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quinta-feira, maio 15, 2008

O mal estar do século XXI


Domingo foi dia das mães, e passei a tarde cercado delas, que são muitas na minha família. Foi ótimo conversar e rir com minhas tias e minha dezena de primos, todos mais novos que eu. Um dos tópicos, porém, me deixou bastante assustado: a presença de vários casos de depressão, na própria família e em famílias próximas.


É de fato um panorama assustador. Ouvi histórias de pessoas entrando em depressão dentro do próprio carro, sem conseguir sair pra trabalhar. Pessoas que precisam ligar para maridos/esposas para que estes apóiem a execução das tarefas mais cotidianas, como pagar uma conta ou ir à padaria. Pessoas católicas freqüentando centros espíritas porque já tentaram de tudo. E, claro, todo tipo de “droga legal” (será uma antítese ou um eufemismo?) sendo tomada por pais, mães e filhos, jovens de 20 anos em pesadas dietas de Frontal, Pondera, Apraz, Rivotril, Lexotan e outras tarjas pretas do gênero.


Apesar de até ter despertado certa curiosidade, eu nunca tomei um comprimido desses, nem sei o que é ansiolítico, o que é calmante, o que é produtor de serotonina (talvez uma espécie de ecstasy legalizado?). Contudo, uma conversa com alguns amigos revelou que esse quadro não é tão raro assim. A depressão e o stress, efeitos colaterais do mal estar da civilização moderna, atingem um número alarmante de pessoas.


Digam pra mim: quando foi que ser minimamente feliz ou contente tornou-se uma meta tão inalcançável? Quando foi que a “falta de grana” deixou de ser o problema da classe média, perdendo espaço pra essa nuvem negra que destrói humores e expectativas positivas? Será que as pessoas humildes que trabalham pesado o dia todo, enfrentam jornadas diárias dentro de conduções lotadas e possuem sua cota de problemas domésticos para cuidar têm alguma idéia do que é sofrer de depressão?


Minha irmã deve estar certa: a psicologia é a profissão do futuro. Pelo quadro que vem sendo pintado, em pouco tempo estaremos todos loucos - inclusive os psicólogos.

quinta-feira, maio 08, 2008

Uma nova esperança




Morreu, na semana passada, o químico suíço Albert Hoffman, cuja maior contribuição para a história recente da humanidade foi a descoberta da dietilamida do ácido lisérgico – mais conhecida pelos nomes ácido, doce, cones, microponto, gota, fiote, quadrado, papel, macrobiótico, porongos, bike, filete, selo, trips - ou simplesmente pela sigla LSD. Há exatos 70 anos, durante seus experimentos em laboratório, Hofmann ingeriu acidentalmente uma quantidade de ácido lisérgico e, segundo o texto do Wikipedia, “se viu obrigado a interromper o trabalho que estava realizando devido aos sintomas alucinatórios que estava sentindo”.


Utilizado inicialmente como recurso psicoterapêutico e para tratamento de alcoolismo e disfunções sexuais, o uso recreativo do LSD acabou sendo amplamente difundido pela contracultura americana dos anos 60, fazendo a cabeça de ícones da música como Pink Floyd, The Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Beatles (cuja canção Lucy in the Sky with Diamonds é a referência mais explícita).


Se Hofmann ficou conhecido como “pai” do LSD, o “guru” desta substância foi o Dr. Timothy Leary. Em 1961, Leary recebeu uma grana da Universidade de Harvard para estudar os efeitos do LSD em voluntários, que Leary levava para uma grande fazenda na qual eles poderiam fazer o que quisessem (contanto que preenchessem fichas relatando a experiência que tiveram). Segundo o Wikipedia, “3.500 doses foram dadas para mais de 400 pessoas. Daqueles testados, 90% disseram que eles gostariam de repetir a experiência, 83% disseram ter aprendido alguma coisa ou ter tido uma ‘iluminação’ (insight), e 62% disseram que o LSD mudou suas vidas para melhor”.


Embora refira-se à substância que descobriu como seu “filho problemático” (título de um de seus livros), imagino que Hofmann tenha tomado uma quantidade considerável de ácido, especialmente entre os anos 30 e 60. E isso, aparentemente, não causou efeitos negativos na vida do químico, que morreu no último dia 29 com inacreditáveis 102 anos! Essa história me fez lembrar de Compay Segundo, um dos principais músicos cubanos redescobertos por Ry Cooder para o filme Buena Vista Social Clube, de Win Wenders. Compay Segundo viveu até que os 95 anos, dos quais 90 passou fumando charutos (isso mesmo, o cara começou aos 5 anos de idade, acendendo charutos para a avó).


São casos como estes que me trazem um novo vigor e um brilho emocionado nos olhos, fazendo com que eu continue a ter esperança no futuro da humanidade.

sexta-feira, março 28, 2008

Sobre a propriedade intelectual



Escrevo este texto de supetão, no susto mesmo, pra aproveitar o gancho de uma discussão gerada no site da Rackel (tive que digitar o nome do site no link porque a autora colocou um script que te dá um esporro ao simples apertar do botão CTRL). A discussão, sobre propriedade intelectual, me é muito cara e envolve diretamente boa parte do meu trabalho profissional, que é relacionado a projetos culturais, bem como minha atividade acadêmica.


Primeiramente, quero deixar claro que sou favorável à preservação do direito autoral, no sentido filosófico da coisa. Acho que é não só uma gentileza, mas também uma questão de respeito que, ao utilizarmos obras de outrem, a autoria esteja explicitamente indicada.


Entretanto, isto não significa que tal proteção deva se revestir de uma pesada carapaça, impedindo a livre circulação de criações artísticas, descobertas científicas, técnicas e saberes. Especialmente levando-se em consideração a nossa imersão na lógica capitalista, penso que a circulação destas “mercadorias” artísticas e científicas não pode ficar submetida a interesses econômicos.


Nosso modelo de lei de propriedade intelectual é copiado (como quase todo o resto) do esquema de copyright americano. Segundo a lógica jurídica que rege a lei, se você, por exemplo, estiver rabiscando um guardanapo enquanto divide uma cerveja com os amigos numa mesa de bar, seus esboços já estão, em tese, protegidos pela lei. Se o garçom depois os colocasse na internet, você poderia, em tese, processá-lo por violação de direitos autorais. Existem tentativas de flexibilização desta lei canhestra, mas discuti-las seriamente daria material para uma dissertação de mestrado (o que foi feito, exatamente desta forma, por um camarada meu chamado Tiago Coutinho).


Em que pesem todas as questões ligadas à pirataria, seria contra meus princípios (sim, eu tenho alguns) defender uma postura que incentiva a monopolização dos conteúdos culturais e/ou científicos. Ao contrário, defendo a idéia de que todo conhecimento deve ser compartilhado, epenso o mesmo para as produções culturais. Textos, ensaios, poesias,artigos, músicas, vídeos, tudo deveria ser passível de livrereprodução, porque os vejo como patrimônio da humanidade, que contribuem para o desenvolvimento (cultural, espiritual etc.) das pessoas. Se você não quer que ninguém te copie, então melhor nem divulgar.


É claro que, se o cara usa a minha música pra ganhar dinheiro, ideal seria que alguns miguelitos também pingassem no meu bolso. E mesmo que não haja dinheiro no meio, se copiam o texto de outrem e não dão o devido crédito – porque lhes falta capacidade artística e/ou criativa e, por isso, preferem gozar com o pau dos outros – então eles que sofram suas dores de consciência (caso a possuam), e que sejam eventualmente desmascarados um dia.


