segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Música e moralidade
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Tambores pré-carnavalescos
As fotos abaixo são do bloco Imprensa que eu gamo, formado por jornalistas e que há anos desfila pelo bairro. Neste 2008, o dia não poderia ter sido mais apropriado: domingão, 20 de Janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.
A última foto, que tirei da janela de casa, mostra como o bagulho estava frenético. E se a carne é de carnaval, o coração é igual.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Sopros pré-carnavalescos



terça-feira, dezembro 11, 2007
Show dia sim, dia não

Sempre tive uma birra com o Canecão. Mesmo estando localizado em terreno da UFRJ, e pagando um aluguel irrisório, eles insistem em cobrar preços exorbitantes para os shows. Durante uma época, não aceitavam minha carteirinha de estudante por ser do Mestrado, como se mestrando não fosse estudante (aliás, foi a época em que mais estudei na vida).
Atualmente, por conta de uma política de democratização cultural, é possível comprar ingressos a 20 reais (10 estudante) mas só no próprio dia, chegando uma hora antes da bilheteria abrir. E pra sentar num lugar péssimo Como eu disse à Gigi, é como assistir um show numa poltrona da classe econômica da TAM, com os joelhos batendo na da frente. E a ruiva, loucamente apaixonada pelo da Viola, comprou ingresso Rayovac: setor AAA. Com direito a bafo de Elton Medeiros no cangote.
Ao adentrar o grande Caneco, eis que o céu desaba numa chuva torrencial. E nós felizes pra cacete, protegidos pelas grossas paredes da casa de show, ouvindo Paulinho cantar “não sou em quem me navega, quem me navega é o mar” enquanto a tempestade inundava a cidade de São Sebastião.
Naturalmente que não me propus a ficar nas apertadas poltronas, e fui com minha bonita assistir de pé o show. A banda é afinada e o cenário é ótimo, ficando à mercê da iluminação que faz com que cada música tenha uma cor, indo do vermelho de Coração Leviano ao azul de Dança da Solidão, passando pelo verde, pelo laranja, e daí por diante. O modelo Acústico MTV, apesar de desgastado, não influi muito num show de samba, mantendo violões, cavaquinhos e instrumentos percussivos. E a serenidade do Paulinho, que já debati aqui, faz com que qualquer apreciador de samba se deixe levar pelas suas harmonias descomplicadas e por seus singelos versos.
Sábado: The Police no Maracanã
Confesso que, apesar de gostar de futebol, vou muito pouco ao Maracanã. De modo que todo o perrengue para entrar no gramado no dia do show do The Police (havia algumas dezenas de milhares de pessoas fazendo o mesmo) fica pra trás quando se avista o gigante anel do estádio repleto de gente. Melhor ainda é quando isso acontece ao som de uma boa banda de rock – no caso, falo dos Paralamas, pra mim uma das poucas bandas de rock dos anos 80 que não estragou a própria carreira nas décadas subseqüentes.
Alguns podem achar estranha esta opinião, mas acho que Herbert, que nunca foi um grande cantor, está mais afinado do que antes do acidente que lhe confinou à cadeira de rodas. A banda continua indefectível – aliás, os músicos do Paralamas também se diferenciam de seus colegas da geração BRock por serem excelentes instrumentistas. E a forte influência do The Police fica clara, especialmente nas canções mais antigas.
Falando nos coroas britânicos, Sting, Andy Summers e Stuart Copeland, embora não demonstrem tanta “química” juntos, ainda conseguem animar milhares de pessoas com seus hits inesquecíveis. Há excessos nos solos de Summers (o cara não é nenhum Clapton para dar uma de guitarrista virtuose), mas a voz de Sting continua afinada e as viradas de Copeland continuam bem azeitadas. Mas o impressionante mesmo são os nababescos telões e a iluminação dos caras. E, claro, erram, como sempre erram nestes portentosos eventos, os organizadores e produtores por não facilitar o acesso da galera do gramado às bebidas, gerando enormes filas nos poucos postos de venda.
Segunda-feira: Maria Rita no Rival
Este show da Maria Rita foi a última gravação do programa Palco MPB de 2007, onde artistas cantam suas músicas intercaladas com conversas descontraídas mediadas pelo apresentador do programa. Fui crente que meu nome estaria na lista de convidados. Não estava, mas o porteiro me deixou entrar mesmo assim (terá sido por pena?). A porta do teatro Rival estava abarrotada de gente que queria ver e ouvir a filha de Elis. Destacavam-se alguns grupos de mulheres ensandecidas, que gritavam histericamente durante o show da cantora como se estivessem diante dos Fab Four nos anos 60.
