terça-feira, julho 31, 2007

No menu musical de hoje...




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...The Strokes, com Reptilia

Leia antes de apertar o play: Nunca gostei daquilo que, no rock, chamam de “indie”. Mas gosto da banda The Strokes, e tem gente que fala que o som deles é indie. Problema deles. Pra mim, o som do grupo do filho de John Casablancas, dono da Elite Models, que conta com o brasileiro Fabrício nas baquetas, é um rock seco e cru, que não considero tão distante de outras bandas que são rotuladas como grunge ou punk ou outra sub-divisão qualquer, entre as tantas que existem no bom e velho roquenrol.


Reptilia é minha música favorita do Strokes. É a segunda faixa do segundo disco deles, Room of Fire. E o que mais gosto nela é exatamente o arranjo: como trata-se de um rock bem cru, feito com duas guitarras, baixo, batera e voz, a solução encontrada pelos caras para sofisticar o arranjo é alternar a presença dos instrumentos que são tocados. O resultado são trechos com guitarra sem baixo e bateria, trecho com baixo e bateria sem guitarras, trechos com voz, guitarra e bateria sem baixo, enfim, toda sorte de combinações possíveis, como iremos conferir agora. Aperte o play e vamos nessa!

* * *


(a música começa com bateria e baixo, aquele baixo bem simples, uma só nota martelada com palheta mesmo. Depois, entram as duas guitarras distorcidas, uma fazendo os acordes da base, junto com o baixo, e a outra uma frase melódica dessas que grudam em nossos ouvidos. Quando o vocal entra, saem o baixo e a guitarra base e ficam a bateria e o tal riff melódico)


He seemed impressed by the way you came in
"Tell us a story
I know you're not boring"


(volta o baixo, cimentando o chão da base)


I was afraid that you would not insist.
"You sound so sleepy
just take this, now leave me"


(e agora volta a guitarra base, rasgando tudo. O vocal distorcido ajuda a aumentar a sujeira)

I said please don't slow me down
If I'm going too fast
You're in a strange part of our town...


(melhor pedaço da música: todos param de tocar e ouve-se só uma guitarra, fazendo uma bela frase com acordes arrastados pra cima e pra baixo. Aí, entra um desenho melódico no baixo, acompanhando o riff da guitarra, e o bumbo fazendo a marcação e preparando a volta dos outros instrumentos)


Yeah, the night's not over
You're not trying hard enough,
Our lives are changing lanes
You ran me off the road,
The wait is over
I'm now taking over,
You're no longer laughing
I'm not drowning fast enough.


(solo de guitarra, daqueles bem rock n’roll tosco, com escalinhas repetidas mil vezes. Findo o solo, saem agora as duas guitarras, ficando somente a cozinha – baixo e batera)


Now every time that I look at myself
"I thought I told you
this world is not for you"


(e, novamente, a banda toda quebrando tudo)


The room is on fire as she's fixing her hair
"you sound so angry
just calm down, you found me"


I said please don't slow me down
If I'm going too fast
You're in a strange part of our town...


(fala sério, não é o melhor trecho da música? Depois de conhecer, a gente passa a ouvir a música só esperando por esse momento)


Yeah, the night's not over
You're not trying hard enough,
Our lives are changing lanes
You ran me off the road,
The wait is over
I'm now taking over,
You're no longer laughing
I'm not drowning fast enough.



Gostou do som? Então aproveita e veja aqui o clipe da música, que é todo feito de closes nos instrumentos dos caras, ou seja, praticamente a descrição que eu fiz, só que com imagens ao invés de palavras.

segunda-feira, julho 30, 2007

Um brinde democrático



Domingo frio e inóspito pros cariocas, perfeito prum estrogonofe "indoor".


E pra você que está vendo esse brinde democrático, proponho um jogo:


quem bebe o quê na foto?



(1) dida..............................................( ) uísque
(2) zucca............................................( ) cerva
(3) davos............................................( ) caipirinha
(4) bonita...........................................( ) vinho
(5) ledas.............................................( ) vinho
(6) eu..................................................( ) vinho



Resposta certa amanhã, nas intervenções.

quinta-feira, julho 26, 2007

Notas sobre o PAN

Minha bonita tem ido a alguns jogos do PAN e me informou que os estádios estão ficando vazios, mesmo nos casos em que os ingressos para venda já estão esgotados. O Comitê responsável, CO-Rio, explicou n’O Globo de hoje que, do total de 1,7 milhão de ingressos disponíveis, cerca de 300 mil foram doados para União, Governo do Estado e Prefeitura. Acho que, mesmo através do monitor, vocês conseguiram sentir o cheiro de merda que paira no ar.


Problemas na numeração dos ingressos já motivaram uma ação na justiça contra o Comitê, e a Promotoria de Defesa do Consumidor já pensa em entrar com outra ação pra investigar o que para eles pode ser um indício, mas para mim é uma certeza: existem mais falcatruas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.


Pelo menos, fico feliz em saber que ganhamos a medalha de ouro no futebol feminino, metendo 5 gols nas ianques. Certa vez, aqui mesmo no blog, um amigo estadunidense disse que o futebol era um esporte de meninas. E, de alguma forma, parece que ele tinha razão: o futebol também é um esporte de meninas, mas de meninas brazucas.


Com essa vitória, passamos Cuba e estamos em segundo lugar no ranking de medalhas do PAN. Mas sei que voltaremos ao posto de terceiro lugar. Temos vocação pra terceiro. É só ver que nenhum país, nem mesmo os EUA, tem mais medalhas de bronze que o nosso. Em matéria de ser terceiro, somos os primeiros.


