quarta-feira, junho 20, 2007

Sobre Visconde de Mauá

Araucária, árvore típica da região de Mauá




Pra quem curte o frio das montanhas e troca, num piscar de olhos, a água salgada do mar e a areia da praia por um belo rio com vegetação densa às margens, junho é o mês ideal pra subir alguma serra. E é na serra das Agulhas Negras, bem na divisa entre Rio e Minas, que está localizado o distrito de Visconde de Mauá, lugar para onde viajo todos os anos desde 1996 e onde estive (talvez pela vigésima vez) nesse último fim de semana, acompanhado de minha bonita e sua infalível Pantera, uma parati 1997 que não medra diante de qualquer desafio que seja.


Há que se fazer uma correção aqui: não é para Mauá, na verdade, que costumo ir, mas sim para Maromba e Maringá que, diferentemente de Visconde de Mauá, distrito de Resende, pertencem ao município de Itatiaia. Maromba já foi o principal reduto de artesãos, hippies e demais bichos-grilos que, em meio à fumaça de fogueiras e ervas relaxantes, dedilhavam nos seus violões harmonias de Raulzito, The Doors e demais expoentes do roquenrol maluco beleza. Entretanto, a invasão de boyszinhos com seus carros dotados de alto-falantes estratosféricos – que via de regra são diametralmente opostos à qualidade do gosto musical de seus donos – expulsou os convivas do local, transformando o pequeno centro de Maromba numa verdadeira cidade-fantasma, como vocês podem conferir na foto abaixo, tirada, acreditem, às dez da noite de sexta-feira.






Sem o que fazer em Maromba, a opção é ir para Maringá, que fica dividida entre Rio de Janeiro e Minas, dependendo em qual margem do rio Preto (que divide os dois estados) você está. E foi justamente no lado mineiro que encontrei uma cachaçaria chamada Uai, Tchê!, que pertence, como o nome indica, a uma gaúcha e a um mineiro, o Rodrigo, dono também de vasto conhecimento sobre a branquinha e sobre a história da região. Foi ele quem apresentou-nos a cachaça de Anísio Santiago, um verdadeiro divisor de águas na história da bebida, que transformou a região de Salinas em uma referência mundial de produção de cachaça artesanal de qualidade. Não é à toa que uma única garrafa da Anísio Santiago-Havana, produzida e embalada desde 1943 em casco escuro como cerveja e com um rótulo bem simples, é vendida por Rodrigo a 280 reais (fotos abaixo).











Definitivamente – e isso é um sinal de que chego perto dos trinta – esta viagem foi bem diferente das outras, menos focada no “agito jovem” e mais voltada para jantares acompanhados de bons vinhos. E quando eu disse pro Severino, dono da pizzaria Girassol, “Ah, você não aceita cartão? É que eu tô sem dinheiro...”, sabe qual foi a resposta? “Faz mal não, anota aí o número da minha conta e quando chegar no Rio você deposita!”. É mole?









Valores como confiança e solidariedade, latentes em algumas cidades pequenas e praticamente ausentes das ditas “áreas nobres” das grandes metrópoles, também se fazem presentes na história de Rosinha, uma mulinha de 22 anos que vive solta na vila de Maringá, transitando livremente em meio a bares, restaurantes e lojinhas. Quando perguntei a Rodrigo, da cachaçaria, quem era o dono da simpática mula, ouvi de resposta: “Ah, ela é do povo. Cada um cuida um pouco”.










Pra encerrar, e correndo o risco de tornar esta postagem ainda mais similar a uma matéria de revista de viagens, algumas fotos dos maiores patrimônios da região: o poção e as cachoeiras.






















p.s. – no início do texto, eu disse que a Pantera era infalível. Mas falhou na volta. Coisas da idade. Nada, entretanto, que fosse grande problema para minha bonita, ás da mecânica que, tal qual o lendário McGyver, sacou o canivete que carrega no porta-luvas (vejam como é prevenida) e pôs-se a resolver nosso problema, para enfim podermos voltar com segurança à esta cidade maravilhosa e por São Sebastião abençoada.



19 comentários:

Diogo Lyra disse...

Faz tempo que não piso em Mauá, mas de alguma forma a mulinha e a ausência de playboys me despertou a vontade de voltar lá...

*quanto ao problema do carro, não é fascinante o que a igualdade sexual nos proporciona?!

4rthur disse...

Pois é, grande Digas, não é segredo pra ninguém que minha bonita assume, sem qualquer pudor, as tarefas que outrora eram monopolizadas pelos ditos machos viris. Quem duvida pode checar como ela ministrou churrasco para cerca de dez pessoas, aqui:

http://absurdosturos.blogspot.com/2007/04/churrasco-na-floresta-da-tijuca.html

E viva a igualdade de gêneros!

gigi disse...