Tal como no formato do Acústico MTV do Paulinho, a apresentação de Maria Rita é alicerçada por uma grande preocupação com a produção do espetáculo, desde a iluminação até o figurino da cantora (um vestido curto daqueles hiper brilhantes, feitos de lantejoulas ou coisa que valha). Os músicos também são excelentes, contando, entre outros, com o experiente Jota Moraes no piano e na flauta, com Sylvinho Mazzuca no contrabaixo acústico (que acompanha a cantora desde o primeiro disco) e com o emergente Leandro Sapucahy, que produziu o último trabalho da cantora e divide a percussão no palco com Neni Brown.
Com todos estes cuidados, não há muito onde errar. No repertório do show aparecem os destaques dos dois primeiros discos (como as três músicas do hermano Camelo que ela gravou no disco de estréia), mas o grosso é baseado no último, Samba Meu. Criticado por ser impecavelmente produzido, puxando alguns arranjos para uma linha jazzista e perdendo, assim, aquele gosto do bom samba de roda, penso que um dos pontos positivos do disco é o fato de apostar em sambas novos, e não cair na mesmice de repetir os mesmos lá-la-iás que se ouve em qualquer noite no Democráticos ou em outra casa de samba da Lapa.
No fim do show, Arlindo Cruz, autor de seis sambas gravados pela cantora em Samba Meu, apareceu com sua imensa barriga para dar uma canja. A platéia caiu no samba, reforçando a idéia de que show bom é show de graça. E se a voz da cantora ainda lembra a da mãe, pra mim foda-se: a voz do novo queridinho do samba Diogo Nogueira também lembra bastante a do pai João, e alguém o critica por isso?
Como música é minha paixão número um, pretendo continuar neste ritmo: num dia música com cerveja, no outro o merecido descanso pra começar tudo de novo. Aguardem os próximos relatos.
sexta-feira, novembro 23, 2007
4
E foi neste mesmo ano de 1991 que o jovem Arthur conheceu um magrelo cabeludo chamado Leonardo Villas Boas, vizinho de bairro com um ano a mais de vida e de experiência guitarrística. No mesmo dia em que se conheceram, o jovem Lelo emprestou ao jovem Arthur uma fita cassete e um disco de vinil, que influenciariam decisivamente o gosto musical deste último.
Led Zeppelin IV, de 1971, é, obviamente, o quarto disco do Led. E ...And Justice, de 1988, é o quarto disco do Metallica. A quarta faixa do quarto disco do Led é Stairway to heaven, talvez a balada de rock mais conhecida do mundo (o disco é um dos mais vendidos do mundo, ultrapassando as 30 milhões de cópias). E a quarta faixa do quarto disco do Metallica é One, a balada mais conhecida da banda e o primeiro clipe deles oficialmente lançado. Ambas as canções são baladas épicas que duram em torno de 7 minutos, com vários climas, indo do dedilhado melódico ao peso da distorção, com um super solo de guitarra no fim. E foram as duas canções que praticamente me hipnotizaram naquele dia longínquo.
Na época, eu já simpatizava bastante com o número 4, que é o andamento básico de quase todo roquenrol (além de representar milhares de outras coisas, como os 4 elementos da natureza, os 4 pontos cardeais, os 4 cavaleiros do apocalipse, os 4 tipos durkheimianos de suicídio etc.). Mas depois desta fenomenal coincidência, elegi definitivamente o 4 como meu número da sorte.
Se você também é fascinado por relações numéricas, a ponto de ficar efetuando operações aritméticas com os números da placa do carro da frente, vá ler O Homem que Calculava, de Malba Tahan. E se você curte um bom rock n’roll, vá ouvir não só o quarto álbum, mas TODA a discografia do Led Zeppelin!
terça-feira, novembro 13, 2007
A terceira idade de Paulinho

Filho de César Faria, violonista do conjunto Época de Ouro (que acompanhava Jacob do Bandolim) que faleceu há poucas semanas, Paulinho cresceu respirando música na sua casa em Botafogo, onde conheceu sambistas e chorões como o próprio Jacob, Pixinguinha, Canhoto da Paraíba e muitos outros músicos de primeira linha. Através do amigo Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho ouviu sambas de compositores como Zé Ketti, Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Cartola e Nelson Cavaquinho.
