quinta-feira, agosto 30, 2007

Brasileirinho, o filme

Ontem fui ao Canecão ver o show de divulgação do filme Brasileirinho, dirigido pelo finlandês Mika Kaurismäki. O filme, que já passou em vários cantos da Europa, chegou ao Brasil na semana passada. Ainda não fui vê-lo no cinema mas, pelo que li, sei que vou gostar muito. Criticaram o fato de que o filme se foca mais nas interpretações de choros do que sobre a história desse gênero musical – o que não me parece negativo, visto que sou músico e conheço provavelmente 99% do time escalado para aparecer no filme.



Antes de ser gênero, o choro era, ainda no século XIX, a forma estilizada, chorada, que músicos brasileiros tocavam ritmos europeus como a polka, a mazurca, a valsa, o scottish. No início século XX, quando as baianas da Praça 11 (ou Pequena África, como era conhecida aquela região do centro do Rio de Janeiro) abriam suas portas para os músicos tocarem, o choro ganhava lugar de destaque nas casas, sendo tocado na sala de visitas – enquanto o ainda rudimentar samba era tocado na cozinha e os batuques de religiões afro ficavam restritos ao fundo dos quintais.



Embora o samba tenha sido o estilo musical escolhido para forjar a identidade nacional nos tempos de seu Gegê, o choro também ganhou notoriedade graças às belas composições de gente como Jacob do Bandolim, Anacleto de Medeiros, Antonio Callado, Ernesto Nazareth e o mestre inconteste, Pixinguinha. Apesar de geralmente ter uma estrutura fixa, com três partes (A, B, A, C, A, nesta ordem), há muito espaço para improvisações no choro, e muitos músicos virtuoses deixam a gente de cara com suas habilidades – eu, que sou chegado num virtuosismo, cito Raphael Rabello e Yamandu Costa no violão, e Hamilton de Holanda e Joel Nascimento no bandolim, além dos mestres supracitados e de uma porrada de gente que nem querendo eu conseguiria enumerar aqui.




Minha ligação com o choro já foi maior, na época em que eu participava da Escola Portátil de Música, um projeto porreta capitaneado por Mauricio Carrilho, Luciana Rabello e sua gangue. Entre 2004 e 2005, eu tinha que brigar com meus amigos pra ir embora mais cedo do furdunço de sexta à noite para que, no sábado, às 9 da matina, eu estivesse firme e forte tendo aulas de história do choro, harmonia musical e prática de instrumento. Violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, sopros, cada instrumento tinha uma sala e um professor específico (hoje tem até canto por lá). Quando dava meio dia, juntavam todos os cerca de 200 alunos (hoje são mais ainda) e tocávamos, todos juntos, os dois ou três choros ensaiadas no dia. Sinto grandes saudades daquela bagunça organizada: cinquenta violões, trinta pandeiros, vinte cavaquinhos, quinze flautas, dois contrabaixos acústicos, saxofones, trompetes, trombones e muita disposição.




Essas recordações me vêm à memória sempre que vejo shows como o de ontem, onde músicos da primeira divisão do choro brasileiro como Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo Souza (os caras do Trio Madeira Brasil), Yamandu Costa, os irmãos Beto e Henrique Cazes, Nelsinho do Pandeiro e Cesinha (pai e filho), Tereza Cristina, Pedro Miranda, Zé da Velha e Silvério Pontes têm a oportunidade de dividir o mesmo palco e a mesma satisfação de tocar para um público numeroso e compenetrado. Torço pra que chorinhos e chorões continuem tendo espaço para que possam, com seus talentos, perpetuar este estilo tipicamente brasileiro, nascido e criado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Seja marginal, seja herói

Chamar alguém de marginal nos dias de hoje tem uma forte conotação pejorativa, mas nem sempre foi assim. Quando o termo começou a ser utilizado na literatura social, o marginal era visto de forma positiva.


Robert Park, por exemplo, que tinha grande interesse em contatos e conflitos culturais, acreditava que “é na mente do homem marginal – onde têm lugar as mudanças e as fusões da cultura – que melhor podemos estudar o processo da civilização e do progresso”. Isso foi em 1928. Antes disso, Georg Simmel já havia dito, em O estranho, que o marginal encontra-se numa posição especial de objetividade e abertura, que lhe aguça as percepções e a criatividade.


