para Ledas
Leia antes de apertar o play: além de guitarrista e violonista, sou também fanático por arranjos musicais. Assim, estréio esta série onde farei alguns comentários sobre os arranjos de músicas que aprecio. Quem também é músico vai aproveitar bastante, porém buscarei usar uma linguagem que não deixe de fora quem gosta de som mas não toca nada. O upload de músicas ainda é novidade pra mim, então é legal saber de vocês se o troço está funcionando como deveria.
Sultans of Swing é, incontestavelmente, uma das músicas que mais me aprazem ouvir. Sou suspeito por ser guitarrista, mas mesmo quem não é fica impressionado com a sonoridade das frases que Mark Knopfler tira da sua guitarra, um timbre muito característico também pelo fato dele dispensar a palheta e tocar com os dedos.
Sultans está no primeiro disco do grupo, homônimo, de 1978 (ano em que nasci), e na coletânia Money For Nothing. A letra é muito boa, descreve o clima de um barzinho onde grupos de músicos tocam jazz (mais especificamente, “dixieland” e “creole”).
Logo no início, ouviremos a primeira frase da guitarra de Knopfler, e depois entra a voz do próprio – não é um grande cantor mas, pro que se propõe, resolve. Além do quê, sua guitarra de sonoridade ímpar irá costurar toda a letra com um sem-número de frases melódicas improvisadas.
A música está em acorde menor, e a mão direita do batera Pick Whiters (tive que pesquisar esse nome, confesso) está nos pratos de contratempo. Aperte o play e vamos ao arranjo:
* * *
You get a shiver in the dark
It's raining in the park but meantime
South of the river you stop and you hold everything
(agora a música vai prum acorde maior e o batera vai pro prato de condução, o que dá um brilho especial ao trecho)
A band is blowing Dixie double four time (pan, pan, pa-paran-pan)
You feel alright when you hear that music ring
(volta pro acorde menor e o batera volta pro contratempo)
You step inside but you don't see too many faces
Coming in out of the rain to hear the jazz go down
(mesmo esquema: acorde maior, baterista na condução. isso acontecerá sempre durante a música)
Too much competition too many other places
But not too many horns can make that sound
Way on downsouth way on downsouth London town
(refrão instrumental, delicioso)
You check out Guitar George he knows all the chords
Mind he's strictly rhythm he doesn't want to make it cry or sing
And an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing
And Harry doesn't mind if he doesn't make the scene
(aqui um acorde bem roquenrol)
He's got a daytime job he's doing alright
He can play honky tonk just like anything
Saving it up for Friday night
With the Sultans with the Sultan of Swing
(refrão de novo, muito bom)
And a crowd of young boys they're fooling around in the corner
Drunk and dressed in their best brown baggies and their platform soles
They don't give a damn about any trumpet playing band
It ain't what they call rock and roll
And the Sultans played Creole (creole)
(agora, depois do refrão, vem o primeiro solo, que é o primeiro orgasmo dos guitarristas e apreciadores. Se fosse pra usar uma metáfora visual, diria que o som é cristalino; se escolhesse uma metáfora tátil, diria que é aveludado. Mas na linguagem corriqueira do dia-a-dia, me limito a dizer que é foda).
And then the man he steps right up to the microphone
And says at last just as the time bell rings
(vejam a habilidade do batera neste detalhe!)
'Thank you good night now it's time to go home'
And he make it fast with one more thing
'We are the Sultans, we are the Sultans of Swing'
E, finalmente, o último solo, o gozo final. É aí que Knopfler mostra sua técnica de tocar guitarra com os dedos, alternando entre indicador e polegar para produzir frases rápidas e, ao mesmo tempo, muito definidas. O êxtase da canção é no finalzinho do solo, quando ele toca a frase mais característica da música, aquela que todo guitarrista quer aprender – e que só fica perfeita daquele jeito se tocada com os dedos. O batera também aproveita e vai pro prato de condução, pra dar aquele brilho especial. Regozijo total. Depois, fade-out, fim da música, hora de acender aquele cigarrinho...