Foi também Hermínio quem o levou para conhecer o Zicartola, lendário restaurante do sambista Cartola e sua mulher, dona Zica, localizado na tradicional rua da Carioca, onde artistas, jornalistas, intelectuais e outras pessoas se reuniam para ouvir Cartola, Zé Ketti, Elton Medeiros entre outros. O Zicartola funcionou por apenas 20 meses (entre 1963 e 1965), tornando-se ponto de encontro de sambistas da zona norte e estudantes da zona sul. Foi lá onde Paulinho recebeu seu primeiro pagamento como músico (um “troco pra passagem” dado por Cartola) e onde ganhou, de Zé Ketti e Sérgio Porto, seu nome artístico (afinal, Paulo César não era nome de sambista, diziam. Leia mais sobre essas histórias aqui).Nesta mesma época iniciou-se a paixão do sambista pela Portela, escola onde desfilaria pela primeira vez em 1965. Já no carnaval seguinte, a escola se consagraria campeã com um samba de Paulinho, que recebeu dos jurados a nota máxima. No mesmo ano de 1966, Paulinho lançou o seu primeiro disco como artista solo, Na Madrugada (em parceria com Elton Medeiros), que contém a música “14 anos”, uma das letras que mais gosto:
Tinha eu 14 anos de idade / Quando meu pai me chamou / Perguntou se eu não queria / Estudar filosofia / Medicina ou engenharia / Tinha eu que ser doutor / Mas a minha aspiração / Era ter um violão / Para me tornar sambista / Ele então me aconselhou / Sambista não tem valor / Nesta terra de doutor (...)
Segundo consta na biografia do seu site oficial, o período mais fértil de Paulinho é aquele em que compreende os 11 discos que lançou pela gravadora Odeon. São, na minha opinião, os melhores discos do cantor, com destaque para vários títulos como Zumbido, Memórias Chorando e Memórias Cantando. Mas o melhor de todos, na minha modesta opinião, é A Dança da Solidão, de 1972, que contém as canções “Ironia”, “Pagode na casa do Vavá”, a homônima “Dança da Solidão” e a minha predileta: “Meu mundo é hoje”, a melhor letra escrita pelo hoje sexagenário Paulinho da Viola:Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.

Dicas pra quem curte Paulinho: todos os cds da fase Odeon, que foram relançados e são encontrados nas Americanas a 10 pratas cada, e os DVDs Meu tempo é hoje (um documentário sobre o cantor), Acústico MTV (que saiu agora em 2007) e Saravá, um filme de 1969 feito pelo francês Pierre Barouh que, além de imagens de Paulinho da Viola, tem também registros raros de Maria Bethânia, Baden Powell, João da Bahiana e Pixinguinha.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Teen Festival
Trazer desconhecidos não é problema, pois, como disse recentemente aqui, o carioca gosta mesmo é de um evento, de ver e ser visto, de dar uma azarada e mostrar as últimas tendências da moda “alternativa”. Do alto dos meus 29 anos, notei que pelo menos 80% do público presente era mais novo do que eu – estava, inclusive, acompanhado de algumas pessoas que nasceram no fim da década de 80, o que ainda soa como um absurdo para mim (e justifica o título carismático desta postagem).
Sim, meus caros, eu fui ao Tim Festival. Não para assistir a Bjork, cujas músicas, para não ser maldoso com os modernos, eu diria que não entendo. Queria era ver o show do Arctic Monkeys, a banda de rock queridinha da vez, o fenômeno inglês que vendeu, só no seu país de origem, 120 mil cópias do disco de estréia (e isso apenas no dia do lançamento, chegando a 340 mil ao final da primeira semana). Os garotos da banda, nascidos entre 1985 e 1986, fizeram um show honesto, nada mais que isso. Perfeito pra quem gosta das músicas e se contentou em simplesmente ouvi-las, uma atrás da outra, sem maiores firulas espetaculares – como foi o meu caso.
De maneira geral, a mídia elogiou o evento e, de fato, algumas fatores devem ser enaltecidos – como a decisão da organização de manter a lotação máxima bem abaixo da capacidade dos palcos, o que permitiu que se pudesse transitar sem maiores problemas mesmo nos shows com ingressos esgotados. Agora, não me sinto à vontade para elogiar um evento com as características que irei numerar em abaixo.
As pulseirinhas: embora entenda a necessidade das pulseirinhas coloridas para este evento (afinal, eram três palcos diferentes e uma área comum, e a pulseira permite o ir e vir do público), sempre associo o artefato a uma prática desprezível: a de hierarquizar a importância de grupos sociais através da categoria VIP (very important people). Recentemente, por exemplo, a CBF proibiu a venda de bebidas alcoólicas no jogo do Brasil contra o Equador, no Maraca, por tratar-se de “um jogo para a família brasileira”. Mas no camarote da mesma CBF, artistas globais, acompanhado dos filhos, mamaram gratuitamente litros de cerveja na área vip, e litros de uísque na área vipvip. Asqueroso, concordam? E não forma poucas as pessoas que vi no Tim com mais de uma pulseira no braço, mesmo depois de terminados os shows. Entendi que essa galera não tirava a pulseira por tratar-se de um símbolo de distinção, quiçá de prestígio social. Um nojo.