E pensem bem: pelo menos nos esportes de equipes, ser terceiro é muito melhor do que ser segundo. Ser terceiro significa que você perdeu a penúltima partida, não foi pra final, mas não se deixou abalar e venceu o último jogo, garantindo o bronze. Ser prata em esportes de equipe significa que você fez uma brilhante campanha e perdeu o último jogo, ou seja, como se diz no futebol, nadou, nadou e morreu na praia. Nada mais frustrante.


Foi exatamente o que aconteceu com as meninas de prata do vôlei e com as meninas de prata do basquete. Esses resultados levaram um conhecido meu, natural da Turquia, a afirmar que “a mulher brasileira sempre entrega o ouro no final”. Mas Marta e suas colegas de seleção podem, agora, dizer que este jovem imigrante de bigode estava errado.

terça-feira, julho 24, 2007

Fugere Urbem

Foi no próprio dia do amigo que viajei com três deles (Lelo, Digas e Ligita, além da minha bonita e sua indefectível Pantera) pro Sana, que é distrito de Macaé mas se chega mesmo por Casimiro de Abreu. Terra do reggae, dos hippies e dos bolinhos de aipim, o Sana é o local perfeito pra quem quer fugir da grande cidade e experimentar um convívio mais próximo com a natureza, como vocês poderão acompanhar nas fotos abaixo:








Pela manhã, um café com frutas colhidas no próprio pé
(na foto, um exemplar da espécie homo sapiens sapiens garantindo seu desjejum).







Depois, um refrescante banho de cachoeira.






À tarde, um passeio de charrete, na companhia de insetos exóticos.








À noite, um jantar saudável à base de alimentos orgânicos,
preparados num rústico fogão à lenha.









E pra acompanhar, um bom vinho.









O Sana é isso. Amigos, natureza, paz e muita saúde!




sexta-feira, julho 20, 2007

No dia do amigo, uma bela notícia




Hoje é dia do amigo e, por este motivo, pensei em usar este espaço pra prestar uma homenagem aos malandros que dividem comigo a foto acima. Evidentemente, há outros camaradas que também merecem atitudes deste tipo (entre eles Andrada, Iuri, Pakkatto, Tchello, Johnny e, obviamente, meu gande parceiro Davos). Porém, Lelo, Ledas e Digas são amizades que remontam à pré-história, pessoas com quem tenho contato quase diário e um convívio mais que fraterno. Um exemplo: embora esta foto já tenha uns meses, estive ainda ontem na companhia deste mesmo trio.


Então, como eu dizia, pensei em saudar os amigos mas percebi que, devido a um fato importantíssimo ocorrido hoje, vi que teria que dividir esta homenagem com outra, esta dedicada a todo o povo brasileiro:






Parabéns, Brasil, por ter se livrado de um dos seus maiores pilantras!





Adeus, ACM!!!

quinta-feira, julho 19, 2007

No menu musical de hoje...




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...Dire Straits, com Sultans of Swing

para Ledas


Leia antes de apertar o play: além de guitarrista e violonista, sou também fanático por arranjos musicais. Assim, estréio esta série onde farei alguns comentários sobre os arranjos de músicas que aprecio. Quem também é músico vai aproveitar bastante, porém buscarei usar uma linguagem que não deixe de fora quem gosta de som mas não toca nada. O upload de músicas ainda é novidade pra mim, então é legal saber de vocês se o troço está funcionando como deveria.




Sultans of Swing é, incontestavelmente, uma das músicas que mais me aprazem ouvir. Sou suspeito por ser guitarrista, mas mesmo quem não é fica impressionado com a sonoridade das frases que Mark Knopfler tira da sua guitarra, um timbre muito característico também pelo fato dele dispensar a palheta e tocar com os dedos.

Sultans está no primeiro disco do grupo, homônimo, de 1978 (ano em que nasci), e na coletânia Money For Nothing. A letra é muito boa, descreve o clima de um barzinho onde grupos de músicos tocam jazz (mais especificamente, “dixieland” e “creole”).


Logo no início, ouviremos a primeira frase da guitarra de Knopfler, e depois entra a voz do próprio – não é um grande cantor mas, pro que se propõe, resolve. Além do quê, sua guitarra de sonoridade ímpar irá costurar toda a letra com um sem-número de frases melódicas improvisadas.



A música está em acorde menor, e a mão direita do batera Pick Whiters (tive que pesquisar esse nome, confesso) está nos pratos de contratempo. Aperte o play e vamos ao arranjo:



* * *


You get a shiver in the dark
It's raining in the park but meantime
South of the river you stop and you hold everything

(agora a música vai prum acorde maior e o batera vai pro prato de condução, o que dá um brilho especial ao trecho)


A band is blowing Dixie double four time (pan, pan, pa-paran-pan)
You feel alright when you hear that music ring


(volta pro acorde menor e o batera volta pro contratempo)

You step inside but you don't see too many faces
Coming in out of the rain to hear the jazz go down


(mesmo esquema: acorde maior, baterista na condução. isso acontecerá sempre durante a música)


Too much competition too many other places
But not too many horns can make that sound
Way on downsouth way on downsouth London town


(refrão instrumental, delicioso)



You check out Guitar George he knows all the chords
Mind he's strictly rhythm he doesn't want to make it cry or sing
And an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing



And Harry doesn't mind if he doesn't make the scene
(aqui um acorde bem roquenrol)

He's got a daytime job he's doing alright
He can play honky tonk just like anything
Saving it up for Friday night
With the Sultans with the Sultan of Swing


(refrão de novo, muito bom)



And a crowd of young boys they're fooling around in the corner
Drunk and dressed in their best brown baggies and their platform soles
They don't give a damn about any trumpet playing band
It ain't what they call rock and roll
And the Sultans played Creole (creole)



(agora, depois do refrão, vem o primeiro solo, que é o primeiro orgasmo dos guitarristas e apreciadores. Se fosse pra usar uma metáfora visual, diria que o som é cristalino; se escolhesse uma metáfora tátil, diria que é aveludado. Mas na linguagem corriqueira do dia-a-dia, me limito a dizer que é foda).