Cara, não acredito que Moema tirou o kit maridão de dentro do carro. Só faltou o vestir um bigode postiço.

Adorei Rosinha.

Cascarravias disse...

tchurows, vale destacar que esse é o preço da garrafa de Havana lá nas gerais. aqui no rio já vi venderem por mais de 500, e na europa vale mais de mil.

uma opção de valor um pouco mais baixo é a Havaninha, feita no engenho do filho do cara, que é do lado, portanto a mesma terra, mesmo clima, e dizem que a mesma técnica de produção; mas é caro, ela não passa pelo processo de envelhecimento que possibilita `original cobrar esse valor. da última vez que vi (em Minas) o preço de uma dessas era 50 merréis

4rthur disse...

Pois é, Casca, pra essa faltou tanto peito quanto bala na agulha. Mas comprei, a módicos 8 reais, uma garrafa de 300 ml da branquinha artesanal da própria cachaçaria que fui, tirada do barril e embalada a vácuo na hora(com a ajuda de um secador de cabelos!). Provei a bichinha na hora e te digo que é psenspsacional! Levo aí depois pra gente tomar uns goles.

Cascarravias disse...

beleza! aquela outra que aparece na foto, `salinas`, tb éexcelente. aliás, qualquer cachaça que venha dali daquela área do norte de minas (salinas, januária, turmalina...)é dubão: lua cheia, salineira, boazinha, celeste, tudo coisa muito fina.

Cascarravias disse...

e por esses mesmos oito conto (ou pouco mais que isso) dá pra comprar essas iguarias do norte mineiro, com pequenas variações. a propósito, essa que tu comprou é da branca ou da amarela?

Vivi disse...

Montanha, araucárias, mulinha do povo, cachoeiras, a "marvada pinga", tudo isso na companhia de uma namorada que até conserta carros: você é um cara de sorte, hein!

Ana Priscila Freire disse...

querido, passei rapidinho só pra ver se vocÊ recebeu o e-mail sobre a festa dos leoninos. to meio na labuta aqui no pc... vc tem gtalk? se tiver, me add aê: labelledejour@gmail.com

msn: anapriscilaf@hotmail.com

gostei da proposta do seu blog, depois volto com calma. beijos

4rthur disse...

Casca, é da branca, embora seja também daquelas armazenadas em barril de carvalho. Mas o troço é muito sauve, mesmo com teor de 42%!

Bina Goldrajch disse...

Bonito blog!

Nana disse...

Oi 4rthur,
Vim retribuir a visita e adorei o post. Aos poucos irei lendo os arquivos.
A propósito: preciso tomar umas aulas de mecânica com a sua bonita. Que mulher prendada, sô!
Beijo

blah disse...

Adorei a mula Rosinha.

E parabéns por ter uma bonita tão prendada...

Anônimo disse...

és realmente um cara de sorte! pagamento via depósito de um cara de longe?? essa cachacinha tem feito bem a esse povo!
cheiro...

Madame S. disse...

ahhhhhhhh
mas eu adoro essa terra!

uma grande amiga tem um lindo sítio em Rio Preto, onde sempre ia quando era criança

queria poder voltar mais, ainda mais agora dps desse post...

hehehehehe
pode deixar que no cativeiro tem internet sim

parabéns a Bonita, cheia de atitude :D

VanOr disse...

Também tô precisada de uma bonita (ou bonito) que ou faça o diabo com um canivete, ou limonada com limão, a adversidade que pintar primeiro. Tenho um fraco por pessoas bonitas fuderosas, que ficam fazendo e acontecendo enquanto eu fico babando.

Amo Mauá, beijo a Rosinha de língua (ela não gosta, tem nojo), e foi descrevendo um feriado mutcho lôco que passei por lá no ano passado que fui extraída do anonimato pro mundo inteiro, graças a uma citação do meu post-viagem na coluna da Cora. Da próxima vez que subir, me avisa: de repente a gente combina uma carreata de panteras e outros felinos mancos, falidos e de carburador furado.

4rthur disse...

Vanessinha, eu lembro desse post na coluna da Cora: é aquele que você dizia que, lá em Mauá, o ritmo da galera é zen, e que você voltou trazendo um pouco desse clima dentro de si.

Eu também sempre volto mais zen de lá, mas basta um dia de trabalho na cidade maravilha mutante, na cidade desespero, no Rio Babilônia, pra eu voltar ao clima de estresse-paranóia-esquizofrenia rotineiro.

Cascarravias disse...

minha teoria é que só tem essa visão idílica do brasil interior quem nasceu e viveu na metrópole. quem vem do brasil profundo não tem tanta paciência assim...

Anônimo disse...

Poxa cara, que saudades de Visconde de Mauá, eu costumava muito ir visitar esta belíssima cidade/distrito.

Parabéns pelo blog, as imagens e o texto estão muito bons, o texto foi muito bem redigido.