O preço: Um copo de plástico cheio de chope custava 4,50. Um cachorro quente do tamanho de um celular, 5 merréis. E a fila para adquirir um produto destes era quase sempre looooonga. Bebi cinco chopes, comi um cachorro, morri em quase 30 pratas e passei quase metade do show do Hot Chips, que abriu pro Monkeys, na fila. Sem contar que os ingressos para os shows mais esperados custavam 180 miguelitos cada. Quem foi ver Bjork e Arctic Monkeys no mesmo dia e não era estudante teve que morrer em 360 pratas (pelo menos, para alguns, valia pela onda de ostentar duas pulseirinhas no braço). É impressionante a clivagem socioeconômica que rola nesses eventos, que parecem exclusivamente voltados para a classe A e para malucos como eu dispostos a empatar toda essa grana em um único show de rock. Os ingressos para o show do The Police, que vem ao Rio no fim do ano, custarão entre 160 e 500 reais. E, acreditem, esses de 500 já esgotaram no primeiro dia de venda.
O amadorismo: embora incensado como o maior evento de música do Rio, a organização teve a brilhante idéia de botar o palco das atrações brasileiras em área aberta, não contando com a chuva torrencial que desabou no Rio desde a quarta passada. Resultado: Montage, Vanguart e Del Rey, bandas brazucas que eu queria assistir, tiveram os shows simplesmente cancelados. A organização disse que quem comprou os ingressos só pra ver as bandas de rock poderia entrar no dia seguinte de graça, quando tocariam DJs de música eletrônica! E quem é do rock como eu ficou como? Acertou: puto da vida.
segunda-feira, outubro 22, 2007
Às moças que fazem minha vida mais colorida
sexta-feira, setembro 28, 2007
Adorno e o plugging
Foi no território ianque que Adorno tomou conhecimento de uma cultura organizada em bases industriais – até então, ele ignorava “em que medida o planejamento racional e a padronização impregnavam os chamados meios de massa” (palavras do próprio). Visivelmente bolado com o caráter manipulatório e opressor do que chamou de indústria cultural - termo que se popularizaria amplamente nas décadas seguintes -, Adorno se tornou um de seus mais mordazes críticos. Seu primeiro artigo em terras americanas possui um título forte e auto-explicativo: Sobre o caráter de fetichismo e a regressão na audição.Ater-me-ei, todavia, a um mecanismo que o autor descreve em On Popular Music, escrito ainda no final dos anos 30. Trata-se do plugging, que seria, segundo Rodrigo Duarte, a “repetição ad nauseam pelos meios de comunicação (no caso, o rádio) de uma canção, até que o público goste dela, independentemente de ela ter qualidades musicais ou não”. Esse mecanismo seria fruto de uma acordo entre as principais agências interessadas na difusão e consumo de um produto musical, ou seja, gravadora, rádio, empresário etc.
A partir daí, inicia-se um processo que Adorno descreve tal qual um roteiro, seguido pelo ouvinte após algumas audições:
1. você ouve a música e lembra vagamente de já tê-la ouvido antes;
2. você identifica a canção (é o hit tal!)
3. você submete a canção a um rótulo (isso é rock, é samba, é axé, é pop)
4. você realiza uma espécie de auto-reflexão no ato de reconhecimento (“conheço isso: isso me pertence”)
5. você faz uma transferência psicológica de reconhecimento/autoridade ao objeto (“esse hit é legal”!)
Já me vi realizando inconsciente – e conscientemente também – este ritual. A questão da familiaridade está muito relacionada às formas modernas de apreço. Conhecer é possuir, possuir é gostar, e não necessariamente nessa ordem. Uma coisa é você se pegar assobiando aquela canção detestável do “Sandy Jr.”; outra é você realmente admitir que gosta dessa canção, e muitas vezes gosta simplesmente por causa da previsibilidade, porque sabe cantar, porque já conhece, porque sabe o que vai acontecer depois.