And then the man he steps right up to the microphone
And says at last just as the time bell rings
(vejam a habilidade do batera neste detalhe!)



'Thank you good night now it's time to go home'
And he make it fast with one more thing
'We are the Sultans, we are the Sultans of Swing'





E, finalmente, o último solo, o gozo final. É aí que Knopfler mostra sua técnica de tocar guitarra com os dedos, alternando entre indicador e polegar para produzir frases rápidas e, ao mesmo tempo, muito definidas. O êxtase da canção é no finalzinho do solo, quando ele toca a frase mais característica da música, aquela que todo guitarrista quer aprender – e que só fica perfeita daquele jeito se tocada com os dedos. O batera também aproveita e vai pro prato de condução, pra dar aquele brilho especial. Regozijo total. Depois, fade-out, fim da música, hora de acender aquele cigarrinho...




segunda-feira, julho 16, 2007

Chocolate

contribuição do camarada Lelo


Se eu dissesse que o Brasil esculachou a Argentina, que deu um sacode, um chocolate, provavelmente me acusariam de não estar sendo imparcial. Então, vamos à manchete do próprio Clarín sobre o jogo de ontem:




Una derrota cruel: Brasil fue más en todos los aspectos


La ilusión del título quedó hecha añicos. Más allá de hechos que fueron determinantes, el equipo de Dunga ganó en lo técnico, en lo psicológico y en el azar, que siempre pesa.







Azar, né? Suponho que nossos hermanos devem ter quebrado uma casa de espelhos, porque 24 anos sem ganhar... êita azar da porra!

sexta-feira, julho 13, 2007

Atocha!

Hoje é o dia mundial do rock. Apropriadamente, neste ano caiu numa sexta-feira 13.

Ah sim, também é o dia de abertura dos jogos Pan-Americanos, aqui na Cidade Maravilha Mutante. Mas, tirando o fato de que, pra muita gente, essa sexta virou feriado (eu mesmo só trabalharei até às 13hs), o carioca não parece estar muito animado com o tal de PAN.


Ontem à noite, passei de carro pela praia de Ipanema e, totalmente por acaso, tive a oportunidade de ver a tocha olímpica passar. Quase ninguém, além dos moradores locais, foi à praia saudar a dita cuja. À noite, no jornal da Globo, mostraram a passagem da tocha com closes bem fechados, para que não desse pra perceber que pouquíssima gente fez questão de presenciar o singelo evento.


Hoje de manhã, a promessa de trânsito caótico não se concretizou – e olha que moro próximo ao Maraca! O único congestionamento que vi foi em direção à ponte Rio-Niterói, principal rota para a região dos Lagos. De fato, a abertura do PAN parece significar, para o carioca, simplesmente a possibilidade de um fim-de-semana prolongado em Búzios, Cabo Frio ou outro balneário do gênero.


Da minha parte, ainda que pouco afeito a esportes, pretendo dar minha módica contribuição torcendo para a pequena Daiane dos Santos, com suas piruetas que desafiam a lei da gravidade. E, é claro, não poderia deixar de manifestar meu apoio a Beatriz e Branca, duas atletas tijucanas (quase minhas vizinhas, portanto) que irão representar o Brasil no nado sincronizado. É promessa de espetáculo – e não só pelo nado, como vocês podem conferir na foto das gêmeas abaixo.










Bom PANdemônio pra você! E, pros nossos atletas, deixo aqui o meu honesto conselho:



ATOCHA NELES ! ! !

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quarta-feira, julho 11, 2007

Manchete

Manchete que eu gostaria de ter visto na capa de algum tablóide carioca na segunda passada:




"Argentina pega o Peru e dá de quatro"




sexta-feira, julho 06, 2007

O primeiro disco de rock

Tinha eu oito anos em 1986. Meu pai já havia se separado da minha mãe, e morava sozinho na zona sul do Rio. Tinha um Puma conversível igual ao da foto ao lado, um carro que, nos anos 80, em termos de playboyzice, só perdia pro Miúra vermelho com néon no pára-choque. E sexta sim, sexta não, ele me pegava na casa da minha mãe pra passarmos o fim de semana juntos. Geralmente, íamos direto jantar numa churrascaria ou então passávamos no Caneco 70, onde ele bebia chope com os amigos enquanto eu comia batatas fritas com Coca-Cola, pra depois irmos pro tal apê de solteiro dele.


O cara morava num dois quartos em Botafogo. Num quarto, dormia ele. No outro, dormia sua guitarra (que me foi dada de presente mais tarde e que tenho até hoje), seu amplificador, uma pequena estante com livros de aviação e uma bateria, que me proporcionou muitos momentos de empolgação – não compartilhados pelos vizinhos dele.


Vai daí que, numa dessas noites, depois de voltarmos do Caneco, chegamos em casa e ele me conta que havia comprado um disco. E diz que eu poderia ouvir, só que baixinho, pois já passava de meia noite e era um disco de rock. Ele foi então dormir e eu fiquei lá, estirado no carpete, bem perto da vitrola e com os ouvidos grudados naquelas grandes caixas de som. E, depois da marcação forte dos ton-tons e surdos da bateria e dos primeiros acordes diminutos das guitarras distorcidas, vem aquela voz mórbida, como num mantra satanista, cantando:


Cabeça dinossauro, cabeça dinossauro, cabeça, cabeça, cabeça dinossauro!


O que era aquilo? Que tipo de som minimalista era aquele que tanto me intrigava?