Minha conclusão é a seguinte: tudo é referência! Afinal, quem é que faz um trabalho de faculdade sem referência? Quem é que escreve um artigo sem referência? Quem é que faz ciência sem referência? Certa vez, Isaac Newton disse que só chegou aonde chegou porque se debruçou nos ombros dos cientistas que vieram antes dele. E se tais ombros não estivessem acessíveis, será que ele teria brindado a humanidade com suas descobertas sobre ação e reação e as demais leis newtonianas?




* * *


Se você ficou a finzão de se inteirar acerca das alternativas que estão sendo pensadas para o modelo de copyright, vale uma visita ao site do Creative Commons. Até o nosso ministro Gil liberou os direitos de uma música para mostrar seu apoio ao projeto... e, obviamente, esta música não é nem Realce, nem Aquele Abraço e muito menos Vamos Fugir, já que essas são as que realmente rendem um trocado e ajudam a botar comida na mesa, né ministro?

terça-feira, março 04, 2008

Enxugando Gelo?

No filme O Gângster (American Gangster), de Ridley Scott, Russel Crowe interpreta um policial incorruptível que, em dado momento, descobre um milhão de dólares em poder de criminosos. Sabendo que aquele dinheiro seria interceptado e “confiscado” (leia-se roubado) por outros policiais de seu distrito, Crowe tem duas opções: ou fica com o dinheiro para si ou apreende e leva-o à delegacia - sabendo que esta segunda opção queimaria seu filme com os colegas policiais, que no seu lugar optariam por dividir o “ganho” ao invés de reportá-lo às autoridades.


Crowe faz a primeira escolha e passa a ser visto como um idiota metido a herói, e a partir daí perde todo e qualquer apoio da delegacia para suas operações. Sua honestidade, enquanto exceção, só atrapalhou sua vida profissional.


Mais adiante, o personagem de Denzel Washington dirá a Crowe que, de uma forma ou de outra, sendo ele honesto ou não, o dinheiro acabaria sendo desviado e dividido entre seus superiores. Já na prisão, Washington tenta oferecer a Crowe uma soma em dinheiro para se livrar das acusações de tráfico e assassinato, e lembra-o que, ainda que permaneça preso, outras pessoas ocuparão o seu lugar na venda de heroína no Harlem. É claro que Crowe, o certinho, nega o suborno.


A questão aqui é: tentar ser um fruto honesto numa árvore de corrupção é válido ou estar-se-ia apenas enxugando gelo? É possível ser um político probo em um partido corrupto? É possível ser um policial honesto numa corporação desonesta?


Quando traficantes são presos, lemos nos jornais a quantidade de armamento e drogas apreendidas. Dinheiro, nunca. Em muitos casos, os lucros das bocas de fumo estouradas, bem como relógios e outros objetos de valor, são apreendidos pelos participantes da operação, sob o curioso nome “espólio de guerra”. E se fosse você, aceitaria receber sua parte? Acreditaria na história de que esse dinheiro veio de viciado e, portanto, não tem dono? Ou não aceitaria o dinheiro mas teria medo de denunciar os envolvidos, tornando-se portanto conivente?


Todo mundo reclama da corrupção, mas não parece haver um interesse real em combatê-la de maneira eficaz. O cara que reclama do policial desonesto prefere dar 50 pratas pro “seu guarda” do que ter o carro apreendido. Pessoas enchem a boca pra falar de honestidade e de igualdade para todos, mas quem negaria um ingresso especial para furar filas de shows e jogos de futebol?


Pode parecer exagero, mas às vezes tendo a achar que, em muitos casos, a honestidade que se almeja não passa de uma grande hipocrisia. E sem medo de usar o maior de todos os clichês, ouso afirmar: a culpa é da cultura propagada pelo sistema capitalista.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Só podem estar de sacanagem

Manchete do jornal O Globo de hoje (sobre a recuperação de computadores com informações sigilosas da Petrobrás que haviam furtados):



"Furto na Petrobrás foi crime comum e não espionagem"




Na capa do Jornal do Brasil, lê-se: "Segundo a Polícia Federal, eles (os ladrões) não sabiam que tinham roubado dados sobre o Campo de Jupiter, megafonte de gás que a estatal anunciou ter descoberto em Janeiro".


...



Manchete do Globo online sobre fato ocorrido hoje:


"Sargento da PM é assassinado com mais de 30 tiros na linha Amarela"






Frase extraída da notícia: "Policias do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE) acreditam que o crime teria sido uma tentativa de assalto, mas por causa do grande número de marcas de tiros no veículo, não está descartada a hipótese de execução" (grifo meu).

http://oglobo.globo.com/rio/mat/2008/02/29/sargento_da_pm_assassinado_com_mais_de_30_tiros_na_linha_amarela-426019778.asp



...



Casca, me diz uma coisa: alguém aí tá achando que a gente é palhaço?


terça-feira, dezembro 04, 2007

"Antigamente" e "hoje em dia"




O filho que um dia terei nascerá num mundo dominado pela tecnologia digital. Das fotos aos vídeos, das fotocópias aos textos, das músicas aos caixas de supermercado e balanças das farmácias, tudo obedecerá (como já obedece) o mesmo sistema de digitalização de dados, deixando a velha mecânica de lado.


Quem tem mais de 20 anos acompanhou o descortinar deste mundo digital, em muitos casos surpreendendo-se com a velocidade nauseante com que os símbolos da tecnologia de outrora foram descartados. Estes, que chamarei carinhosamente de velhos, não conseguem aplacar o sentimento nostálgico que lhes invade quando pensam em “antigamente”. Antigamente, muitas vezes, é um lugar idealizado descolado da realidade, construído a partir de lembranças seletivas que tendem a fazer deste “antigamente” um lugar muito mais plácido e interessante do que o “hoje em dia”, termo que representa a morada dos que chamarei pejorativamente de jovens.


Os velhos acham que o mundo de “hoje em dia” é mais violento, mais corrompido, mais esvaziado de valores do que o mundo de “antigamente”; acreditam que os jovens de “hoje em dia” não têm a consciência e a participação política dos jovens de “antigamente” e, com grande freqüência, valem-se de exemplos lúdicos dos tempos de “antigamente” para desqualificar as diversões tecnológicas tão caras aos jovens de “hoje em dia”.


Não há dúvida: embora fascinado pelas inovações tecnológicas do mundo de “hoje em dia”, me identifico mesmo é com o bonde dos velhos. E sinto, a cada ano que passa, a invasão deste saudosismo quando penso nas diferenças que existirão entre o “hoje em dia” do meu filho e o “antigamente” de seu pai:


Meu filho irá franzir a sobrancelha quando avistar minha Olivetti Lettera 82. Meu filho irá se referir ao telefone do jeito que eu me referia ao aparelho dentário: fixo e móvel. Meu filho terá alguma dificuldade em posicionar uma agulha no sulco que divide uma música da outra num disco de vinil. Meu filho sempre terá o impulso de olhar atrás da câmera após tirar uma foto para ver como ficou, e nunca compreenderá como é que um dia pagamos tão caro por um filme com apenas 12 “poses” que não podem ser vistas, deletadas ou refeitas. Aliás, meu filho nem saberá o que é um filme de câmera, e talvez eu tenha que ensiná-lo como é que a luz imprime imagens dentro daquela caixinha escura utilizando um papel fotográfico dentro de uma lata de Nescau (tal como fez meu professor de fotografia na oitava série).


Meu filho estranhará saber que, há pouco tempo atrás, só se assistia televisão na própria televisão, e só havia uma em cada domicílio familiar. Não fará idéia da utilidade que um par de palitos com bombril na ponta já tiveram em nossas vidas. Olhará com curiosidade todos os itens mencionados acima, bem como fitas de Atari, VHS, cassetes e disquetes. E, finalmente, meu filho não conseguirá, por mais hercúleo que seja o esforço, imaginar que “antigamente” a vida era possível sem computador e telefone celular.