Se eu gosto de uma música, escuto-a mil vezes, diariamente, semanalmente, sem me cansar. Sou um obsessivo em matéria de música e, fazendo um breve retrospecto, já cheguei perto de furar discos de Michael Jackson, Guns N’Roses, Metallica, Megadeth, Pantera, Sepultura, Death, Carcass, My Dying Bride, Planet Hemp, O Rappa, Nação Zumbi, Mundo Livre e Los Hermanos. Atualmente, escuto o disco da Roberta Sá todos os dias. Será que o plugging se entranhou de maneira tão peremptória na nossa cultura que, pelo menos em matéria de música, estamos fadados a permanecer plugados?
quinta-feira, setembro 20, 2007
ERRATA
quinta-feira, agosto 30, 2007
Brasileirinho, o filme
Ontem fui ao Canecão ver o show de divulgação do filme Brasileirinho, dirigido pelo finlandês Mika Kaurismäki. O filme, que já passou em vários cantos da Europa, chegou ao Brasil na semana passada. Ainda não fui vê-lo no cinema mas, pelo que li, sei que vou gostar muito. Criticaram o fato de que o filme se foca mais nas interpretações de choros do que sobre a história desse gênero musical – o que não me parece negativo, visto que sou músico e conheço provavelmente 99% do time escalado para aparecer no filme.Antes de ser gênero, o choro era, ainda no século XIX, a forma estilizada, chorada, que músicos brasileiros tocavam ritmos europeus como a polka, a mazurca, a valsa, o scottish. No início século XX, quando as baianas da Praça 11 (ou Pequena África, como era conhecida aquela região do centro do Rio de Janeiro) abriam suas portas para os músicos tocarem, o choro ganhava lugar de destaque nas casas, sendo tocado na sala de visitas – enquanto o ainda rudimentar samba era tocado na cozinha e os batuques de religiões afro ficavam restritos ao fundo dos quintais.
Embora o samba tenha sido o estilo musical escolhido para forjar a identidade nacional nos tempos de seu Gegê, o choro também ganhou notoriedade graças às belas composições de gente como Jacob do Bandolim, Anacleto de Medeiros, Antonio Callado, Ernesto Nazareth e o mestre inconteste, Pixinguinha. Apesar de geralmente ter uma estrutura fixa, com três partes (A, B, A, C, A, nesta ordem), há muito espaço para improvisações no choro, e muitos músicos virtuoses deixam a gente de cara com suas habilidades – eu, que sou chegado num virtuosismo, cito Raphael Rabello e Yamandu Costa no violão, e Hamilton de Holanda e Joel Nascimento no bandolim, além dos mestres supracitados e de uma porrada de gente que nem querendo eu conseguiria enumerar aqui.Minha ligação com o choro já foi maior, na época em que eu participava da Escola Portátil de Música, um projeto porreta capitaneado por Mauricio Carrilho, Luciana Rabello e sua gangue. Entre 2004 e 2005, eu tinha que brigar com meus amigos pra ir embora mais cedo do furdunço de sexta à noite para que, no sábado, às 9 da matina, eu estivesse firme e forte tendo aulas de história do choro, harmonia musical e prática de instrumento. Violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, sopros, cada instrumento tinha uma sala e um professor específico (hoje tem até canto por lá). Quando dava meio dia, juntavam todos os cerca de 200 alunos (hoje são mais ainda) e tocávamos, todos juntos, os dois ou três choros ensaiadas no dia. Sinto grandes saudades daquela bagunça organizada: cinquenta violões, trinta pandeiros, vinte cavaquinhos, quinze flautas, dois contrabaixos acústicos, saxofones, trompetes, trombones e muita disposição.

Essas recordações me vêm à memória sempre que vejo shows como o de ontem, onde músicos da primeira divisão do choro brasileiro como Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo Souza (os caras do Trio Madeira Brasil), Yamandu Costa, os irmãos Beto e Henrique Cazes, Nelsinho do Pandeiro e Cesinha (pai e filho), Tereza Cristina, Pedro Miranda, Zé da Velha e Silvério Pontes têm a oportunidade de dividir o mesmo palco e a mesma satisfação de tocar para um público numeroso e compenetrado. Torço pra que chorinhos e chorões continuem tendo espaço para que possam, com seus talentos, perpetuar este estilo tipicamente brasileiro, nascido e criado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
sexta-feira, julho 06, 2007
O primeiro disco de rock
Tinha eu oito anos em 1986. Meu pai já havia se separado da minha mãe, e morava sozinho na zona sul do Rio. Tinha um Puma conversível igual ao da foto ao lado, um carro que, nos anos 80, em termos de playboyzice, só perdia pro Miúra vermelho com néon no pára-choque. E sexta sim, sexta não, ele me pegava na casa da minha mãe pra passarmos o fim de semana juntos. Geralmente, íamos direto jantar numa churrascaria ou então passávamos no Caneco 70, onde ele bebia chope com os amigos enquanto eu comia batatas fritas com Coca-Cola, pra depois irmos pro tal apê de solteiro dele.O cara morava num dois quartos em Botafogo. Num quarto, dormia ele. No outro, dormia sua guitarra (que me foi dada de presente mais tarde e que tenho até hoje), seu amplificador, uma pequena estante com livros de aviação e uma bateria, que me proporcionou muitos momentos de empolgação – não compartilhados pelos vizinhos dele.