Pança de matute, pança de matute, pança, pança, pança de matute!


É sempre bom lembrar que a capa de um disco de vinil é algo muito mais impactante do que a de um CD. E eu olhava praquela enorme cabeça dinossauro (na verdade um esboço de Da Vinci intitulado A expressão de um homem urrando), imaginava a “pança de mamute” e o “espírito de porco” da criatura, e aquilo já era o prenúncio que anunciava qual seria o tom e o clima da bolacha que eu ouvia com extrema curiosidade.




O disco Cabeça Dinossauro é o terceiro dos Titãs. Antes disso, os caras ainda faziam uma linha meio new wave, em músicas como Sonífera Ilha e Televisão. Com o Cabeça, enveredaram pelo lado mais cru do rock n’roll, influenciado pelo punk de poucos acordes e muita intensidade nas letras. E, de fato, as músicas do disco, cujos títulos são quase todos de uma ou duas palavras, disparam versos contra as instituições e o sistema capitalista de forma geral, o que se percebe em Igreja, Polícia, Família, Estado Violência, Tô Cansado, Dívidas, AA UU, A Face do Destruidor e Homem Primata.


Uma das músicas que mais assustou aquele garoto de oito anos de família católica, que foi batizado mas que não faria catecismo ou primeira comunhão, foi Igreja. Como é que os caras tinham coragem de dizer versos hereges como aqueles?


Eu não gosto de padre Eu não gosto de madre Eu não gosto de frei. Eu não gosto de bispo Eu não gosto de Cristo Eu não digo amém. Eu não monto presépio Eu não gosto do vigário Nem da missa das seis, não!

Eu não gosto do terço Eu não gosto do berço De Jesus de Belém. Eu não gosto do papa Eu não creio na graça Do milagre de Deus. Eu não gosto da igreja Eu não entro na igreja Não tenho religião.



Mas a música que acabou mais se popularizando, até por conta da proibição de radiodifusão, foi Bichos Escrotos, uma ode às baratas, ratos e pulgas, na qual os caras mandavam oncinha pintada, zebrinha listrada e coelhinho peludo irem se foder.



Finalizando, não poderia esquecer de O Quê, música que defino como a grande viagem de heroína de Arnaldo Antunes. Até hoje, a heroína é dificílima de se encontrar abaixo da linha do Equador mas, em 1985, Arnaldo e o guitarra Tony Belloto já haviam sido presos por porte da droga. E, no ano seguinte, os Titãs fechariam sua grande obra-prima com a seguinte letra:



O que não é o que não pode ser que
Não é o que não pode ser que não é
O que não pode ser que não é o que não
Pode ser que não é!
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é!







Hoje não gosto mais do Titãs (aliás, desde o Acústico), mas ainda considero Cabeça Dinossauro o melhor disco daquela geração BRock dos anos 80.





E o primeiro disco (de rock ou não) que te marcou, lembra qual foi?

terça-feira, julho 03, 2007

Sobre a "mercadorização" da vida moderna

Quando comecei a estudar sociologia, há relativamente pouco tempo – em 2003, pra ser exato –, o primeiro livro que caiu em minhas mãos (emprestado por Diana, uma de minhas amigas mais próximas) foi A Grande Transformação, de Karl Polanyi. E as teorias contidas no livro, a respeito da grande transformação que ocorreu na sociedade moderna do século XIX pra cá, também causaram uma grande transformação no meu modo de ver as coisas, pois que despertaram meu interesse neste fantástico (não achei adjetivo melhor) processo de preponderância dos valores econômicos sobre tudo mais que existe. Ou, pra ter mais a ver com o que pretendo dizer, da possibilidade de quantificação valorativa de tudo que existe.


O advento da sociedade de mercado abstrai as particularidades de todas as coisas, conferindo-lhes valores monetários – para Marx, o tal “valor de troca”. E Polanyi mostra como esta orientação mercadológica da sociedade burguesa, a primeira civilização a se basear em fundamentos econômicos, parte de um tripé fundamental, que é a quantificação valorativa do trabalho, da terra e da própria moeda, o dinheiro. Segundo ele, "a ampliação do mecanismo de mercado aos componentes da indústria - trabalho, terra e dinheiro - foi a conseqüência inevitável da introdução do sistema fabril numa sociedade comercial". Mas vejam o real significado destas três coisas para Polanyi:


"Trabalho é apenas um outro nome para a atividade humana que acompanha a própria vida que, por sua vez, não é produzida para a venda. Terra é apenas outro nome para a natureza, que não é produzida pelo homem. Finalmente, o dinheiro é apenas um símbolo do poder de compra e, como regra, ele não é produzido mas adquire vida através do mecanismo dos bancos e das finanças estatais".


Logo, Terra, Trabalho e Dinheiro não foram produzidos como mercadorias, mas apenas tratadas como se o fossem – e por isso, chamadas pelo autor de mercadorias fictícias (ou aparentes). E é esta transformação, ocorrida a partir da organização da economia através do mercado, que gera uma condição de subordinação dos homens ao capital e, consequentemente, um tipo alienado de sociabilidade, já que o nexo social entre os indivíduos, mediado pelo valor, exprime-se como uma “relação entre coisas” (nos termos do velho Marx).


Este é o tripé básico da “mercadorização” da vida moderna; todavia, conforme fui percebendo com o tempo, estamos tão mergulhados nesta realidade que não seria exagero afirmar que toda e qualquer coisa pode ser reduzida à lógica econômica. Até mesmo a própria vida, como vemos nos experimentos genéticos e na especulação do valor sobre remédios e tratamentos médicos, e também no ar que respiramos, como ocorre quando se estabelecem vendas de cotas de poluição para países mega-industrializados como nossos vizinhos ianques (um dos diversos assuntos levantados no excelente documentário canadense The Corporation).