Eu sou do bonde dos velhos, e o bonde dos velhos não entende o sintomático ditado da era digital:




segunda-feira, novembro 19, 2007

Exercícios de Retórica

Certeza XXIII:
Queria ser a pessoa inconstante que sou para sempre. Mas como estou sempre mudando, isso dificilmente acontecerá.



***


Aforisma IV:
Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que acreditam que existem dois tipos de pessoas no mundo, e as que discordam dessa visão.



***


Lei XLII:
A frase “eu nunca minto” pode ser usada por qualquer um. Um potencial mentiroso estaria apenas mentindo mais uma vez e, afinal de contas, o que é um peido pra quem já tá cagado?



***


Axioma XII:
Se algum amigo, chefe ou caso amoroso discordar constantemente do que você diz, simplesmente diga: “você nunca concorda comigo!!!”. Qualquer que seja a resposta, a pessoa lhe dará razão.



***


Regra I:
Toda regra tem sua exceção. Com exceção desta.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Carioca gosta é de evento

O título auto-explicativo fala do riscado que eu entendo, mas talvez possa ser generalizado. Jana, Samantha, Vivi, Paulo e Nana dirão se o mesmo ocorre em Fortaleza, Londrina, BH, Salvador e Brasília. Mas é fato que, no Rio, neguinho curte mesmo é um evento.




Explico o que trouxe essa reflexão à baila: neste sábado, contrariando os amigos que acharam insana a idéia, fui ao cinema sozinho assistir Paranoid Park, do Gus Van Sant, um filme entre os vários que estão em cartaz por ocasião do Festival do Rio. Comprei o ingresso com seis horas (!!!) de antecedência, porque sabia que, na hora, todas as sessões estariam esgotadas. E não deu outra. Deparei-me com uma fila homérica em frente ao Estação Botafogo, cheia de modernos que não queriam perder a oportunidade de participar do evento. Em outros anos, já vi pessoas que assistiram mais de 30 filmes nos quinze dias do festival, e já me deparei com lotação esgotada para um filme marroquino falado em dialeto africano com legendas em francês.



A mesma cena se repete nos demais festivais e grandes eventos que pululam na cidade. O Tim Festival, que já foi Free Jazz na época em que marcas de cigarro podiam patrocinar eventos culturais (pausa para um suspiro de saudade do Hollywood Rock), costuma trazer atrações absolutamente desconhecidas do grande público, e engana-se quem pensa que esses shows ficam vazios. Bruno Levinson, produtor do maior festival de música independente do Rio – o Humaitá Pra Peixe –, já me falou que se fizer o mesmo show, com as mesmas bandas, no mesmo local, só que uma semana depois do evento, não consegue público.



É que o carioca gosta mesmo de evento. Gosta de fazer parte do calendário cultural da cidade. Gosta, como disse Foucault, de ver e ser visto, ainda que isso implique em assistir um filme tosco ou uma banda bizarra – até porque a atração em si é o que parece menos importar. E no final das contas, consome-se qualquer produto cultural de merda porque a chancela do festival/evento garante uma certa legitimação.



A marca é tão importante que se chegou ao absurdo de realizar uma edição do Rock In Rio em Lisboa, com show de Ivete Sangalo. E quando se apagam as luzes, o público corre pra comprar a camiseta onde lê-se: “Rock In Rio: eu fui”. Pois o importante não é apenas participar, mas poder mostrar ao mundo que você esteve lá. E quem seria louco de perder?

segunda-feira, setembro 10, 2007

Cinema, música, ecologia e haribolzice


Foram duas viagens diferentes realizadas neste último feriadão, sendo uma a trabalho e outra a passeio. A viagem a trabalho consistiu em uma ida à Conservatória (lugar sobre o qual já falei aqui) em razão da abertura do primeiro festival Cine Música. Como Conservatória possui uma identidade fortemente musical, este evento de cinema teve como foco curtas e filmes ligados a música, como Chorinhos e Chorões, O Jaqueirão do Zeca, Vinicius, Coisa Mais Linda, o ainda em cartaz Brasileirinho e muitos outros, além de premiações e homenagens aos profissionais que se destacaram nas áreas de sonorização, mixagem de áudio e técnicas afins.



O grande chamariz do evento é o Cine Centímetro, construído pelo cinéfilo Ivo Raposo em Conservatória a partir dos objetos que obteve do Metro Tijuca, antigo cinema de rua demolido em 1978. Eu me lembro bem de quando comecei a ir ao cinema sozinho na mesma Tijuca, que no final dos anos 80 ainda contava com 7 cinemas ao redor da praça Saens Peña, sendo a verdadeira cinelândia carioca. Para os que vivem esta mesma nostalgia, é um verdadeiro deleite poder entrar, em pleno século XXI, numa réplica perfeita de um cinema de três décadas atrás.


Findos os compromissos profissionais (que também incluíram beber uísque e experimentar canapés cujos nomes não saberia pronunciar), me dirigi ao município de Silva Jardim, do outro lado do estado, para um evento de características bastante diversas. Tratava-se da segunda edição do Festival Experimental Eletrorgânico, cuja tônica era a realização de shows, performances artísticas e manifestações culturais regionais em “um ambiente projetado com princípios da permacultura e da bioconstrução, estimulando desde o primeiro momento atroca e a reciprocidade com a comunidade local” (conforme o texto oficial do evento).





A filosofia “haribol” que sustenta os ideais dos organizadores do festival é bastante radical nos seus preceitos eco-sustentáveis: todos os participantes acampam no vasto terreno, tomando banho e escovando os dentes no rio, com cuidado para não deixar sabonetes, bronzeadores, shampoos, pastas de dente ou quaisquer outros produtos químicos entrarem em contato com a água. O banheiro chama-se fossa, e trata-se de um buraco no chão onde as pessoas fazem suas necessidades de cócoras, jogando serragem em cima ao fim dos “trabalhos”. A cozinha só serve alimentos vindos direto da terra, como saladas de broto de lentilha com beterraba, sanduíches de rúcula, alface e laranja, sopas de inhame, enroladinhos de folha de couve crua com arroz e beterraba e assim por diante. Descartáveis são terminantemente proibidos e palavras como “carne” e “coca-cola” podem desencadear olhares fulminantes e comentários de reprovação.





Dentre as únicas exceções ao estilo econatural, estavam as indispensáveis cervejas vendidas no bar, os walkie-talkies que permitiam as organizadores se comunicarem, e o gerador de luz que alimentava o pequeno palco onde se apresentaram grupos dos mais diversos estilos musicais, desde a quebradeira polifônica do Água Viva até o rap do Pino Solto, passando pelo forró do Cor do Sol, pelo rock descaralhado dos Fuzileiros Nasais e do Elepê, pelo reggae, pelo samba, pelo eletrônico e por tudo mais que viesse.





Se você me conhece um pouco, deve estar se perguntando como é que eu sobrevivi para contar história. E sou honesto: apesar de urbanóide convicto, admiro muito a postura do pessoal do festival, que consegue negar o estilo de vida imposto pela grande cidade e ir viver tranqüilo no mato, plantando sementes e colhendo os frutos da terra sem agredir o meio ambiente. Admiro, mas não é pra mim; talvez os dois dias que fiquei por lá representem o máximo de tempo que consigo agüentar sem chuveiro, pia e vaso sanitário – além das comidas nada ecologicamente corretas da cidade. Embora curta o contato com a natureza, um camarada urbano e citadino como eu precisa, pra início de conversa, de água encanada e um quartinho azulejado pra poder sobreviver.



terça-feira, setembro 04, 2007

O dia mundial da hipocrisia

Segunda-feira é o dia mundial da hipocrisia. É quando glutões arrependidos e bêbados abalados pela ressaca moral decidem parar de comer, de beber, de trepar e de fazer otras cositas más.



