
It had to be capitalism
The vortex of this rage
This competition
Man to man
The horses head in a capitalists' bed

The Cuban turf
It rumbles in hitmen
And gang wars across oceans
Bombing Cambodia settled the score when
Soviet pilotsmanned Egyptian fighter planes

Chiles' red democracy
Bumped off with White House pots and pans
A warning to Mediterranean governments
The secret police have been embraced for decades
The NKPD and CIA keep each other's secrets
The OGBU and DIA never hit their own
The KGB and the FBI are one mind

Brute force and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money

It had to be rich and it had to be powerful
They had to murder in Indonesia 500.000
They had to murder in Indochina 2.000.000
They had to murder in Czechoslovakia
They had to murder in Chile
They had to murder in Russia


And they had to murder in America.






E pra quem não conhece, é bom lembrar que Ginsberg não estava sozinho. Além de seu livro de poesias Howl (1956), outros pilares da geração beatnick são Jack Kerouack, com o clássico On the Road (1957), e o alucinado William Burroughs, com seus Junkie (Drogado, 1953) e Naked Lunch (Almoço Nu, 1959).

sábado, março 17, 2007

Enquanto isso, no céu...

O carioquíssimo maestro Tom Jobim, recostado em uma nuvem estacionada sobre o Rio de Janeiro, se abana alucinadamente e grasna:



- Ô São Pedro, cadê as águas de março pra fechar a porra do verão?






E o Santo, que deve ser paulista, mandou uma garoazinha de merda na noite de ontem. A primeira, diga-se de passagem, que cai sobre a cidade neste mês de março.