Vai daí que, numa dessas noites, depois de voltarmos do Caneco, chegamos em casa e ele me conta que havia comprado um disco. E diz que eu poderia ouvir, só que baixinho, pois já passava de meia noite e era um disco de rock. Ele foi então dormir e eu fiquei lá, estirado no carpete, bem perto da vitrola e com os ouvidos grudados naquelas grandes caixas de som. E, depois da marcação forte dos ton-tons e surdos da bateria e dos primeiros acordes diminutos das guitarras distorcidas, vem aquela voz mórbida, como num mantra satanista, cantando:
Cabeça dinossauro, cabeça dinossauro, cabeça, cabeça, cabeça dinossauro!
O que era aquilo? Que tipo de som minimalista era aquele que tanto me intrigava?
Pança de matute, pança de matute, pança, pança, pança de matute!
É sempre bom lembrar que a capa de um disco de vinil é algo muito mais impactante do que a de um CD. E eu olhava praquela enorme cabeça dinossauro (na verdade um esboço de Da Vinci intitulado A expressão de um homem urrando), imaginava a “pança de mamute” e o “espírito de porco” da criatura, e aquilo já era o prenúncio que anunciava qual seria o tom e o clima da bolacha que eu ouvia com extrema curiosidade.
O disco Cabeça Dinossauro é o terceiro dos Titãs. Antes disso, os caras ainda faziam uma linha meio new wave, em músicas como Sonífera Ilha e Televisão. Com o Cabeça, enveredaram pelo lado mais cru do rock n’roll, influenciado pelo punk de poucos acordes e muita intensidade nas letras. E, de fato, as músicas do disco, cujos títulos são quase todos de uma ou duas palavras, disparam versos contra as instituições e o sistema capitalista de forma geral, o que se percebe em Igreja, Polícia, Família, Estado Violência, Tô Cansado, Dívidas, AA UU, A Face do Destruidor e Homem Primata.
Uma das músicas que mais assustou aquele garoto de oito anos de família católica, que foi batizado mas que não faria catecismo ou primeira comunhão, foi Igreja. Como é que os caras tinham coragem de dizer versos hereges como aqueles?
Eu não gosto de padre Eu não gosto de madre Eu não gosto de frei. Eu não gosto de bispo Eu não gosto de Cristo Eu não digo amém. Eu não monto presépio Eu não gosto do vigário Nem da missa das seis, não!
Eu não gosto do terço Eu não gosto do berço De Jesus de Belém. Eu não gosto do papa Eu não creio na graça Do milagre de Deus. Eu não gosto da igreja Eu não entro na igreja Não tenho religião.
Mas a música que acabou mais se popularizando, até por conta da proibição de radiodifusão, foi Bichos Escrotos, uma ode às baratas, ratos e pulgas, na qual os caras mandavam oncinha pintada, zebrinha listrada e coelhinho peludo irem se foder.
Finalizando, não poderia esquecer de O Quê, música que defino como a grande viagem de heroína de Arnaldo Antunes. Até hoje, a heroína é dificílima de se encontrar abaixo da linha do Equador mas, em 1985, Arnaldo e o guitarra Tony Belloto já haviam sido presos por porte da droga. E, no ano seguinte, os Titãs fechariam sua grande obra-prima com a seguinte letra:
O que não é o que não pode ser que
Não é o que não pode ser que não é
O que não pode ser que não é o que não
Pode ser que não é!
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é!
E o primeiro disco (de rock ou não) que te marcou, lembra qual foi?
quarta-feira, maio 23, 2007
Como nossos pais
Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar
Preste atenção queridaEmbora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Talvez este seja, na minha opinião, o mais sentimental relato de pai para filho que já tive notícia na música brasileira. Mas esse tipo de narrativa é recorrente enter nossos compositores, muitas vezes utilizado como recurso pelo autor para contar uma história a partir de um ponto de vista diferente do seu. Chico Buarque, por exemplo, incorpora o papel de uma mãe humilde e ingênua que ignora as práticas ilícitas de seu filho, na canção Meu Guri:
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aíOlha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço?