Comigo não foi diferente. Depois de encontrar com amigos antigos que batem em minha barriga repetindo a já cliché frase "engordou hein, meu velho", resolvi que ia tentar segurar a onda. Digo tentar porque nunca levo essas propostas muito a sério. Mas era segunda, eu estava nervoso por causa de uma entrevista importante, enfim, resolvi "tentar".



O pseudo-regime durou pouquíssimo. Minha bonita bateu-me o telefone ainda pela manhã dizendo que havia sido convidada por um amigo, o Fernando, a ir em um show da - desde junho - septuagenária Elza Soares, no Estrela da Lapa. O show era para a gravação do programa Palco MPB, da rádio MPB fm, e ficamos numa mesa reservada para os convidados do Prezunic. Como este supermercado apóia o evento, pudemos ficar numa mesa estrategicamente localizada no parapeito do segundo andar (como vocês podem ver na foto abaixo), com direito a caipirinhas, caipiroskas, chopes e pãeszinhos recheados. E depois, fechamos a noite no bar da frente, o Arco Iris, que tem como principal petisco uma pequena montanha de batatas fritas cobertas por cebola, linguiça e queijo derretido. Ou seja: qualquer tentativa de "segurar a onda" estaria fadada ao fracasso.






O programa vai ao ar na rádio MPB agorinha, às 4 da tarde. Se eles não editarem, quem mora no Rio poderá ouvir, entre uma música e outra, um certo maluco gritando para Elza, lá do segundo andar:



- Eu vô, hein!

terça-feira, agosto 21, 2007

No tempo em que Plutão era planeta

Título descaradamente vilipendiado de Diogo Lyra



Durante toda a minha vida escolar, aprendi que tínhamos 9 planetas no nosso Sistema Solar: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Este último sempre foi um dos que mais me intrigava, por ser o mais nanico e também o mais distante do Sol; imaginava eu que, se vivêssemos naquele frio planetinha, jamais completaríamos sequer um ano de existência – que lá tem a duração de 248 dos nossos.


Então – sendo agora obrigado a recorrer a um dos piores trocadilhos da astronomia – imaginem o quão puto, mas muito puto, putão mesmo, eu fiquei quando soube que o curioso nano-planeta havia sido rebaixado para a segunda divisão dos corpos celestes, sendo levado a dividir modestos campos de várzea com Éris e Ceres.


Pois bem: o que já era motivo de tristeza e indignação, levando alguns amigos a reportarem-se saudosa e nostalgicamente ao tempo em que plutão era planeta, praticamente transformou-se em motivo de chacota quando, ao pesquisar no Wikipedia (a enciclopédia dos que são do tempo em que Plutão já jogava na segundona), descobri que Plutão, desde 2006, é classificado como planeta ANÃO!!!


É ou não é uma sacanagem? Afinal, somos nós, terráqueos, que inventamos tais categorias escusas. Do alto de nossa arrogância, consideramos que Plutão não passa de um salva-vidas de aquário, de um reles pintor de rodapé. Já posso ouvir astrônomos e mesmo astrólogos fazendo chacota com nosso irmão caçula: Pedala, Plutão!, é o que imagino gritarem.


Não obstante, visto em um contexto mais universal, nosso próprio planetinha azul não passa de um pequeno grão, de uma verdadeira poeirinha cósmica, como vocês poderão observar abaixo.

































Pois é, perto do Sol não somos merda nenhuma, e perto de outras estrelas de maior grandeza não somos nem mesmo visíveis, o que mostra nossa imensurável pequenez neste universo que nos cerca. E é com este espírito de humildade terrena que inicio, desde já, uma campanha de dimensões astronômicas, certo de que não estarei sozinho na defesa dessa reivindicação, expressa no refrão que bradaremos, eu e todos os meus companheiros, aos quatro cantos da galáxia:



ÃO ÃO ÃO

Queremos Plutão

Na primeira divisão!



quinta-feira, julho 26, 2007

Notas sobre o PAN

Minha bonita tem ido a alguns jogos do PAN e me informou que os estádios estão ficando vazios, mesmo nos casos em que os ingressos para venda já estão esgotados. O Comitê responsável, CO-Rio, explicou n’O Globo de hoje que, do total de 1,7 milhão de ingressos disponíveis, cerca de 300 mil foram doados para União, Governo do Estado e Prefeitura. Acho que, mesmo através do monitor, vocês conseguiram sentir o cheiro de merda que paira no ar.


Problemas na numeração dos ingressos já motivaram uma ação na justiça contra o Comitê, e a Promotoria de Defesa do Consumidor já pensa em entrar com outra ação pra investigar o que para eles pode ser um indício, mas para mim é uma certeza: existem mais falcatruas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.


Pelo menos, fico feliz em saber que ganhamos a medalha de ouro no futebol feminino, metendo 5 gols nas ianques. Certa vez, aqui mesmo no blog, um amigo estadunidense disse que o futebol era um esporte de meninas. E, de alguma forma, parece que ele tinha razão: o futebol também é um esporte de meninas, mas de meninas brazucas.


Com essa vitória, passamos Cuba e estamos em segundo lugar no ranking de medalhas do PAN. Mas sei que voltaremos ao posto de terceiro lugar. Temos vocação pra terceiro. É só ver que nenhum país, nem mesmo os EUA, tem mais medalhas de bronze que o nosso. Em matéria de ser terceiro, somos os primeiros.


E pensem bem: pelo menos nos esportes de equipes, ser terceiro é muito melhor do que ser segundo. Ser terceiro significa que você perdeu a penúltima partida, não foi pra final, mas não se deixou abalar e venceu o último jogo, garantindo o bronze. Ser prata em esportes de equipe significa que você fez uma brilhante campanha e perdeu o último jogo, ou seja, como se diz no futebol, nadou, nadou e morreu na praia. Nada mais frustrante.


Foi exatamente o que aconteceu com as meninas de prata do vôlei e com as meninas de prata do basquete. Esses resultados levaram um conhecido meu, natural da Turquia, a afirmar que “a mulher brasileira sempre entrega o ouro no final”. Mas Marta e suas colegas de seleção podem, agora, dizer que este jovem imigrante de bigode estava errado.

sexta-feira, junho 29, 2007

Dos vícios e das virtudes

Acabei de assistir uma palestra, feita por um médico que já trabalhou em CTI e hoje é coordenador da área de saúde ocupacional de uma grande empresa, sobre o Combate às Drogas. Os que me conhecem – e muitos dividem comigo o mesmo sentimento – sabem que sou arredio quanto a discussões abertas sobre o tópico, uma vez que minhas opiniões divergem do “senso-comum” (ê termozinho complexo) por uma série de motivos. E como o assunto é tabu, até mesmo expô-lo aqui pode ser arriscado. Todavia, ainda me encontro “entorpecido” por tudo que foi dito na palestra, e motivado por esse “barato” resolvi discutir apenas alguns pontos desse delicado tema.


Basicamente, gostaria de começar reproduzindo a definição de vício dada pelo palestrante:


“Inclinação para o mal. Prática irresistível de mau hábito, conduta ou costume censurável ou condenável”.


