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sexta-feira, abril 11, 2008

Já vai tarde!

Charlton Heston






No sábado deste último fim de semana o inferno ganhou mais um ilustre morador. Charlton Heston, o famoso astronauta de Planeta dos Macacos (1968), o vencedor do Oscar de melhor ator em 1959 por Ben-Hur, o Moisés de Os 10 Mandamentos, morreu aos 84 anos, depois de um considerável período de hora extra na Terra.


Podíamos render-lhe uma homenagem por sua contribuição nas épicas obras cinematográficas supracitadas, não fosse a nefasta posição política que este ator assumiu junto a uma das instituições mais obtusas dos Us and A: o partido republicano.


A trajetória de vida de Heston não deixa dúvidas: seu coração batia mesmo no lado direito. Segundo o portal de notícias G1, o ator não hesitava em fazer campanha para candidatos republicanos e por várias vezes opôs-se publicamente a medidas políticas favoráveis aos negros e outras minorias. Não é à toa que o conservador John McCain, candidato à presidência dos EUA, referiu-se a Heston como "um líder na vida real".


Mas a maior mancha de sua carreira, creio, foi o apoio ao direito dos americanos de usar armas, postura que defendeu com unhas e dentes enquanto presidiu, por muitos anos, o NRA – National Rifle Association. Sua frase mais famosa, dirigida aos que apoiavam a proibição do uso de armas de fogo pela sociedade civil, era: “From my dead cold hands!”


No filme Tiros em Columbine, documentário de Michael Moore, não vemos a face do ator-herói em cima de uma biga (como em Ben-Hur), mas sim um senhor de idade que adota posturas bastante reprováveis, como visitar a cidade de Columbine para defender o uso de armas, dias depois do massacre no qual dois jovens estudantes mataram 15 pessoas em uma escola, usando espingardas, pistolas e um rifle semi-automático.


Foi ali que comecei a odiar esta figura, razão pela qual celebro o fim do que considero sua militância contra a vida. Finalmente, poderemos fazer o que o próprio Heston nos aconselhou: tirar as armas de suas mãos frias e mortas.

quarta-feira, março 12, 2008

Princípio de Reciprocidade

Há pouco vi, no telejornal da noite, imagens do primeiro espanhol "inadmitido" em solo brasileiro. Foi em Fortaleza. O oficial, sem fazer a menor questão de sequer arriscar um portunhol, barrou o hispânico em alto e bom cearensês, uma vez que o gringo não apresentava endereço fixo no país - só ficava balbuciando "Jericoacoara". E a autoridade ainda completou: "estamos usando o princípio da reciprocidade e, sem endereço fixo, o senhor não entra no meu país".


Minutos mais tarde, venho até o Absurdos e vejo um comentário da Pati, uma das estudantes que foi (junto a um grande grupo de brasileiros) "inadmitida" na Espanha e, portanto, impedida de chegar ao congresso do qual participaria em Lisboa, pois no meio do seu caminho havia uma pedra - chamada "vôo com escala em Madri".


O episódio canhestro e vergonhoso despertou uma onda de apoio que pode ser lida no blog dela: P.R., 23 anos, 1.5m, terrorista internacional. Lá estão transcritas as cartas de protesto do IUPERJ (instituição onde ela estuda e onde eu já estudei, daí a proximidade da coisa), da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), da CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), uma Nota do Sindicato dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro e os textos da própria Pati e do Pedro, outro colega do Iuperj detido por 50 horas pelas autoridades espanholas.




ps - quando acabei de escrever este texto, entrei na net pra procurar uma foto do gringo e vi que mais sete hispânicos foram "inadmitidos" na cidade maravilhosa. Uma pena, porque amanhã vai dar uma praia...

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

A liberdade que Cuba lança

Mil reflexões podem ser feitas a partir da saída de Fidel Castro do poder cubano. Mas com tantos discursos que deturpam e prostituem o significado da palavra "liberdade", usada sem moderação pelos candidatos à presidência norte-americana quando se referem ao futuro que desejam para a ilhota embargada, prefiro ficar com o singelo desenho do cartunista Angeli, corroborando a máxima que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras:








E tenho dito.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Cartografias

mapa da internet, por algum internauta














mapa do Brasil, por um carioca bairrista












mapa dos EUA, por um novaiorquino bairrista










mapa do mundo, por qualquer americano
(clique na foto para ver melhor)





terça-feira, setembro 11, 2007

America 911




Para o dia 11 de setembro, nada mais adequado que o poema America, escrito no fim dos anos 50 pelo beatnik Allen Ginsberg (sobre quem já falei aqui).


Boa leitura.









América eu te dei tudo e agora não sou nada.


América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.


América não agüento mais minha própria mente.


América quando acabaremos com a guerra humana?


Vá se foder com sua bomba atômica.


Não estou legal não me encha o saco.


Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.


América quando é que você será angelical?


Quando você tirará sua roupa?


Quando você se olhará através do túmulo?


Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?


América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?


América quando você mandará seus ovos para a Índia?


Eu estou cheio das suas exigência malucas.


Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?América afinal eu e você é que somos perfeitos e não o outro mundo.


Sua maquinaria é demais para mim.


Você me fez querer ser santo.


Deve haver algum jeito de resolver isso.


Burroughs está em Tânger acho que ele não volta mais isso é sinistro.


Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?


Estou tentando entrar no assunto.


Eu me recuso a desistir de minhas obsessões.


América pare de me empurrar sei o que estou fazendo.


América as pétalas das ameixeiras estão caindo.


Faz meses que não leio os jornais todo dia alguém é julgado por assassinato.