E, é claro, não seria diferente com a cultura. As manifestações culturais e artísticas, as danças, rituais, os trabalhos artesanais, a subjetividade do homem como um todo, enfim, tudo pode ser economicamente mensurado pelo “espírito” capitalista de nossa sociedadezinha pueril. E quando a necessidade, real ou adquirida, de ter la plata no bolso emerge às vistas do homem, essa valoração mercadológica passa a assumir contornos nocivos, passa a se mostrar preponderante, passa a ditar as regras, orientar as práticas e influenciar as criações. Passa a objetivar a subjetividade.


Por isso, não devemos ficar surpresos quando vemos artesãos indígenas adaptando seus “produtos” de forma a “terem utilidade”, além de enfeitar a casa dos turistas compradores. Ou quando observamos que danças populares são formatadas em espetáculos para que as elites possam aplaudir de pé (após terem pago o ingresso, claro).


Sinal dos tempos: quanto mais submersos nesta lógica de mercado, mais difícil torna-se sequer notar o condicionamento econômico do qual até mesmo nossa subjetividade encontra-se refém.




* * *




(até que este seria um bom tema de doutorado... mas, sei lá, acho que vou banir esta idéia e fazer um MBA em marketing, que dá mais dinheiro...)




sexta-feira, junho 29, 2007

Dos vícios e das virtudes

Acabei de assistir uma palestra, feita por um médico que já trabalhou em CTI e hoje é coordenador da área de saúde ocupacional de uma grande empresa, sobre o Combate às Drogas. Os que me conhecem – e muitos dividem comigo o mesmo sentimento – sabem que sou arredio quanto a discussões abertas sobre o tópico, uma vez que minhas opiniões divergem do “senso-comum” (ê termozinho complexo) por uma série de motivos. E como o assunto é tabu, até mesmo expô-lo aqui pode ser arriscado. Todavia, ainda me encontro “entorpecido” por tudo que foi dito na palestra, e motivado por esse “barato” resolvi discutir apenas alguns pontos desse delicado tema.


Basicamente, gostaria de começar reproduzindo a definição de vício dada pelo palestrante:


“Inclinação para o mal. Prática irresistível de mau hábito, conduta ou costume censurável ou condenável”.


Pesado, não? Mas se formos buscar lá em Aristóteles a noção de vício, embora também visto de forma negativa, o entenderemos tanto como um derivado do excesso, como da falta. E isto porque, em Aristóteles, a virtude (tema caro ao filósofo) está no meio – não no meio aritmético, mas na justa medida das coisas, ou seja, no vértice de eminência.


Para melhor entendermos esta justa medida, podemos recorrer ao quadro resumido de “vícios por deficiência”, “vícios por excesso” e a “virtude” correspondente, que está situada entre ambos. Este quadro, que reproduzo abaixo, está nos textos da Ética a Nicômaco:



Vício por deficiência ...........Virtude ............Vício por excesso

Covardia ...............................Coragem ........................Temeridade
Insensibilidade .....................Temperança ..................Libertinagem
Avareza................................Liberalidade ....................Esbanjamento
Vileza .................................Magnificência ....................Vulgaridade
Modéstia ..............................Respeito Próprio .............Vaidade
Moleza ..................................Prudência ........................Ambição
Indiferença ............................Gentileza.........................Irascibilidade
Descrédito Próprio .................Veracidade ....................Orgulho
Rusticidade ...........................Agudeza de Espírito ........Zombaria
Enfado ...............................Amizade .......................Condescendência
Desavergonhado ..................Modéstia ..........................Timidez
Malevolência ........................Justa Indignação ...............Inveja



Em Aristóteles, as virtudes não são hábitos do intelecto (como queriam Sócrates e Platão), mas da vontade. Para Aristóteles não existem virtudes inatas, mas todas se adquirem pela repetição dos atos que, para gerarem as virtudes, não devem desviar-se nem por falta, nem por excesso, pois que a virtude consiste na tal justa medida, longe dos dois extremos.


“A virtude é portanto uma disposição adquirida voluntária, que consiste, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Digamos ainda o seguinte: enquanto, nas paixões e nas ações, o erro consiste ora em manter-se aquém, ora em ir além do que é conveniente, a virtude encontra e adota uma justa medida. Por isso, embora a virtude, segundo sua essência e segundo a razão que fixa sua natureza, consista numa média, em relação ao bem e à perfeição ela se situa no ponto mais elevado”. (Ética a Nicômaco, II, 6)


Agora vamos retornar dessa viagem milenar para o nosso tempo. O estilo de vida que nos é vendido por todo o sistema econômico que vivemos, por toda a racionalização da vida a qual temos sido submetidos há alguns séculos, nos leva irremediavelmente a uma busca pelo excesso, em diversas esferas. Os fabricantes de produtos, seus vendedores, os canais de mídia e publicidade, todos querem que nos comportemos como legítimos consumidores. Exemplo tosco, mas que serve: se você começar a ficar bêbado e tiver que dirigir, você é aconselhado a parar de beber ou a enfiar o pé na jaca mesmo e voltar de táxi?


Aí, indo contra toda essa corrente, autoridades defendem o fim do uso das drogas, o combate às drogas (título da palestra que assisti, lembram?). Os mais conservadores e/ou ignorantes do tema ainda responsabilizam os usuários pelo problema do tráfico de drogas, uma vez que dão dinheiro para os traficantes.