Pesado, não? Mas se formos buscar lá em Aristóteles a noção de vício, embora também visto de forma negativa, o entenderemos tanto como um derivado do excesso, como da falta. E isto porque, em Aristóteles, a virtude (tema caro ao filósofo) está no meio – não no meio aritmético, mas na justa medida das coisas, ou seja, no vértice de eminência.


Para melhor entendermos esta justa medida, podemos recorrer ao quadro resumido de “vícios por deficiência”, “vícios por excesso” e a “virtude” correspondente, que está situada entre ambos. Este quadro, que reproduzo abaixo, está nos textos da Ética a Nicômaco:



Vício por deficiência ...........Virtude ............Vício por excesso

Covardia ...............................Coragem ........................Temeridade
Insensibilidade .....................Temperança ..................Libertinagem
Avareza................................Liberalidade ....................Esbanjamento
Vileza .................................Magnificência ....................Vulgaridade
Modéstia ..............................Respeito Próprio .............Vaidade
Moleza ..................................Prudência ........................Ambição
Indiferença ............................Gentileza.........................Irascibilidade
Descrédito Próprio .................Veracidade ....................Orgulho
Rusticidade ...........................Agudeza de Espírito ........Zombaria
Enfado ...............................Amizade .......................Condescendência
Desavergonhado ..................Modéstia ..........................Timidez
Malevolência ........................Justa Indignação ...............Inveja



Em Aristóteles, as virtudes não são hábitos do intelecto (como queriam Sócrates e Platão), mas da vontade. Para Aristóteles não existem virtudes inatas, mas todas se adquirem pela repetição dos atos que, para gerarem as virtudes, não devem desviar-se nem por falta, nem por excesso, pois que a virtude consiste na tal justa medida, longe dos dois extremos.


“A virtude é portanto uma disposição adquirida voluntária, que consiste, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Digamos ainda o seguinte: enquanto, nas paixões e nas ações, o erro consiste ora em manter-se aquém, ora em ir além do que é conveniente, a virtude encontra e adota uma justa medida. Por isso, embora a virtude, segundo sua essência e segundo a razão que fixa sua natureza, consista numa média, em relação ao bem e à perfeição ela se situa no ponto mais elevado”. (Ética a Nicômaco, II, 6)


Agora vamos retornar dessa viagem milenar para o nosso tempo. O estilo de vida que nos é vendido por todo o sistema econômico que vivemos, por toda a racionalização da vida a qual temos sido submetidos há alguns séculos, nos leva irremediavelmente a uma busca pelo excesso, em diversas esferas. Os fabricantes de produtos, seus vendedores, os canais de mídia e publicidade, todos querem que nos comportemos como legítimos consumidores. Exemplo tosco, mas que serve: se você começar a ficar bêbado e tiver que dirigir, você é aconselhado a parar de beber ou a enfiar o pé na jaca mesmo e voltar de táxi?


Aí, indo contra toda essa corrente, autoridades defendem o fim do uso das drogas, o combate às drogas (título da palestra que assisti, lembram?). Os mais conservadores e/ou ignorantes do tema ainda responsabilizam os usuários pelo problema do tráfico de drogas, uma vez que dão dinheiro para os traficantes.


Ora, a proibição das drogas é coisa recente na história do homem sobre a Terra. O uso de drogas, em rituais ou mesmo fora deles, data de mais de 10.000 anos. E todos os trilhões de dólares que o governo americano gastou até agora no combate às drogas não fez com que o uso de entorpecentes acabasse. E é claro que nunca vai acabar. Além do mais, acredito que governos não podem invadir o espaço privado do cidadão e arbitrar sobre o que ele pode ou não fazer nos seus domínios pessoais, sem que haja conseqüências a terceiros. Este é, talvez, um dos piores legados de alguns políticos americanos para a política mundial de combate às drogas: colocar a repressão mil léguas à frente da prevenção, do tratamento médico e do controle do uso abusivo - afinal, se a virtude está no meio, não é o uso que se deve combater, e sim o abuso.


O tráfico só existe porque foi politicamente decidido que certas drogas são legais e outras, ilegais. Proíbam cigarros e bebidas alcoólicas e verão um novo cartel nascer debaixo de suas narinas – como foi com Al Capone na Chicago dos anos 20, quando o número de bares onde ouvia-se o jazz (que era reduzido na época da legalidade) pulou para mais de 300 estabelecimentos clandestinos na época da proibição.



Às vezes eu me bolo com a estupidez humana pra certos assuntos.









* A lição aristotélica eu aprendi através de uma história que envolve a filha de uma grande amiga, Lady Gahiva. Antônia, de 8 anos, voltou de uma festinha com a barriga doendo de tanto tomar refrigerante, no que foi prontamente advertida pela mãe:


- tá vendo só? O que é foi que Aristóteles disse?

- A virtude está no meio, mamãe.
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terça-feira, junho 26, 2007

Playbárbaros



É foda. “Ni qui” dependesse de mim, esse blog seria só sobre livros, músicas, filmes, algumas discussões intelectualóides e quiçá uma ou outra viagem existencial. Mas, como dizia o poeta Allen Ginsberg (sobre quem já falei aqui), o mundo é uma montanha de merda e, se queremos movê-la, é preciso que lhe metamos a mão. E a gente não pode mesmo ficar indiferente às cagadas que neguinho faz por aí.


Essa história da doméstica estampada nos jornais de ontem é troço de deixar qualquer um muito, mas muito puto da vida. Suponho que todo mundo saiba do que estou falando: cinco playboys, cinco canalhas, cinco jovens covardes moradores de condomínios de luxo na Barra (cada vez menos da Tijuca, como diz o amigo Edu) espancaram, lá mesmo, a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, de 32 anos, na madrugada desse último sábado – e ainda lhe roubaram um celular e 47 reais! Vejam o drama do depoimento da vítima:


"Eu estava olhando na direção que os ônibus vêm quando eles chegaram me xingando. Depois de pegar a minha bolsa, eles começaram a me bater. Levei muitos pontapés e chutes no rosto. Coloquei o braço na frente, para me proteger e eles passaram a me dar socos e cotevaladas na cabeça".


Tá ruim? Pois piora: o inspetor de plantão informou aos jornais que Felippe, que é estudante de direito, teria dito que cometeu a agressão porque achou que tratava-se de uma prostituta.


Bom, então está explicado. Solta o preso, delegado! Ele achou que era uma prostituta, ora bolas! Os marginaiszinhos de Brasília também se defenderam alegando que confundiram o índio Galdino com um mendigo, e por isso o queimaram vivo. E hoje estão soltos.


Por sorte, um taxista viu a cena deprimente na Barra e anotou a placa do carro. Com o número, a polícia conseguiu localizar o dono do carro e prendeu os brutos. Felippe Macedo Nery Neto, de 20 anos, Leonardo de Andrade, de 20 anos, Júlio Junqueira, de 21, Rodrigo Baçalo (na foto ao lado), de 20 anos, e Rubens Arruda, de 19, dividem uma cela na 16ª DP e serão levados para a Polinter. Felippe, que mora na cobertura de luxuoso prédio na Barra, mandou essa pro delegado: “Vamos ver se isso vai ficar assim, minha família não é qualquer uma”.