América eu fico sentimental por causa dos Wobblies.


América eu era um comunista quando criança e não me arrependo.


Fumo maconha toda vez que posso.


Fico em casa dias seguidos olhando as rosas no armário.


Quando vou ao Bairro Chinês fico bêbado e nunca consigo alguém para trepar.


Eu resolvi vai haver confusão.


Você devia ter me visto lendo Marx.


Meu psicanalista acha que estou muito bem.


Não direi as Orações ao Senhor.


Eu tenho visões místicas e vibrações cósmicas.


América ainda não lhe contei o que você fez com Tio Max depois que ele voltou da Rússia.


Eu estou falando com você.


Você vai deixar que sua vida emocional seja conduzida pelo Time Magazine?


Estou obcecado pelo Time Magazine.


Eu o leio toda semana.


Sua capa me encara toda vez que passo sorrateiramente pela confeitaria da esquina.


Eu o leio no porão da Biblioteca Pública de Berkeley.


Está sempre me falando de responsabilidades.


Os homens de negócios são sérios.


Os produtores de cinema são sérios.


Todo mundo é sério menos eu.


Passa pela minha cabeça que eu sou a América.


Estou de novo falando sozinho.








A Ásia se ergue contra mim.


Não tenho nenhuma chance de chinês.


É bom eu verificar meus recursos nacionais.


Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha


milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2000 quilômetros por hora


e vinte e cinco mil hospícios.


Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem


nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.


Aboli os prostíbulos da França.


Tânger é o próximo lugar.


Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.








América como poderei escrever uma litania neste seu estado de bobeira?


Continuarei como Henry Ford


meus versos são tão individuais como seus carros


mais ainda todos têm sexos diferentes.


América eu lhe venderei meus versos a 2500 dólares cada


com 500 de abatimento pela sua estrofe usada.


América liberte Tom MooneyAmérica salve os legalistas espanhóis.


América Sacco & Vanzetti não podem morrer


América eu sou os garotos de Scottsboro


América quando eu tinha sete anos minha mãe me levou a uma reunião


da célula do Partido Comunista eles nos vendiam grão de bico


um bocado por um bilhete um bilhete por um tostão e todos podiam falar


todos eram angelicais e sentimentais para com os trabalhadores


era tudo tão sincero você não imagina que coisa boa era o Partido em 1935


Scott Nearing era um velho formidável gente boa de verdade


Mãe Bloor me fazia chorar


certa vez vi Israel Amster cara a cara.


Todo mundo devia ser espião.








América a verdade é que você não quer ir à guerra.


América eles são os Russos malvados.


Os Russos os Russos e esses Chineses. E esses Russos.


A Rússia nos quer comer vivos.


O poder da Rússia é louco. Ela quer tirar nossos carros de nossas garagens.


Ela quer pegar Chicago. Ela precisa de um Reader's Digest vermelho.


Ela quer botar nossas fábricas de automóveis na Sibéria.


A grande burocracia dela mandando em nossos postos de gasolina.


Isso é ruim. Ufa. Ela vai fazê os Índio aprendê vermelho.


Ela quer pretos bem grandes.


Ela quer nos fazê trabalhá dezesseis horas por dia.


Socorro!América tudo isso é muito sério.


América essa é a impressão que tenho quando assisto à televisão.


América será que isso está certo? É melhor eu pôr as mãos à obra.


É verdade que não quero me alistar no Exército


ou girar tornos em fábricas de peças de precisão.


De qualquer forma sou míope e psicopata.


América eu estou encostando meu delicado ombro à roda.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Einstein e o Socialismo

Minha querida amiga Dida fez a tradução de um texto de Einstein chamado "Por que Socialismo?", para ser publicado no jornal eletrônico que seus alunos (os dela, claro) estão criando na Cândido Mendes de Niterói. Com isto, Dida nos presenteou com a possibilidade de entrar em contato com algumas opiniões políticas do grande gênio da física, às quais não teríamos acesso devido ao nosso parco conhecimento de alemão (com algumas exceções, né Jana?).

Trata-se de um artigo escrito para o lançamento do primeiro volume da famosa revista de esquerda norte-americana Monthly Review, saído em 1949. Quem tiver curiosidade de ler o texto na íntegra pode enviar um e-mail para errata@oi.com.br solicitando-o. Abaixo, reproduzo alguns trechos deste ótimo texto para o deleite de vocês, queridos leitores.

Por que Socialismo?

Albert Einstein (maio de 1949)


(...) O homem é, a um só e mesmo tempo, um ser solitário e social. Enquanto ser solitário ele almeja proteger sua própria existência e aquela daqueles que são mais próximos a ele, para satisfazer seus desejos pessoais e para desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, ele busca ganhar o reconhecimento e o afeto de seus companheiros humanos, compartilhar seus prazeres, confortá-los em suas dores, e melhorar suas condições de vida. Apenas a existência dessas ambições variadas, e freqüentemente conflituosas, dá conta do caráter especial de um homem, e a sua combinação específica determina a extensão com que um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interno e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa desses dois impulsos seja fixada principalmente pela herança. Mas a personalidade que finalmente emerge é largamente formada pelo ambiente no qual aconteceu a um homem encontrar-se durante seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade na qual ele cresceu, pela tradição dessa sociedade, e pela sua avaliação de tipos particulares de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa para o ser humano individual a soma total de suas relações diretas ou indiretas com seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo está apto a pensar, se empenhar e trabalhar por si mesmo; mas ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele ou compreendê-lo fora da moldura da sociedade. É a sociedade que provê o homem de comida, vestuário, lar, ferramentas de trabalho, linguagem, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo de pensamento; sua vida é tornada possível pelo trabalho e pelas realizações de vários milhões no passado e no presente, os quais estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.