Como ocorre no braço de um rio, estar à margem é estar distante da parte mais profunda, ou seja, estar menos suscetível à ação da correnteza, num local onde você tem onde se segurar e não ser levado pelo fluxo das doutrinas e das idéias pré-moldadas. Ser marginal, portanto, é não rezar a cartilha do conformismo e ter mais autonomia individual em relação ao que se pensa, faz e acredita.


É claro que quase todos querem, de alguma forma, ser aceitos em algum grupo como iguais, ao mesmo tempo em que desejam ser únicos e exclusivos, preservando suas idiossincrasias e particularidades. Mas há um preço a ser pago por aqueles que desejam contestar certas regras ou – pior ainda – quebrá-las. Vou ilustrar este argumento com um simples exemplo:


1995, auge do metal entre a minha galera: vestidos de jeans rasgados e camisas pretas, independente da intensidade do calor senegalês carioca, ouvíamos apenas músicas que falavam sobre morte, demônio, cadáveres e escatologias afins. Eu namorava então uma menina metaleira que usava, precisamente, 17 pulseiras de couro no antebraço esquerdo. Eis que, em seu aniversário, com todos os amigos dela enfurnados naquele pequeno apartamento em Bonsucesso, botei o CD Vamo Batê Lata, dos Paralamas do (Bom) Sucesso.




Até quem nunca foi fã do metal extremo pode imaginar os olhares de reprovação que recebi. Aquela galera odiava música brasileira (com exceção de Sepultura, Sarcófago, Ratos de Porão, Korzus e algumas bandas punk) e abominava percussão; a única coisa que neguinho batia era cabeça. E por mais que eu argumentasse que o João Barone era um batera foda e tinha até bumbo duplo no disco, não consegui conter a fúria dos headbangers.





Hoje, o termo marginal está associado ao que se convencionou (erroneamente, claro) chamar de bandido. No mesmo diapasão, criticar e contestar os padrões sociais, religiosos ou políticos só faz de você um marginal se for pobre; se tiver um pouco de grana, provavelmente irão te chamar de “alternativo”.


E com globalizações e demais processos homogeneizantes à vista, tem-se cada vez menos espaço para ser diferente: basicamente, só quem pode fazê-lo livremente são os adolescentes: “seja você, mesmo que seja bizarro”, canta a baiana Pitty, para delírio dos teens. Mas seja você por enquanto, porque depois da faculdade, meu velho, vai ter que cortar esse cabelo ridículo, sentar em frente a um computador e começar a receber ordens de um recalcado qualquer.


Parece pesadelo? Bom, por aqui isso tem outro nome: chamam de sucesso profissional.







As posições de Park e Simmel foram extraídas de O Mito da Marginalidade, livro de Janice Perlman.

terça-feira, agosto 21, 2007

No tempo em que Plutão era planeta

Título descaradamente vilipendiado de Diogo Lyra



Durante toda a minha vida escolar, aprendi que tínhamos 9 planetas no nosso Sistema Solar: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Este último sempre foi um dos que mais me intrigava, por ser o mais nanico e também o mais distante do Sol; imaginava eu que, se vivêssemos naquele frio planetinha, jamais completaríamos sequer um ano de existência – que lá tem a duração de 248 dos nossos.


Então – sendo agora obrigado a recorrer a um dos piores trocadilhos da astronomia – imaginem o quão puto, mas muito puto, putão mesmo, eu fiquei quando soube que o curioso nano-planeta havia sido rebaixado para a segunda divisão dos corpos celestes, sendo levado a dividir modestos campos de várzea com Éris e Ceres.


Pois bem: o que já era motivo de tristeza e indignação, levando alguns amigos a reportarem-se saudosa e nostalgicamente ao tempo em que plutão era planeta, praticamente transformou-se em motivo de chacota quando, ao pesquisar no Wikipedia (a enciclopédia dos que são do tempo em que Plutão já jogava na segundona), descobri que Plutão, desde 2006, é classificado como planeta ANÃO!!!


É ou não é uma sacanagem? Afinal, somos nós, terráqueos, que inventamos tais categorias escusas. Do alto de nossa arrogância, consideramos que Plutão não passa de um salva-vidas de aquário, de um reles pintor de rodapé. Já posso ouvir astrônomos e mesmo astrólogos fazendo chacota com nosso irmão caçula: Pedala, Plutão!, é o que imagino gritarem.


Não obstante, visto em um contexto mais universal, nosso próprio planetinha azul não passa de um pequeno grão, de uma verdadeira poeirinha cósmica, como vocês poderão observar abaixo.

