Infelizmente, Felippe está provavelmente certo. Sou descrente com a justiça desse país e não alimento a ilusão de vê-los presos por muito tempo. Mas bem que gostaria que dividissem cela, lá na Polinter, com outros presos que tivessem uma quedinha por garotos esbeltos e de pele bem cuidada. E no dia seguinte, quando o delegado os encontrasse arregaçados, sem poder sentar, e perguntasse o motivo daquela barbaridade, os demais presos diriam:



Foi mal, chefia, achamos que eram bonecas infláveis.






segunda-feira, junho 25, 2007

5000 vítimas "do asfalto"

Na capa do JB de sexta-feira, a manchete era: “Cinco mil na mira de fuzis em Copacabana”. A matéria, assinada por Breno Costa, refere-se aos “cerca de cinco mil moradores dos arredores dos morros Pavão-Pavãozinho, Ladeira dos Tabajaras e Cantagalo, em Copacabana e Ipanema”, que estariam “na linha de tiro, em caso de eventuais confrontos entre policiais e traficantes nessas comunidades”. O jornalista ainda tem a cara de pau de admitir: “A conta feita pelo JB não incluiu a população das favelas, apenas a do asfalto” (grifo meu).



Não tenho os números, até porque esse tipo de censo é pouco confiável e depende da instituição que realiza; entretanto, não há dúvidas de que as três comunidades somam muito mais que os cinco mil moradores citados. Mas os milhares de moradores que não moram “próximo às favelas”, mas sim nas favelas, não parecem estar no cerne das preocupações do jornalista ou de seus superiores. Aliás, francamente, quando é que veículos de comunicação como este e outros de maior grandeza realmente se importaram com os que não são “do asfalto”?


Na minha avaliação, a matéria tem sua razão de ser por dois motivos: 1) as favelas estão localizadas em algumas das áreas mais nobres da cidade; 2) segundo o próprio texto, “o alcance letal de um tiro de fuzil é de, no mínimo, 1,5 km, segundo especialistas em armamento”.


Alguém guarda a ilusão de que esta notícia existiria caso essas favelas estivessem localizadas na baixada, ou se as armas dos traficantes alcançassem apenas 50 metros de distância? O problema, para o jornal, é o perigo ao qual estão expostos os moradores “do asfalto”, cujos “apartamentos estão de frente para o morro”. Daí que moradora fulana de tal “até agora não teve problemas com tiroteio, mas sente receio com a proximidade da favela”. E, mesmo quando a opinião do entrevistador não reflete a idéia que eles querem passar, o texto é construído de forma tendenciosa: “A aposentada (...), moradora de um prédio na rua Sá Ferreira, diz viver sem medo, apesar da proximidade de sua sala com o morro” (grifo meu). A conjunção denota o mesmo viés preconceituoso e acusatório presente em frases do tipo “ele é pobre mas honesto”.


O fato de que os grandes veículos de comunicação – e aproveito pra colocar também a maioria dos dirigentes do país nesse balaio de gatos – só se preocupam com os interesses das classes economicamente superiores, em detrimento da segurança e da garantia dos direitos dos menos afortunados, não representa pra mim uma novidade. O que me surpreende é que o façam de maneira tão leviana e descarada.





Fechando, aproveito o ensejo proporcionado por essa reportagem pífia para reproduzir os versos de um samba escrito há quase 20 anos pelo grande letrista Paulo César Pinheiro, e posteriormente gravado pelo percussionista Wilson das Neves.






O dia em que o morro descer e não for carnaval



O dia em que o morro descer e não for carnaval
Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
Na entrada, a rajada de fogos,
para quem nunca viu,
Vai ser de escopeta, metralhadora,
granada e fuzil!
(É a guerra civil…)



O dia em que o morro descer e não for carnaval
Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
E cada ala da escola será uma quadrilha
A evolução vai ser de guerrilha
Que a alegoria é um tremendo arsenal
O tema do enredo vai ser a cidade partida
No dia em que o couro comer na avenida
Se o morro descer e não for carnaval.



O povo virá de cortiço, alagado e favela
Mostrando a miséria sobre a passarela
Sem a fantasia que sai no jornal.
Vai ser uma única escola, uma só bateria
Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
Que desfile assim, não vai ter nada igual.



Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga
Nem autoridade que compre essa briga
Ninguém sabe a força desse pessoal
Melhor é o poder devolver pra esse povo a alegria
Senão todo o mundo vai sambar no dia
Em que o morro descer e não for carnaval.

quinta-feira, maio 17, 2007

Uma chopada "gummy"

Na terça passada fui à chopada do meu curso de graduação, que concluí no fim de 2002. Atravessei a poça por dois motivos: 1) Teria a chance de rever ilustres e saudosos amigos, com os quais tenho tido pouco (ou nenhum) contato; 2) A cerveja seria gratuita e minha entrada, enquanto veterano, idem.

Antes que eu comece a destilar os motivos da minha frustração, é necessário contextualizar o incauto leitor: o curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense não passa dos 12 anos de existência, e recebe, semestralmente, algo em torno de 30 ou 40 calouros. Quando eu entrei na Universidade, no segundo semestre de 1998, o curso recebia 20 inscritos por semestre, e devia ter, no total, cerca de 100 alunos. Mesmo com o grande crescimento auferido no passar de uma década, julgo ainda tratar-se de uma chopada de dimensões até certo ponto humildes, principalmente se comparada com as mega-produções (hoje terceirizadas) das chopadas de cursos como Engenharia e Medicina.


Talvez para os calouros e muitos veteranos que compareceram a este evento, a chopada tenha sido divertida. Pra mim, veterano de tempo imemoriais, foi uma merda. De longe, a pior de todas as chopadas da ProCult que já fui. E vamos aos porquês.


1. A música: estava muito, mas muito ruim. Aquele dance/house de academia, sabe? Pra você ter uma idéia, os melhores momentos sonoros foram flashbacks dos anos 90, tipo Depech Mode, EMF, Deee Lite e coisas do gênero. Imagina só: "Enjoy the silence" sendo o melhor momento de uma festa jovem de 2007! Lembro quando as chopadas tinham Bob Pai e Tchello nas carrapetas, com muita música brasileira e diversidade sonora. Até som ao vivo já teve, jam sessions com calouros subindo pra cantar e tudo! O som dessa edição foi lamentável, e pelo visto o mais contente com o som era o próprio DJ, que dançava tal qual um Go-Go Boy em happy hour no Centro.


2. A cerveja: embora gelada, era liberada em doses homeopáticas. Ocorria basicamente assim: você se acotovela entre os corpos suados de várias pessoas, enche um copo com cerveja, sai e bebe. Quando volta pro refil, só tem gummy (pra quem não conhece, uma bebida feita da infeliz mistura de cachaça com sucos em pó no estilo Ki-suco – pra quem é desse tempo – ou Fresh). Aí você espera uns dez, quinze minutos, e volta a sofrer por mais um copo. Ou seja: pra quem não curte as tais bebidas coloridas tiradas de grandes garrafas pet, a média de dosagem alcoólica era de quatro a cinco copos de plástico de cerveja por hora. Triste pros mais afoitos como eu, que costumam entornar de quatro a cinco vezes essa quantidade no mesmo espaço de tempo.


3. Os jovens: este ponto até passaria despercebido, não fosse a completa ausência de veteranos no local. Houve exceções, é claro, dentre elas saudosos amigos de curso e esquadrilha como Johnny, Raphael, Luisinho e o trio de meninas superpoderosas Gi, Isa e Ju (sem dúvida, os melhores partidos da festa). Todavia, a grande maioria resolveu (sabiamente, reconheço agora) não dar a cara à tapa na chopada. Até porque, sem o apoio de outras lendas históricas, veteranos jurássicos como eu ficam se sentido, como diria o amigo Edu, verdadeiras múmias embalsamadas perto da garotada que era, no mínimo, três copas do mundo mais nova. Pra se ter uma idéia, a certa altura ouvi um jovem mancebo mandar a seguinte pérola dentro do banheiro:


- Peitooooo! Hoje eu quero tocar num peitoooo!!!


Realmente, essa foi a cereja do bolo. Senti-me numa high school americana, só que sem os atiradores revoltados.