(...) O homem adquire de nascimento, através da hereditariedade, uma constituição biológica que nós podemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante seu tempo de vida o homem adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade através da comunicação e de vários outros tipos de influência. É essa constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita à mudança, e que determina numa grande extensão a relação entre o indivíduo e a sociedade. A moderna antropologia nos ensinou, através do método comparativo de investigação das assim chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir tremendamente dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam em sociedade. É por isso que aqueles que estão se empenhando em aprimorar a sorte do Homem podem aumentar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilar uns aos outros ou a estar à mercê de um destino cruel auto infligido.


Se nós nos perguntarmos como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser mudadas a fim de tornar a vida humana tão satisfatória quanto for possível, nós deveríamos estar constantemente conscientes do fato de que existem certas condições que são impossíveis de modificar. Como mencionado antes, a natureza biológica do homem não está, para todos os fins práticos, sujeita à mudança. Mais ainda, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos poucos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente munidas dos bens que são indispensáveis à continuação de sua existência, uma extrema divisão do trabalho e um aparato produtivo altamente centralizados são absolutamente necessários. Já foi para sempre o tempo – o qual, olhando para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um leve exagero dizer que a humanidade constitui já hoje uma comunidade planetária de produção e consumo.


Agora alcancei o ponto em que eu posso brevemente indicar o que constitui para mim a essência da crise do nosso tempo. Ela concerne à relação entre indivíduo e sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência em relação à sociedade. Mas ele não experimenta essa dependência como um patrimônio positivo, como um laço orgânico ou como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência econômica. Mais ainda, sua posição em sociedade é tal que os impulsos egoístas de sua constituição estão sendo constantemente acentuados, enquanto seus impulsos sociais, que são fracos por natureza, deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, estão sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros não conscientes de seu próprio egoísmo, eles se sentem inseguros, solitários e privados do ingênuo, simples e não sofisticado aproveitamento da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como ela é, através de sua devoção à sociedade.


A anarquia econômica da sociedade capitalista tal como existe hoje é, em minha opinião, a real origem do mal. Vemos antes de nós uma enorme comunidade de produtores, cujos membros estão almejando incessantemente tirar uns dos outros os frutos do seu trabalho coletivo – não pela força, mas no geral em cumprimento fiel das leis legalmente estabelecidas. A esse respeito, é importante nos darmos conta de que os meios de produção – que correspondem, por assim dizer, à inteira capacidade produtiva que é necessária para a produção de bens de consumo, tanto quanto de bens de capital – podem ser legalmente, e o são em sua maior parte, a propriedade privada de indivíduos.


(...) O capital privado tende a se tornar concentrado em poucas mãos, em parte por causa da competição entre os capitalistas, e em parte pelo desenvolvimento tecnológico, e a crescente divisão do trabalho encoraja a formação de grandes unidades de produção às expensas das pequenas. O resultado desse desenvolvimento é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isso é verdade visto que os membros do corpo legislativo são selecionados pelos partidos políticos, largamente financiados ou de alguma forma influenciados pelos capitalistas privados, que, para todos os fins, separam o eleitorado do governo eleito. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem os interesses dos setores desprivilegiados da população. Mais do que isso, sob tais condições os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Portanto, seria extremamente difícil para o cidadão individual, e mesmo impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer um uso inteligente de seus direitos políticos.


(...) A produção é orientada pelo lucro, não pelo uso. Não há previsão de que todos aqueles aptos e desejosos de trabalho estejam em posição de encontrar emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador está constantemente com medo de perder seu emprego. Desde que desempregados e mal pagos, os trabalhadores não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é restrita, e um grande sofrimento é a conseqüência. O progresso tecnológico resulta freqüentemente em mais desemprego do que em um alívio do fardo do trabalho para todos. A motivação do lucro, em conjunção com a competição entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição ilimitada leva a um enorme desperdício de trabalho e ao enfraquecimento da consciência dos indivíduos, a qual mencionei acima.


Eu considero esse enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educacional como um todo sofre desse mal. Uma atitude competitiva é inculcada no estudante, que é treinado para adorar o sucesso aquisitivo como preparação para a sua futura carreira.


Estou convencido de que há apenas um caminho para eliminar esses graves males, nomeadamente através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educacional que seria orientado para fins sociais. Numa tal economia, os meios de produção são possuídos pela sociedade ela mesma, e são utilizados de uma maneira planejada. Uma economia planejada que ajustasse a produção às necessidades da comunidade distribuiria o trabalho a ser feito entre todos aqueles aptos a trabalhar, e garantiria uma vida decente a cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, somada à promoção de suas habilidades inatas, procuraria desenvolver nele um senso de responsabilidade para com seus companheiros homens, em lugar da glorificação do poder e do sucesso em nossa sociedade presente.


Contudo, é necessário recordar que uma economia planejada ainda não é o socialismo. Uma economia planejada como tal deve ser acompanhada pela desescravização do indivíduo. O alcance do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: como é possível, em vista de uma abrangente centralização do poder econômico-político, prevenir que a burocracia torne-se toda poderosa e onipresente? Como os direitos do indivíduo podem ser protegidos, e com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia ser assegurado?