Ora, a proibição das drogas é coisa recente na história do homem sobre a Terra. O uso de drogas, em rituais ou mesmo fora deles, data de mais de 10.000 anos. E todos os trilhões de dólares que o governo americano gastou até agora no combate às drogas não fez com que o uso de entorpecentes acabasse. E é claro que nunca vai acabar. Além do mais, acredito que governos não podem invadir o espaço privado do cidadão e arbitrar sobre o que ele pode ou não fazer nos seus domínios pessoais, sem que haja conseqüências a terceiros. Este é, talvez, um dos piores legados de alguns políticos americanos para a política mundial de combate às drogas: colocar a repressão mil léguas à frente da prevenção, do tratamento médico e do controle do uso abusivo - afinal, se a virtude está no meio, não é o uso que se deve combater, e sim o abuso.


O tráfico só existe porque foi politicamente decidido que certas drogas são legais e outras, ilegais. Proíbam cigarros e bebidas alcoólicas e verão um novo cartel nascer debaixo de suas narinas – como foi com Al Capone na Chicago dos anos 20, quando o número de bares onde ouvia-se o jazz (que era reduzido na época da legalidade) pulou para mais de 300 estabelecimentos clandestinos na época da proibição.



Às vezes eu me bolo com a estupidez humana pra certos assuntos.









* A lição aristotélica eu aprendi através de uma história que envolve a filha de uma grande amiga, Lady Gahiva. Antônia, de 8 anos, voltou de uma festinha com a barriga doendo de tanto tomar refrigerante, no que foi prontamente advertida pela mãe:


- tá vendo só? O que é foi que Aristóteles disse?

- A virtude está no meio, mamãe.
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terça-feira, junho 26, 2007

Playbárbaros



É foda. “Ni qui” dependesse de mim, esse blog seria só sobre livros, músicas, filmes, algumas discussões intelectualóides e quiçá uma ou outra viagem existencial. Mas, como dizia o poeta Allen Ginsberg (sobre quem já falei aqui), o mundo é uma montanha de merda e, se queremos movê-la, é preciso que lhe metamos a mão. E a gente não pode mesmo ficar indiferente às cagadas que neguinho faz por aí.


Essa história da doméstica estampada nos jornais de ontem é troço de deixar qualquer um muito, mas muito puto da vida. Suponho que todo mundo saiba do que estou falando: cinco playboys, cinco canalhas, cinco jovens covardes moradores de condomínios de luxo na Barra (cada vez menos da Tijuca, como diz o amigo Edu) espancaram, lá mesmo, a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, de 32 anos, na madrugada desse último sábado – e ainda lhe roubaram um celular e 47 reais! Vejam o drama do depoimento da vítima:


"Eu estava olhando na direção que os ônibus vêm quando eles chegaram me xingando. Depois de pegar a minha bolsa, eles começaram a me bater. Levei muitos pontapés e chutes no rosto. Coloquei o braço na frente, para me proteger e eles passaram a me dar socos e cotevaladas na cabeça".


Tá ruim? Pois piora: o inspetor de plantão informou aos jornais que Felippe, que é estudante de direito, teria dito que cometeu a agressão porque achou que tratava-se de uma prostituta.


Bom, então está explicado. Solta o preso, delegado! Ele achou que era uma prostituta, ora bolas! Os marginaiszinhos de Brasília também se defenderam alegando que confundiram o índio Galdino com um mendigo, e por isso o queimaram vivo. E hoje estão soltos.


Por sorte, um taxista viu a cena deprimente na Barra e anotou a placa do carro. Com o número, a polícia conseguiu localizar o dono do carro e prendeu os brutos. Felippe Macedo Nery Neto, de 20 anos, Leonardo de Andrade, de 20 anos, Júlio Junqueira, de 21, Rodrigo Baçalo (na foto ao lado), de 20 anos, e Rubens Arruda, de 19, dividem uma cela na 16ª DP e serão levados para a Polinter. Felippe, que mora na cobertura de luxuoso prédio na Barra, mandou essa pro delegado: “Vamos ver se isso vai ficar assim, minha família não é qualquer uma”.


Infelizmente, Felippe está provavelmente certo. Sou descrente com a justiça desse país e não alimento a ilusão de vê-los presos por muito tempo. Mas bem que gostaria que dividissem cela, lá na Polinter, com outros presos que tivessem uma quedinha por garotos esbeltos e de pele bem cuidada. E no dia seguinte, quando o delegado os encontrasse arregaçados, sem poder sentar, e perguntasse o motivo daquela barbaridade, os demais presos diriam:



Foi mal, chefia, achamos que eram bonecas infláveis.






segunda-feira, junho 25, 2007

5000 vítimas "do asfalto"

Na capa do JB de sexta-feira, a manchete era: “Cinco mil na mira de fuzis em Copacabana”. A matéria, assinada por Breno Costa, refere-se aos “cerca de cinco mil moradores dos arredores dos morros Pavão-Pavãozinho, Ladeira dos Tabajaras e Cantagalo, em Copacabana e Ipanema”, que estariam “na linha de tiro, em caso de eventuais confrontos entre policiais e traficantes nessas comunidades”. O jornalista ainda tem a cara de pau de admitir: “A conta feita pelo JB não incluiu a população das favelas, apenas a do asfalto” (grifo meu).



Não tenho os números, até porque esse tipo de censo é pouco confiável e depende da instituição que realiza; entretanto, não há dúvidas de que as três comunidades somam muito mais que os cinco mil moradores citados. Mas os milhares de moradores que não moram “próximo às favelas”, mas sim nas favelas, não parecem estar no cerne das preocupações do jornalista ou de seus superiores. Aliás, francamente, quando é que veículos de comunicação como este e outros de maior grandeza realmente se importaram com os que não são “do asfalto”?


Na minha avaliação, a matéria tem sua razão de ser por dois motivos: 1) as favelas estão localizadas em algumas das áreas mais nobres da cidade; 2) segundo o próprio texto, “o alcance letal de um tiro de fuzil é de, no mínimo, 1,5 km, segundo especialistas em armamento”.