Pois é, perto do Sol não somos merda nenhuma, e perto de outras estrelas de maior grandeza não somos nem mesmo visíveis, o que mostra nossa imensurável pequenez neste universo que nos cerca. E é com este espírito de humildade terrena que inicio, desde já, uma campanha de dimensões astronômicas, certo de que não estarei sozinho na defesa dessa reivindicação, expressa no refrão que bradaremos, eu e todos os meus companheiros, aos quatro cantos da galáxia:



ÃO ÃO ÃO

Queremos Plutão

Na primeira divisão!



sexta-feira, agosto 17, 2007

Uma bela e singela redação

para Gigi e Vivi



A redação que transcrevo abaixo foi feita por uma aluna do curso de Letras da UFPE, vencedora de um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa. Como tenho grande interesse por línguas (com e sem trocadilho) e queria divulgar esse texto pra muitos amigos, achei que a melhor maneira de fazê-lo seria publicá-lo aqui. Então vamos ao texto:




* * *



Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.


Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.


O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.


Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.


Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.


Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.


Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.


É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.


Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.


Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.


Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.


O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Nietzsche e o egoísmo

Sou, como todo ser humano (ainda que poucos estejam dispostos a admiti-lo), egoísta. Lembro que, quando criança, defendia a tese de que tudo que fazemos possui, necessariamente, algum intuito de satisfação pessoal. Mesmo quando aparentemente fazemos algo direcionado a outrem – como dar flores à namorada ou algum dinheiro a um sujeito pobre – a motivação tem um fundo de auto-regozijo, expresso, por exemplo, na satisfação pessoal de se estar fazendo algum bem a outra pessoa.


Defender abertamente essa teoria tinha um preço: as pessoas tendiam a me achar uma criança auto-centrada (risco que, pelo visto, correrei para sempre). Por isso, fiquei bastante feliz em ver que Friedrich Nietzsche parece concordar com tal pensamento.


O trecho que citarei abaixo não foi escrito pelo filósofo; na verdade, li pouquíssima coisa da obra de Nietzsche (erro que pretendo corrigir na primeira oportunidade que tiver). Pertence, de fato, ao livro Quando Nietzsche chorou, primeiro romance do psicoterapeuta Irvin D. Yalom, que usa de seus atributos literários e intelectuais para narrar um fictício encontro entre o filósofo e Josef Brauer, um dos pais da psicanálise e mentor de Freud (que também é personagem do livro).


Lá pelas tantas, quando Nietzsche questiona o doutor sobre suas reais motivações em querer tratá-lo, Breuer tenta explicar que ajudar as pessoas a aliviar suas dores é sua atividade – resposta que não satisfaz Nietzsche. Vendo a negação do filósofo em aceitar tal argumento, Breuer devolve-lhe a mesma pergunta: “Para quê, então, filosofa?”. E recebe a seguinte porrada do bigodudo:



“Ah! Existe uma importante distinção entre nós. Eu não alego que filosofo para si, enquanto o senhor, doutor, continua fingindo que sua motivação é servir-me, aliviar minha dor. Tais alegações nada têm a ver com a motivação humana. Elas fazem parte da mentalidade de escravo astutamente engendrada pela propaganda sacerdotal. Disseque suas motivações mais profundamente! Achará que jamais alguém fez algo totalmente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. (...) Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado.”

quinta-feira, agosto 09, 2007

Einstein e o Socialismo

Minha querida amiga Dida fez a tradução de um texto de Einstein chamado "Por que Socialismo?", para ser publicado no jornal eletrônico que seus alunos (os dela, claro) estão criando na Cândido Mendes de Niterói. Com isto, Dida nos presenteou com a possibilidade de entrar em contato com algumas opiniões políticas do grande gênio da física, às quais não teríamos acesso devido ao nosso parco conhecimento de alemão (com algumas exceções, né Jana?).

Trata-se de um artigo escrito para o lançamento do primeiro volume da famosa revista de esquerda norte-americana Monthly Review, saído em 1949. Quem tiver curiosidade de ler o texto na íntegra pode enviar um e-mail para errata@oi.com.br solicitando-o. Abaixo, reproduzo alguns trechos deste ótimo texto para o deleite de vocês, queridos leitores.

Por que Socialismo?