Claridade sobre os fins e problemas do socialismo é da maior significância em nossa idade de transição. Dado que nas presentes circunstâncias a discussão livre e desimpedida desses problemas tornou-se um poderoso tabu, eu considero que a fundação dessa revista constitua um importante serviço público.

segunda-feira, junho 11, 2007

Sobre desenhos animados


Os desenhos animados norte-americanos sempre foram uma arena perfeita para a representação de alguns estereótipos difundidos naquelas terras. Tome-se o caso do Pepe Le Pew: personagem criado em 1930, trata-se de um gambá francês que passa todo o desenho perseguindo uma gatinha (Penelope Pussycat) que, por causa de uma tinta branca em seu dorso, assemelha-se a uma possível companheira de Pepe. A gatinha, é claro, foge apavoradamente do francês, que possui um cheiro insuportável – característica típica dos franceses, conforme mostra o desenho.



Outro caso típico é o de Ligeirinho (ou Speedy Gonzales), um rato mexicano veloz e ensaboado que vive fugindo às garras do gato – tal como os mexicanos vivem fugindo dos agentes de imigração estadunidenses, conforme nos faz crer o desenho.


Até mesmo os brasileiros já foram esteriotipados pelas ágeis canetas dos desenhistas norte-americanos, através do malandrão e ocioso Zé Carioca. Isso sem falar das menções a sexo e drogas, como na homessexualidade de Betty Boo e da dupla Batman e Robin, na transexualidade de Pernalonga (sempre vestido de mulher), na larica interminável que ataca os maconheiros Scooby Doo e Salsicha, nos cogumelos alucinógenos que fazem Gargamel ver smurfs na floresta e diversos outros exemplos. Muitos desses desenhos, hoje, são considerados politicamente incorretos, e alguns até deixaram de ser transmitidos pelos canais especializados – como pode-se conferir aqui.


Mas há um exemplo de manipulação maior, muito maior, que é simplesmente uma representação da guerra fria – sob a ótica norte-americana, claro – no famoso desenho Thundercats, dos anos 80. Vejam como é precisa a representação à qual me refiro:


Lion, defensor do bem, que com sua espada possui visão além do alcance, ostenta as cores da bandeira americana – o azul e o branco na roupa, e o vermelho nos seus cabelos de fogo. Já Mun-ra, símbolo máximo dos antigos espíritos do mal, é uma múmia que veste uma capa vermelha, a cor dos comunistas comedores de criancinhas.


Entretanto, a batalha entre as forças do bem e do mal não ocorre na terra de Lion e tampouco na de Mun-ra, mas em um planetinha chamado – vejam que descaramento! – Terceiro Mundo (Coréia? Vietnam?).



Agora reparem o profundo ideologismo da trama: os verdadeiros habitantes do Terceiro Mundo são os Roberbills, ursinhos frágeis e simpáticos que, impotentes quanto à investida de Mun-ra, Escamoso, Chacal e outras figuras repugnantes, precisam da ajuda dos sagazes Lion, Panthron, Cheetara, Tygra, até mesmo de Wilikat e Wilikit, para que possam desfrutar da paz capitalista em seu terceiro mundinho.



É tão, mas tão ideológico, que faz os politicamente incorretos charutos na boca do Patolino parecerem brincadeira de criança.

sexta-feira, maio 11, 2007

Por baixo da batina

Abro o jornal, ligo a TV, pego o elevador da empresa onde trabalho e parece que só existe um assunto: a visita do papa alemão a São Paulo.


(pausa pra imaginar o caos instaurado naquela cidade já caótica, seguida de um suspiro de alívio por morar no Rio).


Parece ser o momento perfeito para cometer chacinas, seqüestrar pessoas, enfim, praticar todo o tipo de abuso concebível, uma vez que ninguém está interessado em qualquer assunto que não seja relacionado ao intelectual pontífice.


Inteligentes e perspicazes que são, nossos deputados souberam aproveitar-se deste religioso momento e tomaram uma atitude talvez pouco católica: aprovaram, na última quarta, um reajuste de 28,5% nos salários dos parlamentares, dos ministros, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente, José Alencar.


A Folha de Sampa nem fez questão de esconder o óleo de peroba estampado na cara desses malandros: diz a reportagem que “os parlamentares aproveitaram a visita do papa Bento XVI ao Brasil para colocar, sem alarde, o assunto na pauta de votações da Câmara”.


Se tal projeto for também envernizado pelo Senado Federal, o salário dos deputados e senadores vai passar dos atuais R$ 12.847 para R$ 16.512,09. Lula, que recebe atualmente R$ 8.885, passa a receber R$ 11.420, pela proposta aprovada. Já o salário de Alencar e dos demais ministros subiria dos atuais R$ 8.362 para R$ 10.748.






Mas quem vai preocupar-se com isso, enquanto Frei Galvão torna-se o primeiro santo brasileiro?





É nessas horas que dou graças a Deus por ser ateu.

quinta-feira, maio 10, 2007

Sobre a Teoria da Conspiração


O termo que dá título a este post é conhecido de todos, e possui tanta popularidade que encontra-se em mais de 127 mil páginas, segundo o Grande Oráculo.


A definição do Wikipedia é simplória, mas serve: “é uma teoria que supõe que um grupo de conspiradores está envolvido num plano e suprimiu a maior parte das provas desse mesmo plano e do seu envolvimento nele. O plano pode ser qualquer coisa desde a manipulação de governos, economias ou sistemas legais até à ocultação de informações científicas muito importantes”.


Nesse buraco negro da conspiração, encontram-se fatos discutíveis como o assassinato de Kennedy, a chegada de extraterrestres à Terra, a presença de um suposto símbolo maçon na nota de um dólar e a mais clássica de todas: a discussão sobre se o homem, de fato, pisou na Lua, ou se foi tudo um vídeo feito pelo cineasta David Lynch nos desertos de Nevada para a Nasa, que estava puta com os soviéticos e sua imponente espaçonave MIR.