Alguém guarda a ilusão de que esta notícia existiria caso essas favelas estivessem localizadas na baixada, ou se as armas dos traficantes alcançassem apenas 50 metros de distância? O problema, para o jornal, é o perigo ao qual estão expostos os moradores “do asfalto”, cujos “apartamentos estão de frente para o morro”. Daí que moradora fulana de tal “até agora não teve problemas com tiroteio, mas sente receio com a proximidade da favela”. E, mesmo quando a opinião do entrevistador não reflete a idéia que eles querem passar, o texto é construído de forma tendenciosa: “A aposentada (...), moradora de um prédio na rua Sá Ferreira, diz viver sem medo, apesar da proximidade de sua sala com o morro” (grifo meu). A conjunção denota o mesmo viés preconceituoso e acusatório presente em frases do tipo “ele é pobre mas honesto”.


O fato de que os grandes veículos de comunicação – e aproveito pra colocar também a maioria dos dirigentes do país nesse balaio de gatos – só se preocupam com os interesses das classes economicamente superiores, em detrimento da segurança e da garantia dos direitos dos menos afortunados, não representa pra mim uma novidade. O que me surpreende é que o façam de maneira tão leviana e descarada.





Fechando, aproveito o ensejo proporcionado por essa reportagem pífia para reproduzir os versos de um samba escrito há quase 20 anos pelo grande letrista Paulo César Pinheiro, e posteriormente gravado pelo percussionista Wilson das Neves.






O dia em que o morro descer e não for carnaval



O dia em que o morro descer e não for carnaval
Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
Na entrada, a rajada de fogos,
para quem nunca viu,
Vai ser de escopeta, metralhadora,
granada e fuzil!
(É a guerra civil…)



O dia em que o morro descer e não for carnaval
Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
E cada ala da escola será uma quadrilha
A evolução vai ser de guerrilha
Que a alegoria é um tremendo arsenal
O tema do enredo vai ser a cidade partida
No dia em que o couro comer na avenida
Se o morro descer e não for carnaval.



O povo virá de cortiço, alagado e favela
Mostrando a miséria sobre a passarela
Sem a fantasia que sai no jornal.
Vai ser uma única escola, uma só bateria
Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
Que desfile assim, não vai ter nada igual.



Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga
Nem autoridade que compre essa briga
Ninguém sabe a força desse pessoal
Melhor é o poder devolver pra esse povo a alegria
Senão todo o mundo vai sambar no dia
Em que o morro descer e não for carnaval.

sexta-feira, junho 22, 2007

Historietas (#1)


Corre à boca pequena, nos corredores de famosa emissora de TV, uma história curiosa envolvendo também famoso diretor – para preservar sua idoneidade, vamos aqui chamá-lo de Lobo Maia.


Pois dizem que tal diretor encontrava-se dentro do elevador da emissora, a sós com o ascensorista, quando entra no mesmo cubículo outro diretor, acompanhado de um jovem e atlético rapaz. Após o cumprimento entre os dois colegas de trabalho, o diretor olha de soslaio para o jovem que o acompanha e dirige-se a Lobo Maia, dizendo:


- Lobo, este aqui é Marcos, meu sobrinho.


Ao que Lobo Maia, velho de guerra, retruca:


- Sim, conheço, já foi meu sobrinho também.





* * *





Notícia do Globo dessa semana: “Estado de saúde de ACM preocupa”.


E a pergunta que não quer calar:


Preocupa quem?



Desconfiando da resposta, quiçá da própria pergunta, os responsáveis pela versão on-line d’O Globo não disponibilizaram a janelinha para comentários dos leitores.





* * *




...E enquanto isso, nos principais aeroportos do país...




quarta-feira, junho 20, 2007

Sobre Visconde de Mauá

Araucária, árvore típica da região de Mauá




Pra quem curte o frio das montanhas e troca, num piscar de olhos, a água salgada do mar e a areia da praia por um belo rio com vegetação densa às margens, junho é o mês ideal pra subir alguma serra. E é na serra das Agulhas Negras, bem na divisa entre Rio e Minas, que está localizado o distrito de Visconde de Mauá, lugar para onde viajo todos os anos desde 1996 e onde estive (talvez pela vigésima vez) nesse último fim de semana, acompanhado de minha bonita e sua infalível Pantera, uma parati 1997 que não medra diante de qualquer desafio que seja.


Há que se fazer uma correção aqui: não é para Mauá, na verdade, que costumo ir, mas sim para Maromba e Maringá que, diferentemente de Visconde de Mauá, distrito de Resende, pertencem ao município de Itatiaia. Maromba já foi o principal reduto de artesãos, hippies e demais bichos-grilos que, em meio à fumaça de fogueiras e ervas relaxantes, dedilhavam nos seus violões harmonias de Raulzito, The Doors e demais expoentes do roquenrol maluco beleza. Entretanto, a invasão de boyszinhos com seus carros dotados de alto-falantes estratosféricos – que via de regra são diametralmente opostos à qualidade do gosto musical de seus donos – expulsou os convivas do local, transformando o pequeno centro de Maromba numa verdadeira cidade-fantasma, como vocês podem conferir na foto abaixo, tirada, acreditem, às dez da noite de sexta-feira.