Albert Einstein (maio de 1949)


(...) O homem é, a um só e mesmo tempo, um ser solitário e social. Enquanto ser solitário ele almeja proteger sua própria existência e aquela daqueles que são mais próximos a ele, para satisfazer seus desejos pessoais e para desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, ele busca ganhar o reconhecimento e o afeto de seus companheiros humanos, compartilhar seus prazeres, confortá-los em suas dores, e melhorar suas condições de vida. Apenas a existência dessas ambições variadas, e freqüentemente conflituosas, dá conta do caráter especial de um homem, e a sua combinação específica determina a extensão com que um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interno e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa desses dois impulsos seja fixada principalmente pela herança. Mas a personalidade que finalmente emerge é largamente formada pelo ambiente no qual aconteceu a um homem encontrar-se durante seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade na qual ele cresceu, pela tradição dessa sociedade, e pela sua avaliação de tipos particulares de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa para o ser humano individual a soma total de suas relações diretas ou indiretas com seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo está apto a pensar, se empenhar e trabalhar por si mesmo; mas ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele ou compreendê-lo fora da moldura da sociedade. É a sociedade que provê o homem de comida, vestuário, lar, ferramentas de trabalho, linguagem, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo de pensamento; sua vida é tornada possível pelo trabalho e pelas realizações de vários milhões no passado e no presente, os quais estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.


(...) O homem adquire de nascimento, através da hereditariedade, uma constituição biológica que nós podemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante seu tempo de vida o homem adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade através da comunicação e de vários outros tipos de influência. É essa constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita à mudança, e que determina numa grande extensão a relação entre o indivíduo e a sociedade. A moderna antropologia nos ensinou, através do método comparativo de investigação das assim chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir tremendamente dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam em sociedade. É por isso que aqueles que estão se empenhando em aprimorar a sorte do Homem podem aumentar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilar uns aos outros ou a estar à mercê de um destino cruel auto infligido.


Se nós nos perguntarmos como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser mudadas a fim de tornar a vida humana tão satisfatória quanto for possível, nós deveríamos estar constantemente conscientes do fato de que existem certas condições que são impossíveis de modificar. Como mencionado antes, a natureza biológica do homem não está, para todos os fins práticos, sujeita à mudança. Mais ainda, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos poucos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente munidas dos bens que são indispensáveis à continuação de sua existência, uma extrema divisão do trabalho e um aparato produtivo altamente centralizados são absolutamente necessários. Já foi para sempre o tempo – o qual, olhando para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um leve exagero dizer que a humanidade constitui já hoje uma comunidade planetária de produção e consumo.


Agora alcancei o ponto em que eu posso brevemente indicar o que constitui para mim a essência da crise do nosso tempo. Ela concerne à relação entre indivíduo e sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência em relação à sociedade. Mas ele não experimenta essa dependência como um patrimônio positivo, como um laço orgânico ou como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência econômica. Mais ainda, sua posição em sociedade é tal que os impulsos egoístas de sua constituição estão sendo constantemente acentuados, enquanto seus impulsos sociais, que são fracos por natureza, deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, estão sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros não conscientes de seu próprio egoísmo, eles se sentem inseguros, solitários e privados do ingênuo, simples e não sofisticado aproveitamento da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como ela é, através de sua devoção à sociedade.


A anarquia econômica da sociedade capitalista tal como existe hoje é, em minha opinião, a real origem do mal. Vemos antes de nós uma enorme comunidade de produtores, cujos membros estão almejando incessantemente tirar uns dos outros os frutos do seu trabalho coletivo – não pela força, mas no geral em cumprimento fiel das leis legalmente estabelecidas. A esse respeito, é importante nos darmos conta de que os meios de produção – que correspondem, por assim dizer, à inteira capacidade produtiva que é necessária para a produção de bens de consumo, tanto quanto de bens de capital – podem ser legalmente, e o são em sua maior parte, a propriedade privada de indivíduos.


(...) O capital privado tende a se tornar concentrado em poucas mãos, em parte por causa da competição entre os capitalistas, e em parte pelo desenvolvimento tecnológico, e a crescente divisão do trabalho encoraja a formação de grandes unidades de produção às expensas das pequenas. O resultado desse desenvolvimento é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isso é verdade visto que os membros do corpo legislativo são selecionados pelos partidos políticos, largamente financiados ou de alguma forma influenciados pelos capitalistas privados, que, para todos os fins, separam o eleitorado do governo eleito. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem os interesses dos setores desprivilegiados da população. Mais do que isso, sob tais condições os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Portanto, seria extremamente difícil para o cidadão individual, e mesmo impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer um uso inteligente de seus direitos políticos.