Em tempo de internê, é impossível confiar em tudo o que se lê por aí. Mas como me interesso por essas “teorias conspiratórias”, independente de dar algum crédito a elas, vou citar três histórias recentes, no mais escrachado estilo Jack Palance. Com isso, pretendo provocar no leitor um dos seguintes efeitos: ou coloco a pulga atrás da orelha, ou um sorriso largo no meio da cara.





Caso 1: Tsunami

Os teóricos da conspiração acreditam que a explosão foi causada pelos norte-americanos para alterar a órbita da Terra, de forma a impedir que um asteróide colidisse com nosso planetinha azul-cinzento. Segundo a teoria, existiam 8 ogivas nucleares submersas no Indico Sul desde 1978, quando um submarino americano afundou por lá, e teriam sido estas as ogivas explodidas pelo governo estadunidense em 2004. A operação, claro, teria ocorrido no maior sigilo, já que nenhum governo haveria de concordar com tal estratégia. Isso justificaria o fato daquele país saber com antecedência do efeito Tsunami, embora não tenha avisado a nenhum dos países da região “por falta de tempo” (o texto completo dessa conspiração está aqui).





Caso 2: 11 de Setembro

Esta teoria está balizada por livros como 11 de Setembro, uma terrível farsa, de Thierry Meyssan, e documentários como o Fahrenheit 911, de Michael Moore, e 9/11 Mysteries, que está disponível na página do camarada Revolution 9-11. Em linhas gerais, a responsabilidade do ato é atribuída a George W. Bush, como uma manobra para justificar as investidas do país contra países produtores de petróleo com os quais os EUA não possuem relações diplomáticas – como o Iraque do hoje falecido Saddam Hussein. Todos os argumentos desse suposto pseudo-atentado encontram-se aqui.





Caso 3: O Foguete Brasileiro

Este caso está diretamente ligado a nós, brazucas, e diz respeito à morte de 21 funcionários civis do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) na explosão do foguete brasileiro VLS (Veículo Lançador de Satélites) na Base de Alcântara, no Maranhão, em 2003. Os depoimentos do Ministro Ronaldo Sardenberg, do brigadeiro Reginaldo dos Santos e do vice-presidente da Sociedade Brasileira de Direito Espacial José Monserrat Filho, todos anteriores à explosão, são convergentes: “Washington nunca engoliu a idéia de que o Brasil pudesse desenvolver o foguete VLS”.


Entre os 21 mortos estavam técnicos e engenheiros com cerca de 20 anos de experiência, um capital de conhecimento humano totalmente perdido em um único acidente. No site Mídia Independente, um leitor comenta que “Ucrânia e Brasil estavam entrando num acordo e excluindo os EUA dos futuros lançamentos, parceria muito bem vinda e ousada no terceiro mundo”.


Outro leitor é ainda mais enfático:


“A equipe do CTA de São Bernardo era muito boa mesmo, os caras eram os únicos que tinham conhecimento dessa tecnologia no Brasil, pra formar outros iguais vai demorar anos. E além do mais os americanos tinham acesso irrestrito a base, proibindo inclusive a entrada de brasileiros, eles conheciam o programa mais que os próprios técnicos do CTA. A turbina explodiu no "lugar certo na hora certa". As coisas começam a ficar claras a partir de agora, os EUA não vão tolerar que alguém no mundo ouse possuir tecnologia similar a deles nem para fins pacíficos, no caso levar satélites de TELECOM”.


A presença de um navio norte-americano navegando na costa do Maranhão alguns anos antes leva os conspiratórios a uma hipótese: “os sistemas de destruição foram acionados intencionalmente por um sinal transmitido aos 55,9 segundos de vôo por alguém fora do centro de lançamento de Alcântara”.


Acredite... se quiser.



*


Note o caro leitor que, em todos estes três casos (e na maioria dos outros existentes), é sempre o governo dos EUA o grande responsável pelos males do mundo. Será conspiração demais, ou estaríamos certos em afirmar que é lá que está o lado negro da força?




quarta-feira, abril 04, 2007

O fino do mau humor

Inaugura-se hoje, neste muquifo virtual, a coluna de El Cascarravias, que irá escrever sempre que lhe saltar a veia do meio da testa. Postei umas fotos para "colorir" um pouco o texto. E para os que não conhecem o estilo deste pujante escritor, leiam a frase que o próprio me mandou, apresentando este primeiro libelo:


"segue minha espuma de canto de boca dessa semana".



Divirtam-se... se puderem.



* * *



Deixai fazer, deixai passar...


Além dos amigos do Arthur com um outro amigo em comum, quem mais costuma ouvir falar da Comissão de Valores Mobiliários? Virtualmente ninguém, e a razão é simples: trata-se de uma autarquia com atuação discreta, e cujas funções, em condições normais de temperatura e pressão econômica, são de pouco interesse para o noticiário, ávido de factóides. Há pouco mais de dez dias a CVM tem se tornado vedete, se não do noticiário em geral, no mínimo dos cadernos voltados para economia; pequena pausa para uma olhadinha na página de economia mundial. Olha vejam só, não é que a União Européia está neste mesmo jornal, e por motivos ‘estruturalmente’ semelhantes ao do caso anterior? Chega de bobagem, aos fatos.


