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Amanhã viajo para o Recife, por ocasião do XIII Congresso Brasileiro de Sociologia – o que provavelmente me deixará ausente do blog até semana que vem. Como o tema (citado no título) tem grande proximidade com as coisas que geralmente discuto aqui, resolvi esplaná-lo de maneira breve, pra que o astuto leitor, se assim desejar, possa dar sua opinião. O texto, na íntegra, deverá ser publicado na página do Congresso.
A opção pelo tema é resultado de uma observação e de um desconforto. A observação é a de que o funk se encontra cada vez mais presente nos redutos das classes médias e altas, como boates localizadas nas áreas nobres da cidade, happy hours do centro da cidade, eventos que ocorrem nas grandes casas de show (como o baile Skol que está sendo anunciado), chopadas de faculdades e academias de ginástica.
O desconforto vem do fato de que alguns estudiosos do tema estão apressando-se em enaltecer o funk como elemento de integração. Ou seja: a partir do momento em que a classe média começa a consumir o funk, ele deixaria de ser um “símbolo de estigma” para tornar-se um “símbolo de prestígio” (categorias usadas por Goffman).
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Uma visão lúdica, poética até, mas distante da realidade. O que move este tipo de opinião apressada é o fato de que o funk, que é “som de preto, de favelado” (como cantam Amilcka e Chocolate), está sendo ouvido pela playboyzada. E será que isso garante algum tipo de integração, ou pelo menos um recrudescimento das distâncias sociais? Será que isso aproxima “morro” e “asfalto”? Creio que não.
Alguns artigos relevantes já foram escritos sobre o consumo e apropriação de repertórios musicais do Nordeste por segmentos da classe média carioca. Cássio Soares, ex-colega de classe, no artigo Uma pequena burguesia Folk? Ou do papel da cultura popular no imaginário urbano juvenil de classe média carioca, e Claudia Rezende, em Os limites da sociabilidade: “cariocas” e “nordestinos” na Feira de São Cristóvão, revelam que a cultura do outro, quando apropriada por estes grupos, tende a ser ressignificada e reformatada para ser consumida apropriadamente. E será que não é isso que ocorre com o funk também?
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Primeira observação: os bailes de comunidade não são freqüentados pelos jovens entrevistados. Apenas uma jovem, de 23 anos, afirmou ter ido a mais de um baile dentro de uma favela, quando era menor – coisa que já não faz mais. Uma das outras entrevistadas, de 18 anos, justifica:
“lá [na favela] os riscos são muito maiores de qualquer outro lugar, assim, que a gente tá acostumado a ir, sabe, em uma noite, você ir, pode acontecer milhões de coisas, sabe? Também pode acontecer, vamos supor, aqui, mas o risco é bem menor”.
O receio quanto à insegurança nas favelas, relacionado à presença de traficantes de drogas armados nestes espaços, acaba por interferir na visão dos entrevistados em relação a toda a população local. Isto fica claro quando uma das jovens, de 17 anos, diz que “teria medo” de relacionar-se afetivamente com um morador de comunidade pobre. Outra entrevistada, de 18 anos, revela que “se vier uma pessoa da comunidade pra cá hoje e tal, pra ‘ficar’, tranqüilo, mas, assim, pra namorar eu já não sei”. A jovem de 23 anos, por sua vez, é taxativa: não “ficaria” com alguém da favela, pois “são feios e mal arrumados”.
Outra coisa que pude observar é que a identificação dos entrevistados com o funk é muito mais relacionada à “batida” e ao “som” do que propriamente às letras das músicas e ao estilo. Com exceção de um rapaz entrevistado, todos afirmaram não se identificar com o rótulo de “funkeiros”. Quando perguntados sobre o que seria o “estilo funkeiro”, uma jovem responde:
"pode existir aquele negócio ‘tchutchuca’, aquele negócio que, tipo assim, eu acho horrível, entendeu, porque, tipo assim, é aquele tipo de mulher que dança e não se importa com a letra, que a gente fala assim, ‘pô!’, bota a roupa realmente pra se vulgarizar, sabe, o que não é o nosso caso, sabe, a gente vai pro funk mas nunca vai botar um shortinho e tal" (grifos meus).
Ou seja: a ampla utilização de atributos pejorativos para a descrição do baile de comunidade (perigoso), “homem da favela” (perigoso, feio, mal-arrumado) e “mulher funkeira” (vulgar), além da necessidade de afirmação do distanciamento do que seria o “estilo funkeiro”, impedem que se veja algum tipo de potencial integrador no consumo de funk pelas classes médias e altas. Ao contrário, as opiniões emitidas pelos jovens entrevistados parecem, antes, reforçar a utilização do campo cultural como espaço simbólico de reafirmação das distâncias sociais.
O receio quanto à insegurança nas favelas, relacionado à presença de traficantes de drogas armados nestes espaços, acaba por interferir na visão dos entrevistados em relação a toda a população local. Isto fica claro quando uma das jovens, de 17 anos, diz que “teria medo” de relacionar-se afetivamente com um morador de comunidade pobre. Outra entrevistada, de 18 anos, revela que “se vier uma pessoa da comunidade pra cá hoje e tal, pra ‘ficar’, tranqüilo, mas, assim, pra namorar eu já não sei”. A jovem de 23 anos, por sua vez, é taxativa: não “ficaria” com alguém da favela, pois “são feios e mal arrumados”.
Outra coisa que pude observar é que a identificação dos entrevistados com o funk é muito mais relacionada à “batida” e ao “som” do que propriamente às letras das músicas e ao estilo. Com exceção de um rapaz entrevistado, todos afirmaram não se identificar com o rótulo de “funkeiros”. Quando perguntados sobre o que seria o “estilo funkeiro”, uma jovem responde:
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Ou seja: a ampla utilização de atributos pejorativos para a descrição do baile de comunidade (perigoso), “homem da favela” (perigoso, feio, mal-arrumado) e “mulher funkeira” (vulgar), além da necessidade de afirmação do distanciamento do que seria o “estilo funkeiro”, impedem que se veja algum tipo de potencial integrador no consumo de funk pelas classes médias e altas. Ao contrário, as opiniões emitidas pelos jovens entrevistados parecem, antes, reforçar a utilização do campo cultural como espaço simbólico de reafirmação das distâncias sociais.