Sem o que fazer em Maromba, a opção é ir para Maringá, que fica dividida entre Rio de Janeiro e Minas, dependendo em qual margem do rio Preto (que divide os dois estados) você está. E foi justamente no lado mineiro que encontrei uma cachaçaria chamada Uai, Tchê!, que pertence, como o nome indica, a uma gaúcha e a um mineiro, o Rodrigo, dono também de vasto conhecimento sobre a branquinha e sobre a história da região. Foi ele quem apresentou-nos a cachaça de Anísio Santiago, um verdadeiro divisor de águas na história da bebida, que transformou a região de Salinas em uma referência mundial de produção de cachaça artesanal de qualidade. Não é à toa que uma única garrafa da Anísio Santiago-Havana, produzida e embalada desde 1943 em casco escuro como cerveja e com um rótulo bem simples, é vendida por Rodrigo a 280 reais (fotos abaixo).











Definitivamente – e isso é um sinal de que chego perto dos trinta – esta viagem foi bem diferente das outras, menos focada no “agito jovem” e mais voltada para jantares acompanhados de bons vinhos. E quando eu disse pro Severino, dono da pizzaria Girassol, “Ah, você não aceita cartão? É que eu tô sem dinheiro...”, sabe qual foi a resposta? “Faz mal não, anota aí o número da minha conta e quando chegar no Rio você deposita!”. É mole?









Valores como confiança e solidariedade, latentes em algumas cidades pequenas e praticamente ausentes das ditas “áreas nobres” das grandes metrópoles, também se fazem presentes na história de Rosinha, uma mulinha de 22 anos que vive solta na vila de Maringá, transitando livremente em meio a bares, restaurantes e lojinhas. Quando perguntei a Rodrigo, da cachaçaria, quem era o dono da simpática mula, ouvi de resposta: “Ah, ela é do povo. Cada um cuida um pouco”.










Pra encerrar, e correndo o risco de tornar esta postagem ainda mais similar a uma matéria de revista de viagens, algumas fotos dos maiores patrimônios da região: o poção e as cachoeiras.






















p.s. – no início do texto, eu disse que a Pantera era infalível. Mas falhou na volta. Coisas da idade. Nada, entretanto, que fosse grande problema para minha bonita, ás da mecânica que, tal qual o lendário McGyver, sacou o canivete que carrega no porta-luvas (vejam como é prevenida) e pôs-se a resolver nosso problema, para enfim podermos voltar com segurança à esta cidade maravilhosa e por São Sebastião abençoada.



quarta-feira, junho 13, 2007

Sobre os palavrões

Alguém aí já reparou como a maioria das gírias, expressões e palavrões que utilizamos reproduz uma lógica machista e homofóbica de dominação? Michel Misse já. O sociólogo e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ – local onde tive a oportunidade de assistir suas aulas sobre crime e violência urbana – publicou, há quase trinta anos, um livro chamado “O estigma do passivo sexual” (1979), onde desmascara a estigmatização de mulheres e homossexuais “passivos” que permeia várias gírias e expressões de uso cotidiano da língua portuguesa.



Pra usar um eufemismo, é “engraçado” perceber que, mesmo após a emancipação feminina, a revolução sexual e a consolidação de São Paulo como a capital gay do Brasil, a maior parte dos palavrões e gírias que Misse analisou continuam a ser amplamente usadas nos dias de hoje.




Tomemos, primeiramente, o exemplo mais básico: a palavra “homem”, quando usada em gíria, pode significar policial, aquele que domina e tem o poder. E se falta coragem, força ou disposição pra um menino fazer alguma coisa que os outros meninos fazem? É chamado de mulherzinha ou, em idade mais avançada, de viadinho.



E quando a polícia bate na população? Está “metendo o pau”, ou “descendo o cacete”. O órgão sexual masculino, aliás, quando não está associado a força e dominação, é invariavelmente ligado a atributos positivos – pois se algo é bom, é “do caralho” (o adjetivo “foda”, originalmente usado como sinônimo de coisa boa, hoje possui conotação dúbia, dependendo do contexto).



Já os órgãos ligados à passividade, ou seja, o cu e a buceta (pra usar português claro), estão sempre conectados a atributos pejorativos. Um cara idiota é um “babaca” (um dos nomes da vagina); um sujeito pobre ou miserável é um “coitado” (aquele que sofre o coito); para xingar alguém, mandamos “tomar no cu”; se a situação está ruim, é porque “fudeu” ou “deu merda” e assim por diante.



Existe, inclusive, um e-mail (desses que circula pela internê) que revela como a mesma palavra, dependendo do gênero, pode ter significados diferentes – mas sempre pejorativos no caso feminino.



Vejam como procede:


Cão....................... melhor amigo do homem
Cadela....................puta

Vagabundo.............homem que não trabalha
Vagabunda.............puta

Touro.....................homem forte
Vaca......................puta

Pistoleiro................homem que mata pessoas
Pistoleira................puta

Aventureiro.............homem que se arrisca, viajante, desbravador
Aventureira.............puta

Homem da vida..... pessoa com sabedoria
Mulher da vida...... puta

Garoto de rua........ menino que vive na rua
Garota de rua.........puta

O galinha................aquele que traça todas
A galinha ................puta

Tiozinho................. irmão mais novo do pai
Tiazinha.................. puta

Feiticeiro................ conhecedor de alquimias
Feiticeira................ puta

Puto........................ nervoso, irritado, bravo
Puta........................ puta.







Como vocês podem ver, os estigmas e preconceitos estão aí a dar com pau. É uma merda admitir que eu, como você, fico puto de perceber que muitos desses palavrões são introjetados sem que a gente se dê conta. E o que é pior, sem nem um KYzinho.




Bom, isso era o que eu tinha pra dizer. Quem quiser dar sua opinião, pode dar à vontade. Só não venha com essa história de politicamente correto, que isso é coisa de viado!




*





O livro “O estigma do passivo sexual” foi relançado pela Bookmarks em 2005. O prefácio escrito por Misse em 1978, bem como a introdução escrita por Peter Fry, podem ser lidos aqui.