A CVM ronda as colunas de Miriam Leitão (putz!) e seus pares por ter encontrado uma saída clássica pra desviar a atenção de eventuais problemas internos: apontar erros externos. Se um certo governo prepotente de uma certa nação imperialista da América do Norte pode arrasar uma nação com este intuito, é razoavelmente tranqüilo que uma repartição pública atrapalhe negociatas escusas pra que esfriem rumores quanto à sua administração. De mais a mais, esta é sua função. Dando nome aos bois (ou crocodilos), as autoridades públicas responsáveis por controlar minimamente o mercado de capitais quiseram um pouco mais de explicações para os movimentos, mais do que atípicos, percebidos na movimentação de compra e venda de ações – da Ipiranga primeiro, e agora da Varig. Um cheiro de maracutaia foi sentido no ar depois que valorizações ‘sospechosas’ precederam dias de decisões cruciais na organização dessas empresas.


E a União Européia nessa? Bem, assisti ontem a indignação dos auditores do Velho Mundo com o padrão de comportamento da Apple em seu continente. Concluíram que as práticas comerciais da empresa de informática, no que se refere à negociação de músicas no espaço virtual, agrediam frontalmente as regras da harmoniosa concorrência; tucanaram o monopólio com o nome de cartel. Os astutos executivos da maçã digital elaboraram um eficiente esquema para evitar que portadores de dinheiro mais valioso conseguissem comprar o mesmo produto mais barato em outras paragens.


Há algo em comum nos dois casos? Muito. Em qualquer um dos dois, percebe-se claramente onde vai parar o ‘livre funcionamento das forças de mercado’: monopólio, predação, concentração. A falácia do laissez-faire como promotor preferencial dos interesses sociais cai por terra quando se dá uma olhadela em como funciona realmente o capitalismo contemporâneo. Deixado a sua própria sorte, o que o mercado promove é a aniquilação dos interesses gerais em nome do mais forte. Nada mais condizente com a lógica do salve-se quem puder em ambiente de competição.


Qual foi a resposta? A mesma que deram Bismarck na Alemanha, Napoleão III na França, Vargas no Brasil, e os EUA ao longo de toda sua história a partir do final do século XVIII: sem participação ativa do Estado, a economia leva ao fortalecimento gradual do mais forte, rumo ao colapso.


É por isso que não tenho dúvida – liberalismo no dos outros é refresco.


El Cascarravias

quinta-feira, março 29, 2007

Etnocentrismo (ou a peleja virtual de um Anarco-punk de Uberlândia contra um Anarco-gringo de Boston)

Há um texto que publiquei nesta página, quando da visita do delegado do mundo ao nosso território, que gerou um número recorde de intervenções – hoje, já passam de 50 comentários, como vocês podem conferir aqui. Isto se deu, basicamente, por causa de uma interminável discussão entre dois amigos meus (que não se conhecem), um legítimo brazuca e um gringo dos States. Embora o tema da discussão fosse eminentemente político, não foram poucas as vezes nas quais a discussão resvalou para as clássicas divergências culturais.



Durante o meu convívio com o americano em questão (trabalhamos juntos por cerca de três anos, dando aulas de inglês), percebi o quanto o cara sofria simplesmente por ser americano. Volta e meia, pessoas – inclusive alunos seus – lhe botavam o dedo na cara, culpando-o por todos os atos nefastos dos governos estadunidenses, de Lincoln a Bush. Meu próprio amigo de Uberlândia comenta, nessa batalha virtual, que “se vem de qualquer lugar ao norte de Tijuana, já nasce culpado por 80% dos problemas do mundo”.



Não obstante, sempre achei que este gringo diferia dos outros que eu havia conhecido, porque tinha uma opinião crítica em relação às atrocidades cometidas pelos governos do seu país, se colocando contra Bush, Blair, direitistas, esquerdistas, até mesmo Israel! E por isso eu procurava defender seus pontos de vista, sempre que achasse isso viável.



Isso até o ponto em que algumas questões culturais começaram a pipocar na tal peleja. Do alto da sua arrogância – meu camarada ianque pode ser gente boa, mas é, como talvez TODOS os americanos, arrogante – esse gringo sobre quem falo começou a distribuir “sugestões” aos brasileiros em geral – entre elas, a de pararmos de comer farofa em nossos churrascos e começarmos a jogar baseball, por exemplo, ao invés de esportes “de garotas”, como o futebol.



Se você é brasileiro, deve estar, no mínimo, boquiaberto. Se você é gringo, não deve estar compreendendo o que se passa aqui. E é aí que entra a questão daquilo que os antropólogos mais lúcidos chamam de “relativismo cultural”, algo que vai contra o etnocentrismo, ou seja, a tendência que cada indivíduo possui de considerar a sua cultura melhor que a de outrem.



Não pude, obviamente, ficar calado após essas “sugestões” do “americano tranqüilo”. Porque assim como todos os povos e sociedades, nós (ou a maioria de nós) acreditamos que nossos esportes são melhores, nossa música é melhor, nossas mulheres são melhores (tá, essa última é golpe baixo, até os americanos admitem que as nossas mulheres são, de fato, melhores). Mas dificilmente nos vestimos com tanta petulância e prepotência para impor nossos parâmetros culturais a pessoas dotadas de outros padrões, subjugando-as com tanta “tranqüilidade” – se vocês ainda não leram os comentários, façam isso e digam se estou exagerando ou não!