4. Os seguranças: os dois ogros postados no umbral da porta de entrada (uso o adjetivo "ogro" pela atitude de brutos, e não pelo tamanho, já que nem eram tão grandes assim) disseram ter sido contratados pela galera organizadora da chopada, que deve ter entrado no curso lá pros idos de 2004, 2005. E como explicar pra esse povo que eu era de 2/98, formado em 2/2002, se eles nunca me viram? Mencionei o nome de professores e funcionários, quase tive que contar historinhas do meu tempo de faculdade, pra finalmente entrar, e ainda ouvindo a seguinte gracinha de um dos brutos: "assim é muito fácil, né?". E pior: como o cigarrinho da confraternização estava terminantemente proibido dentro do local, tinha um pessoal veterano que entrava e saía do estabelecimento - até por uma questão de respeito, se é que vocês me entendem. E os ogros barrando a galera na porta! Diziam pra mim: "ah, tu não vai sair de novo não, tu já entrou e saiu umas cinco vezes!" Ou seja: o cara me reconhecia, sabia que eu era veterano, sabia que veterano entra de graça a qualquer hora, e ainda assim queria impedir meu direito (e o de outros), legalmente constituído pela própria comissão organizadora, de ir e vir.



Enfim, quero deixar claro que não estou culpando a organização do evento - aliás, minha intenção não é, nem de longe, apontar culpados por isso ou aquilo. Só estou usando do meu direito de emitir opinião, desde já antevendo as críticas daqueles que nem conheço. O caso da mochila do camarada só vem piorar as coisas. De maneira que, se nas futuras edições da festa não houver uma adesão em massa da galera da lista da ex-procult, temo ter encerrado (de maneira pífia, infelizmente) minha participação em um evento que já não tem nada a ver comigo e com aqueles que frequentaram o curso de produção cultural e (aqui fico meio melodramático e saudosista, se me permitem) vislumbravam contribuir para a produção de eventos e produtos culturais de qualidade e em consonância com a cultura brasileira, e não fazer do principal evento de socialização e recepção dos novos alunos do curso uma grande festa gummy, com bebida gummy, seguranças gummy e música gummy.

segunda-feira, maio 07, 2007

Famosos na cara do gol

A moderna tecnologia prestou um grande serviço aos amantes do futebol, que hoje podem conferir replays de gols e de belas jogadas, de faltas, contar com o recurso do tira-teima para xingar o juiz com propriedade e assim por diante.


Mas, de uns tempos pra cá, em meio a estes interessantes replays de tudo quanto é ângulo, passamos a ser obrigados a assistir flashes de celebridades (ou, como dizemos mais apropriadamente, de “famosos”) que, sem dúvida, devem receber ingressos gratuitos para o “camarote global” com o intuito de mostrarem suas famosas caras para as câmeras da emissora azul-marinho.


Agora me diz uma coisa: porque é que, junto ao replay do belo gol do Dodô (sou flamengo e tenho uma nega chamada bonita, mas não deixo de admirar belos gols como o de Dodô), eu tenho que ver a tristeza nos olhos da Carol Castro e a alegria explosiva da ex-malhação Samara Felippo? Ou discutir se é melhor ter Stephan Necersian ou Gabriel O Pensador como colega de time?





Esbravejos à parte, só existe uma vantagem no fato do futebol carioca estar pior do que o paulista: não ter a final do nosso campeonato narrada pelo Galvão Bueno.

quinta-feira, abril 26, 2007

Tempos de Nóia

Vivemos tempos de nóia.

A chamada “escalada da violência” nas grandes cidades, explorada sem piedade pelos grandes veículos de comunicação de tendência duvidosa, produz um efeito de bola de neve que faz com que muitos “cidadãos de bem” tenham os batimentos cardíacos acelerados com o simples estouro de um estalinho na rua.


Penso que a sensação da violência – e não a violência per se – seja uma das principais responsáveis pelo sentimento de apreensão que acompanha muitos de nós. Ontem, por exemplo, vi um garoto, com aspecto de morador de rua, iniciar uma briga no Arco-íris, bar da Lapa, porque o garçom havia encostado nele ao pedir que saísse do estabelecimento. Alguns amigos que chegaram depois ouviram meu relato do ocorrido, que envolveu voadoras, mata-leões e garrafas quebradas – tudo verídico.


Aqueles que me ouviram não viveram a violência por mim descrita – mas tiveram a sensação da violência bem próxima. E muitos dos freqüentadores que estavam no local provavelmente contaram a mesma história para outras pessoas, que também experimentaram semelhante sensação. O mesmo ocorre quando alguém é assaltado: embora somente uma pessoa viva a violência de fato, diversas outras pessoas ouvirão o relato e dirão: “porra, o Rio está cada vez mais violento!”. O que pode não ser uma verdade de fato – o aumento dos índices de criminalidade – transmuta-se em uma sensação de aumento da violência, uma vez que a divulgação desse tipo de informação promove correlato tipo de sensação.


E agora, em tempos de internet, existe uma modalidade nova desse tipo de “terrorismo”: são e-mails que, com a intenção de prevenir os “cidadãos de bem” (pois que muitos são supostamente assinados pela polícia, alguns com o título de “utilidade pública”), produzem o efeito de aterrorizar as pessoas. É de deixar neurótico qualquer um que leve o negócio a sério. Vamos então a alguns exemplos, retirados dessa modalidade de e-mails a qual me refiro:



“Você e seus amigos estão num bar, batendo papo, tomando uma cervejinha e se divertindo. De repente, chega um individuo e pergunta de quem é o carro tal, com placa tal, estacionado na rua tal, solicitando que o proprietário dê um pulinho lá fora para manobrar o carro, que está dificultando a saída de outro carro. Você, bastante solícito, vai e, ao chegar até o seu carro, anunciam o assalto e levam seu carro e seus pertences. E ainda terá sorte se não levar um tiro...”


Essa, então, é clássica:


“Comunidades do Orkut e sites pessoais estão repletos de gente que afirma ter tido seu rim roubado depois de ser dopado na balada. A vítima geralmente sai para se divertir com os amigos e não presta atenção à sua bebida. O interessado no rim joga algo dentro do copo, leva a vítima sedada para casa, arranca seu rim e deixa o atacado dentro de uma banheira com gelo até a cintura. Quando acorda, o jovem, de ressaca, lê no espelho de seu banheiro: “Corra para o hospital. Roubamos seu rim e você pode morrer de hemorragia”. O rim acaba indo para grupos de contrabando de órgãos internacionais e a vítima passa o resto da vida fazendo hemodiálise”.


As mulheres, nesses casos, são as que mais se fodem, vejam só:


“Quando as mulheres vão a toaletes, banheiros, quartos de hotel, vestiários de mudar de roupa, academias, etc., quantas podem estar certas de que o espelho, aparentemente comum, pendurado na parede, é um espelho de verdade ou um espelho de duas direções? (daqueles em que você vê sua imagem refletida, mas alguém pode te ver do outro lado do vidro como os da Casa dos artistas e Big Brother). Tem havido muitos casos de pessoas instalando espelhos de duas direções em locais freqüentados por mulheres, para filmar, fotografar ou simplesmente ficar olhando”.


E as dicas para se safar de um estupro?


“1 - A primeira coisa que eles olham em uma vítima potencial é o penteado. É mais provável que eles ataquem uma mulher com rabo-de-cavalo, coque, trança ou qualquer outro penteado que seja possível puxar mais facilmente. É provável também que ataquem mulheres com cabelos longos. Mulheres com cabelos curtos não são alvos comuns.