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Da música brasileira atual resgatei dois exemplos, tirados das canções dos dois compositores da banda Los Hermanos. Em Um Par, música de Rodrigo Amarante, acompanhamos a história de uma mãe com dificuldades de aceitar a independência do filho, como podemos ver no trecho abaixo:
Dê motivo pra outra vez acreditar na cascata da vez
um presente pra mim
mas se eu perguntar
de onde veio esse agrado
você vai gritar!

Diz que é homem feito, sei não!
ah faça-me o favor!
Diga ao menos o que foi que eu faltei em lhe explicar
Diz que a gente sempre foi um par...
Sai domingo diz que é o dia de jogar
mas que jogo eu não sei
Fica até segunda o dia clarear e troféu não se vê!
Entra sem falar, sai correndo e volta outra vez
sem cumprimentar!Nem parece aquele!
Eu rezo, ai deus do céuou alguém no chão
diga-me o que foique eu deixei faltar!
O que eu não consigo é entender
como é que um filho meu é tao diferente assim de mim!
Finalmente, na canção Adeus Você, de Marcelo Camelo, o autor traz a história de uma mulher que resolve se casar de novo e mudar de cidade (se a história que me contaram for verdadeira, essa mãe seria a mãe de sua esposa e, portanto, sua sogra). A letra é um desabafo desta mulher para sua filha, já adulta, que tem dificuldade em aceitar a decisão de sua mãe:
Adeus você
Eu tô levando tudo de mim
Que é pra não ter razão pra chorar
Vê se te alimenta e não pensa que eu fui
por não te amar
Cuida do teu

Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta e não pensa que eu fui
por não te amar
Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante
Adeus você
Não venha mais me negacear
Teu choro não me faz desistir
Teu riso não me faz reclinar
Acalma essa tormenta e se agüenta
que eu vou pro meu lugar
É bom às vezes se perder
Sem ter porque sem ter razão
É um dom saber envaidecer por si
Saber mudar de tom
Quero não saber de cor, também
segunda-feira, maio 21, 2007
Sobre a bossa nova
Mas minha intenção era falar da bossa nova, estilo musical surgido no berço da classe média carioca dos anos 1950 a partir de uma apropriação do samba por estes segmentos, e com alguma pitada do jazz norte-americano – ou, como querem os que compram o discurso elitista, uma “sofisticação” do samba (este sim música popular, pois que produzido pelas chamadas “classes populares”).
O nascimento da bossa nova está registrado nos sulcos do vinil Chega de Saudade (1959), de João Gilberto, mais precisamente no jeito de tocar violão que este músico desenvolveu: enquanto o dedão faz, nos bordões do violão, a marcação mais forte do segundo tempo do compasso – característica magna do samba –, os outros dedos puxam as cordas agudas em ritmo sincopado. Ou seja: as notas graves reproduzem o tempo do surdo, enquanto as agudas fazem as vezes de tamborins. Esta adaptação do ritmo percussivo do samba para as harmonizações violonísticas foi essencial para a consolidação da bossa nova como estilo ímpar de execução musical, influenciando praticamente todos os gigantes do violão que surgiram posteriormente, como Baden Powell e seu também ímpar estilo (aproveito para recomendar, veementemente, especial atenção ao violão dos afro-sambas de Baden e Viníncius de Moraes).
Mas há um elemento extra, bastante arraigado no estilo bossanovístico de se tocar e também importantíssimo para marcar a identidade sonora do estilo: trata-se de cantar e tocar o violão bem baixinho, quase sussurrando. O motivo disso é explicado por Carlos Lyra ou Roberto Menescal (não lembro qual dos dois) no filme Coisa Mais Linda: é que naquele tempo a explosão da especulação imobiliária deu início a uma onda de construções de edifícios (que perdura até hoje) com apartamentos menores e com menos isolamento acústico. A solução, para evitar as reclamações de vizinhos e chamadas policiais, era tocar e cantar cada vez mais baixo, o que logo se transformou em característica marcante.Ou seja: nada mais avesso à bossa nova do que o furdunço provocado pelas rodas de samba nos botequins e lares da zona norte e dos subúrbios da cidade – as mesmas rodas de samba que outrora serviram de argamassa para a construção do estilo musical que, ironicamente, ficaria conhecido como Música Popular Brasileira.
terça-feira, março 27, 2007
quarta-feira, março 21, 2007
Rage e Ginsberg contra a Máquina

Uma música, entretanto, chamou-me a atenção por não ter tido a letra escrita por Zack. Isto porque a tal canção, de título Hadda Been Playing On The Jukebox, é na verdade a declamação de um poema homônimo do beatnick Allen Ginsberg, escrito em 1975.Em Hadda Been Playing On The Jukebox, Ginsberg narra diversos eventos ocorridos nos anos 60 e 70 – incluindo o assassinato de Kennedy –, fala de americanos poderosos como Rockefeller, Nixon, J. Edgar Hoover e Frank Costello, afirma que a KGB e o FBI pensam da mesma maneira e brada: “It had to be the CIA and the Mafia and the FBI”; “One big set of gangs working together in cahoots”.