Mesmo assim, sigo defendendo a tolerância no trato com as diferenças culturais. É importante que a gente se rebele, até como exercício identitário, nos negando a absorver determinados “antropofagismos culturais” que só vêm para matizar e dizimar aquilo que consideramos nossas raízes culturais (taí mais um daqueles temas espinhosos, “raízes”...). Não precisamos adaptar-nos a outros padrões culturais, mas creio que é importante saber respeitá-los, mesmo que isso seja tão difícil quando, por exemplo, trata-se da cultura americana. Intolerâncias de qualquer tipo não costumam ter resultados práticos muito positivos, como vemos em vários cantos do mundo – o que não significa que devemos abaixar a cabeça ou dar um sorriso amarelo para os que tentam menosprezar nossos valores e dar-nos lições de como nos comportar.



Afinal, repetindo as sábias palavras do Senhor Lyra, “numa coisa todo mundo é igual: todo mundo é diferente”.

quarta-feira, março 21, 2007

Rage e Ginsberg contra a Máquina



Pelo menos na minha geração, a banda que conseguiu estabelecer a melhor junção entre música e contestação sociopolítica foi Rage Against the Machine. Através de um som porrada, para o qual contribuíram diversas vertentes do rock e do hip hop, a banda californiana projetou sua raiva contra a máquina imperialista americana, engajando-se, entre outras, na causa dos guerrilheiros zapatistas e na defesa de Mumia Abu-Jamal, membro dos Panteras Negras, e de Leonard Peltier, índio da tribo Sioux (sobre o caso de Mumia você lê aqui, e sobre Peltier, aqui).


Embora o guitarrista do RATM, Tom Morello, fosse graduado em Sociologia pela Harvard (além de sobrinho do primeiro presidente do Quênia), as letras da banda sempre foram compostas pelo vocalista Zack de la Rocha, filho de uma antropóloga e de um artista de um grupo político ligado a agricultores mexicanos. Os de la Rocha entendiam bem o que significava ser chicano na “América”, uma realidade tratada em letras como People of the Sun e Without a Face.


Uma música, entretanto, chamou-me a atenção por não ter tido a letra escrita por Zack. Isto porque a tal canção, de título Hadda Been Playing On The Jukebox, é na verdade a declamação de um poema homônimo do beatnick Allen Ginsberg, escrito em 1975.




Em Hadda Been Playing On The Jukebox, Ginsberg narra diversos eventos ocorridos nos anos 60 e 70 – incluindo o assassinato de Kennedy –, fala de americanos poderosos como Rockefeller, Nixon, J. Edgar Hoover e Frank Costello, afirma que a KGB e o FBI pensam da mesma maneira e brada: “It had to be the CIA and the Mafia and the FBI”; “One big set of gangs working together in cahoots”.


Abaixo reproduzo o poema, conforme cantado por Zack no disco Live and Rare, lançado pela Sony Japan em 1998.



Hadda Be Playing On The Jukebox


It had to be flashin' like the daily double
It had to be playin' on TV
It had to be loud mouthed on the comedy hour
It had to be announced over loud speakers

The CIA and the Mafia are in cahoots

It had to be said in old ladies' language
It had to be said in American headlines
Kennedy stretched and smiled
and got double crossed by lowlife goons and agents
Rich bankers with criminal connections
Dope pushers in CIA working with dope pushers from Cuba
working with abig time syndicate from Tampa, Florida
And it had to be said with a big mouth

It had to be moaned over factory foghorns
It had to be chattered on car radio news broadcasts
It had to be screamed in the kitchen
It had to be yelled in the basement where uncles were fighting

It had to be howled on the streets
by newsboys to bus conductors
It had to be foghorned into New York harbor
It had to echo onto hard hats
It had to turn up the volume in university ballrooms

It had to be written in library books,
footnotedIt had to be in the headlines
of the Times and Le Monde
It had to be barked on TV
It had to be heard in alleys through ballroom doors

It had to be played on wire services
It had to be bells ringing
Comedians stopped dead in the middle of a joke in Las Vegas
It had to be FBI chief J. Edgar Hoover and Frank Costello
syndicate mouthpiece meeting in Central Park,
New York weekends, reported Time magazine

It had to be the Mafia and the CIA together
starting war on Cuba, Bay of Pigs
and poison assassination headlines


It had to be dope cops in the Mafia
Who sold all their heroin in America

It had to be the FBI and organized crime
working together in cahoots against the commies

It had to be ringing on multinational cash registers
A world-wide laundry for organized criminal money

It had to be the CIA and the Mafia and the FBI together
They were bigger than Nixon
And they were bigger than war

It had to be a large room full of murder
It had to be a mounted ass- a solid mass of rage
A red hot pen
A scream in the back of the throat

It had to be a kid that can breathe
It had to be in Rockefellers' mouth
It had to be central intelligence, the family, allofthis, the agency Mafia
It had to be organized crime
One big set of gangs working together in cahoots
Hitmen
Murderers everywhere

The secret
The drunk
The brutal
The dirty and rich
On top of a slag heap of prisons

Industrial cancer
Plutonium smog
Garbage cities
Grandmas' bed soft from fathers' resentment
It had to be the rulers
They wanted law and order
And they got rich on wanting protection for the status quo

They wanted junkies
They wanted Attica
They wanted Kent State
They wanted war in Indochina, yeah

It had to be the CIA and the Mafia and the FBI

Multinational capitalists
Strong armed squads
Private detective agencies for the oh so very rich
And their armies and navies and their air force bombing planes
It had to be capitalism
The vortex of this rage
This competition
Man to man
The horses head in a capitalists' bed

The Cuban turf
It rumbles in hitmen
And gang wars across oceans
Bombing Cambodia settled the score when
Soviet pilotsmanned Egyptian fighter planes

Chiles' red democracy
Bumped off with White House pots and pans
A warning to Mediterranean governments
The secret police have been embraced for decades
The NKPD and CIA keep each other's secrets
The OGBU and DIA never hit their own
The KGB and the FBI are one mind

Brute force and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money

It had to be rich and it had to be powerful
They had to murder in Indonesia 500.000
They had to murder in Indochina 2.000.000
They had to murder in Czechoslovakia
They had to murder in Chile
They had to murder in Russia


And they had to murder in America.