2 - A segunda coisa que eles olham é a roupa. Eles vão olhar para mulheres em que a roupa seja fácil de tirar rapidamente. Eles também procuram mulheres falando no celular ou fazendo outras coisas enquanto anda, isto sinaliza que estão desatentas e desarmadas e podem ser facilmente apanhadas.

3 - A hora do dia em que eles mais atacam e estupram mulheres é no começo da manhã, entre as 5:00h e 8:30 horas.

4 - O lugar campeão para apanhar mulheres é o lugar onde ficam os estacionamentos de escritórios. Em segundo lugar, estão os banheiros públicos.

(...) 7 - Disseram que não pegam mulheres que carregam guarda-chuvas ou objetos que possam ser usados como arma a uma certa distância (chaves não os intimidam, porque para ser usadas como arma, a vítima tem que deixá-los chegar muito perto).

(...) 10 - Esteja sempre atenta ao que se passa à sua volta. Caso perceba algum comportamento estranho, não o ignore. Siga seus instintos. Você pode até descobrir que se enganou, ficar meio desnorteada no momento, mas pode ter certeza de que ficaria muito pior se o rapaz realmente atacasse”.


Tirando o caso do rim, típica lenda urbana (que, pelo que li, circula inclusive em países da Europa e nos EUA), não duvido que os outros casos possam ser verdadeiros. Só duvido que, entre o efeito de prevenção e a paranóia generalizada, esse tipo de e-mail produza algum aspecto positivo. Mas é melhor nos acostumarmos, pois vivemos tempos de nóia e a qualquer momento um lunático pode te estuprar, levar seu carro, te abrir pra tomar o seu rim ou simplesmente te espiar enquanto você troca de roupa na academia.


E quanto a você, mulher, é melhor que, para sua própria segurança, corte os cabelos bem curtinhos, ande de guarda-chuva constantemente, chegue atrasadas ao trabalho para não saírem às ruas antes das oito e meia, não vá de carro e nunca mije na rua.


Afinal, é como ensina a sabedoria popular:


“quem tem cu tem medo”.


Cuidado!!!

terça-feira, abril 17, 2007

Contagem de corpos

Já escrevi hoje aqui no blog, e o tema é inclusive bem mais palatável do que esse. Mas não pude me furtar de desabafar aqui depois do que acabou de acontecer.


Há alguns minutos, por volta das 15hs, escutei três tiros do escritório onde trabalho, junto ao Consulado Estadunidense. Já está na página virtual do Globo (e os ascensoristas daqui, e por extensão todos no prédio, já sabem): uma tentativa de assalto resultou num assaltante morto e duas pessoas feridas (outro assaltante e o assaltado).


Lembrei-me então que chegara atrasado hoje por causa de um congestionamento causado pela chamada “guerra do tráfico” no Morro da Mineira, localizado em cima do túnel Santa Bárbara. O Globo virtual revela: “pelo menos 14 bandidos, segundo a PM, morreram na favela”.


Até agora, portanto, já contamos 15 mortos.


A esses quinze, podemos somar um empresário de funkeiros morto a tiros no Irajá e seis homens mortos a tiros por policiais na favela do Rebu, em Senador Camará, na madrugada de ontem pra hoje.


Nas minhas contas, 15 + 7 = 22.


A divertida Nair Belo também faleceu, mas de morte natural, então não conta. São, até agora (e que eu saiba, podem haver mais) 22 mortes por armas de fogo em menos de 24 horas – e só na cidade do Rio de Janeiro.


E qual a manchete de capa de hoje do mesmo Globo?


“A maior tragédia das armas”.


Mas eles estão se referindo ao massacre feito por um sul-coreano numa universidade da Virginia. O cara matou 32 pessoas por lá. Mas sei que, se o pessoal daqui se esforçar, sem dúvidas consegue bater esse recorde.


Pronto, era isso. Depois desse breve choque de realidade, podemos voltar à mediocridade de nossas vidas, num lugar onde a vida não vale a pedra portuguesa em que se pisa.



terça-feira, março 13, 2007

Gerundismo do Futuro

Para Gigi, que sabe que português bem dizido não se correge



Tá bom, eu sei que a língua é uma coisa viva, em constante metamorfose. Sou um grande simpatizante de neologismos. Tampouco sou um xiita da língua, daqueles estilo MV Brasil que querem que e-mail seja sempre chamado de correio eletrônico – coisa que nunca faço, porque dá muito mais trabalho de falar.

O que eu condeno são adaptações esdrúxulas do informatiquês (neologismo, viram?) para a língua portuguesa. Deletar tudo bem, como evitar? Mas já ouvi gente dizendo linkar, atachar, e o que considero a pior de todas: printar. Porra, malandro, eu imprimo a merda da página, mas não me venha pedir pra printar que me arranha o ouvido, cacete!

Não é mau-humor nem é de graça. Existe uma linha tênue que separa a língua portuguesa do americanismo chulo. E, pra mim, o pior sintoma desse câncer lingüístico repousa no novo tempo verbal que está na boca de toda a população urbana carioca: o futuro do gerúndio.

O nome já é escroto, mas não consigo pensar em nada mais apropriado pra descrever essa nova “mania” verbal – que, aliás, inexiste na língua de Camões. Vejam bem: o futuro simples, aquele presente em construções como “eu irei à festa”, “acordarei às oito”, “viajarei na quinta”, ninguém usa mais. Virou tudo “vou viajar”, “vou acordar”, e até mesmo “eu vou ir à festa”. Tranqüilo, deixa rolar, também não sou nenhum purista, foda-se o nosso futuro (essa frase pode ser interpretada, inclusive, de outra forma). A gente usa o “vou” como auxiliar e pronto, taca o verbo no infinitivo.

Mas aí veio o fatídico e nocivo futuro do gerúndio, e vou lhes contar como tudo aconteceu:

Num belo dia, algum americano inventou uma profissão chamada telemarketing. E é claro que nós a importamos. O problema é que os manuais de teleatendimento e teleseilámaisoquê foram traduzidos, direto do inglês, por algum beduíno sem o menor conhecimento da língua, que abrasileirou o future continuous deles. Deu no que deu: do nada, comecei a receber ligações de bancos, lojas, planos de saúde e companhias telefônicas, e quando pedia pra me ligarem no dia seguinte – estratégia velha, mas que funciona – ouvia do telemarketeiro:

- Tudo bem, sr. Arthur, estarei retornando a ligação amanhã.

Vocês hão de convir que é um nojo. É não, era, porque agora isso se popularizou de tal forma, que não há um único indivíduo que eu conheça que não a utilize nos dias de hoje. Em qualquer empresa, é comum ouvir frases como “vou estar chegando às nove”. Aliás, desafio você, estimado leitor, a assumir aqui, publicamente, que nunca fez uso do gerundês futurístico. Eu mesmo tenho que confessar que já me peguei fazendo-o.

E, por favor, não me interpretem mal: não tenho nada contra telemarketeiros ou contra qualquer indivíduo em particular que se valha desta – a meu ver, nefasta – construção verbal. E digo mais: gosto da linguagem chula, chego a achá-la necessária, nunca corrigiria alguém que diz “os pessoal tudo” ou o velho “a gente vamo” (tadinho do meu corretor de texto, tá ficando maluco com essas citações!). Quero mais é que o professor Pasqualete vá pra puta que o pariu. Mas confesso que me dói ver gente que diz, cheio de pompa, como se estivesse citando Os Lusíadas, “amanhã estarei lhe enviando o documento”.

Se você leu esse texto e não ficou puto com o autor, se concorda minimamente comigo, então junte-se a mim e faça um esforço pra evitar o gerundismo do futuro.
Entre nessa campanha: pela pureza da língua portuguesa!