Abaixo reproduzo o poema, conforme cantado por Zack no disco Live and Rare, lançado pela Sony Japan em 1998.
It had to be flashin' like the daily double
It had to be playin' on TV
It had to be loud mouthed on the comedy hour
It had to be announced over loud speakers
The CIA and the Mafia are in cahoots
It had to be said in old ladies' language
It had to be said in American headlines
Kennedy stretched and smiled
Rich bankers with criminal connections
Dope pushers in CIA working with dope pushers from Cuba
working with abig time syndicate from Tampa, Florida
And it had to be said with a big mouth
It had to be moaned over factory foghorns
It had to be chattered on car radio news broadcasts
It had to be screamed in the kitchen
It had to be yelled in the basement where uncles were fighting
It had to be howled on the streets
It had to be foghorned into New York harbor
It had to echo onto hard hats
It had to turn up the volume in university ballrooms
It had to be written in library books,
footnotedIt had to be in the headlines
It had to be barked on TV
It had to be heard in alleys through ballroom doors
It had to be played on wire services
It had to be bells ringing
Comedians stopped dead in the middle of a joke in Las Vegas
It had to be FBI chief J. Edgar Hoover and Frank Costello
syndicate mouthpiece meeting in Central Park,
New York weekends, reported Time magazine
It had to be the Mafia and the CIA together
Who sold all their heroin in America
It had to be the FBI and organized crime
It had to be ringing on multinational cash registers
It had to be the CIA and the Mafia and the FBI together
It had to be a large room full of murder
It had to be a kid that can breathe
Industrial cancer
They wanted junkies
It had to be the CIA and the Mafia and the FBI
Multinational capitalists
And gang wars across oceans
Brute force and full of money
It had to be rich and it had to be powerful
And they had to murder in America.

segunda-feira, março 12, 2007
As bochechas de Dizzy
quinta-feira, março 08, 2007
Chiquinha é que era mulher de verdade

Afinal, como eu poderia levar à frente tal proposta sem falar de cantoras como Eliseth Cardoso, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Elis Regina e tantas outras? Seria possível deixar de fora da lista a pintora Tarsila do Amaral, autora do belo Abaporu, ou escritoras como Pagu – também de inspiração antropófaga – e Clarice Lispector? E como não mencionar Leila Diniz, atriz que protagonizou a primeira gravidez de biquíni que se tem notícia por aqui, autora de frases como "trepo de manhã, de tarde e de noite"?

Isto porque Chiquinha, do alto de seus arroubos de um feminismo totalmente justificável, peitava a sociedade conservadora da capital federal da segunda metade do século XVIII. Numa época em que o violão era associado à marginalidade, como já mencionei aqui, Chiquinha utilizava esse mesmo instrumento sem pudores, como que estendendo a língua para os guardiões do conservadorismo. E acabou trazendo para seu lado Nair de Teffé, esposa do então presidente marechal Hermes da Fonseca, em episódio que merece ser narrado.
Em 1914, durante o evento de despedida do governo do marechal, realizado no Palácio do Catete (sede do governo federal), a “moderninha” primeira-dama saca um violão e dedilha, sem pudores, o tango popular O Corta-Jaca - autoria de Chiquinha - na presença da alta sociedade do Rio, além de boa parte do corpo diplomático. Reparem como este feito agradou o senador e “encilheiro” Rui Barbosa, segundo suas próprias palavras no Senado:
“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das boas maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de Wagner, e não se quer que a consciência desse país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”
Influência de nossa Chiquinha, seu Rui! Esta musicista brasileira, a primeira de destaque nacional e internacional, foi, de fato, uma guerreira, como atestam a sua participação em comícios contra a escravatura e seu engajamento na causa republicana – que podem ser lidos, em detalhes, aqui.

E, finalmente, encerro essa ode com uma bela frase da pianista: numa época em que o conservadorismo da sociedade carioca não admitia acintes como separações e divórcios, ao ouvir do (primeiro) marido a exigência de que escolhesse entre ele e a música, Chiquinha manda-lhe na lata a seguinte pérola:
“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia”.