E pra quem não conhece, é bom lembrar que Ginsberg não estava sozinho. Além de seu livro de poesias Howl (1956), outros pilares da geração beatnick são Jack Kerouack, com o clássico On the Road (1957), e o alucinado William Burroughs, com seus Junkie (Drogado, 1953) e Naked Lunch (Almoço Nu, 1959).

sexta-feira, março 09, 2007

Guerra e publicidade

Parodiando Tolstoi, publico aqui uma foto/campanha publicitária como intróito para os próximos escritos...



Um Busha no Brasil


Existe um Busha entre nós. Vai ficar menos de 24 horas no Brasil – mais especificamente em São Paulo, graças a Deus – mas só o fato de estar em turnê, pelo que considera a América Latrina, já é motivo de sobra para levar milhares de manifestantes às ruas, de Brasília a Manaus, de Uberlândia a Salvador. Só em Porto Alegre, foram cerca de 1.300 em frente ao Citibank. Em Goiânia, o MST reuniu 800 na porta do Wal-Mart e do McDonald's. No Maranhão, o ato anti-Bush ainda contou com a presença do governador Jackson Lago, que ajudou a enforcar uma boneco do presidente americano.





Eu trabalho ao lado do consulado americano e, por volta das 17hs, não conseguia nem ouvir meus pensamentos. Com o já clássico bordão “Ei, Bush, vai tomar no cu”, cerca de 100 estudantes e partidários do PSOL, PC do B e PSTU jogaram pedras e bombas de tinta vermelha nas vidraças do prédio. A embaixada do Recife também foi colorida de vermelho. Ainda no Rio, manifestantes fizeram um minuto de silêncio pelas "mortes causadas pela política externa dos Estados Unidos" e em seguida arremessaram garrafas de Coca-cola e do McDonald's no consulado, "devolvendo o lixo exportado por Bush" (segundo diz o texto do JB).





Mas o bicho pegou mesmo em São Paulo, cidade onde o Busha está hospedado. Nada menos que 10 mil pessoas foram às ruas protestar contra o delegado do mundo, e a nossa polícia, com a gentileza de um mastodonte que lhe é inerente, acuada por não ter como reagir contra tamanha multidão, agiu com bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes, causando a situação bizarra que vocês podem ver nas fotos abaixo (também tiradas do site do JB).






Particularmente, não endosso “caminhadas pela paz” e abraços à lagoa, convencido que estou da total ineficácia de tais atitudes. Mas acho muito importante que ocorram, tanto no Brasil quanto em países como Colômbia, Uruguai, México e Guatemala, manifestações de protesto como as de ontem. Acredito que esta é uma boa forma de mostrar ao mundo a anti-popularidade do nazistinha texano, que acaba virando notícia em diversas fontes internacionais de informação (como vocês podem ver aqui e aqui, só pra citar dois exemplos).




Mas o mais belo de tudo foi ver, aqui na Cinelândia, os tais "cerca de 100 estudantes e partidários do PSOL, PC do B e PSTU" unirem-se às outras 200 pessoas que se concentravam na passeata pelo Dia Internacional das Mulheres, todos a par do quão convergente são as razões que levam ambos os grupos a protestar nas ruas do Centro do Rio.



terça-feira, fevereiro 27, 2007

Buena Vista, malo gobierno

Quase todo mundo viu e muita gente se emocionou com o documentário Buena Vista Social Club (1999), principalmente nas cenas que mostram a apresentação daqueles senhores cubanos, hoje já quase todos mortos, no suntuoso palco do novaiorquino Carnegie Hall. Segundo a enciclopédia virtual Wikipedia, esse show “transformou a vida dessas pessoas”.


E também transformou a vida de um americano: Ry Cooder, músico e produtor que viajou a Havana em 1996 para reunir os músicos em questão, entre eles Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa e Rubén Gonzáles.

Porém, a vida de Cooder não mudou por causa do prêmio Grammy que recebeu, graças ao seu trabalho no disco Buena Vista Social Club, e sim pela multa de 25 mil dólares que levou do governo dos Estados Unidos, por ter gravado o disco com os cubanos sem a autorização governamental necessária.

Cooder não se intimidou; pagou a multa e manteve sua parceria com os cubanos. Até que, em 2003, tomou a porrada fatal, conforme informou a Folha de São Paulo de 22 de março desse ano:



"Após ser multado esta semana em US$ 100 mil por tocar nos discos de dois artistas cubanos -Manuel Galban e Ibrahim Ferrer-, o guitarrista Ry Cooder (que havia participado do filme-projeto "Buena Vista Social Club") disse anteontem que "provavelmente nunca mais poderá colaborar" com músicos daquele país. O governo dos EUA multou Cooder com base na norma Trading with the Enemy Act, que proíbe relações comerciais de cidadãos norte-americanos com Cuba, sob embargo desde 1962".





Ry Cooder fez um trabalho de incomensurável valor para a música e para a cultura cubana, mas é americano e pagou caro por isso. Se tivesse perguntado a opinião do diretor do Buena Vista, um conhecido alemão, teria certamente ouvido de volta:







Win Wenders e Aprendenders!