(...) A produção é orientada pelo lucro, não pelo uso. Não há previsão de que todos aqueles aptos e desejosos de trabalho estejam em posição de encontrar emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador está constantemente com medo de perder seu emprego. Desde que desempregados e mal pagos, os trabalhadores não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é restrita, e um grande sofrimento é a conseqüência. O progresso tecnológico resulta freqüentemente em mais desemprego do que em um alívio do fardo do trabalho para todos. A motivação do lucro, em conjunção com a competição entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição ilimitada leva a um enorme desperdício de trabalho e ao enfraquecimento da consciência dos indivíduos, a qual mencionei acima.


Eu considero esse enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educacional como um todo sofre desse mal. Uma atitude competitiva é inculcada no estudante, que é treinado para adorar o sucesso aquisitivo como preparação para a sua futura carreira.


Estou convencido de que há apenas um caminho para eliminar esses graves males, nomeadamente através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educacional que seria orientado para fins sociais. Numa tal economia, os meios de produção são possuídos pela sociedade ela mesma, e são utilizados de uma maneira planejada. Uma economia planejada que ajustasse a produção às necessidades da comunidade distribuiria o trabalho a ser feito entre todos aqueles aptos a trabalhar, e garantiria uma vida decente a cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, somada à promoção de suas habilidades inatas, procuraria desenvolver nele um senso de responsabilidade para com seus companheiros homens, em lugar da glorificação do poder e do sucesso em nossa sociedade presente.


Contudo, é necessário recordar que uma economia planejada ainda não é o socialismo. Uma economia planejada como tal deve ser acompanhada pela desescravização do indivíduo. O alcance do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: como é possível, em vista de uma abrangente centralização do poder econômico-político, prevenir que a burocracia torne-se toda poderosa e onipresente? Como os direitos do indivíduo podem ser protegidos, e com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia ser assegurado?


Claridade sobre os fins e problemas do socialismo é da maior significância em nossa idade de transição. Dado que nas presentes circunstâncias a discussão livre e desimpedida desses problemas tornou-se um poderoso tabu, eu considero que a fundação dessa revista constitua um importante serviço público.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Aos 29





Ontem, domingão, fiz vinte e poucos pela última vez na vida. Comemorei com carnes, cervejas, caipirinhas, caipiroskas, rock n’roll ao vivo e muitas pessoas especiais, que deram o próprio sangue para estar comigo nesse momento tão singelo.







O evento só aconteceu graças à ajuda e colaboração de muita gente boa e, dentre essas pessoas, faço questão de destacar e homenagear o camarada Andrada, que pilotou a churrasqueira com a maestria e o ódio de sempre.





Um brinde a todos os meus grandes amigos e amigas,

e até o próximo furdunço!

terça-feira, julho 31, 2007

No menu musical de hoje...




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...The Strokes, com Reptilia

Leia antes de apertar o play: Nunca gostei daquilo que, no rock, chamam de “indie”. Mas gosto da banda The Strokes, e tem gente que fala que o som deles é indie. Problema deles. Pra mim, o som do grupo do filho de John Casablancas, dono da Elite Models, que conta com o brasileiro Fabrício nas baquetas, é um rock seco e cru, que não considero tão distante de outras bandas que são rotuladas como grunge ou punk ou outra sub-divisão qualquer, entre as tantas que existem no bom e velho roquenrol.


Reptilia é minha música favorita do Strokes. É a segunda faixa do segundo disco deles, Room of Fire. E o que mais gosto nela é exatamente o arranjo: como trata-se de um rock bem cru, feito com duas guitarras, baixo, batera e voz, a solução encontrada pelos caras para sofisticar o arranjo é alternar a presença dos instrumentos que são tocados. O resultado são trechos com guitarra sem baixo e bateria, trecho com baixo e bateria sem guitarras, trechos com voz, guitarra e bateria sem baixo, enfim, toda sorte de combinações possíveis, como iremos conferir agora. Aperte o play e vamos nessa!

* * *


(a música começa com bateria e baixo, aquele baixo bem simples, uma só nota martelada com palheta mesmo. Depois, entram as duas guitarras distorcidas, uma fazendo os acordes da base, junto com o baixo, e a outra uma frase melódica dessas que grudam em nossos ouvidos. Quando o vocal entra, saem o baixo e a guitarra base e ficam a bateria e o tal riff melódico)


He seemed impressed by the way you came in
"Tell us a story
I know you're not boring"


(volta o baixo, cimentando o chão da base)


I was afraid that you would not insist.
"You sound so sleepy
just take this, now leave me"


(e agora volta a guitarra base, rasgando tudo. O vocal distorcido ajuda a aumentar a sujeira)

I said please don't slow me down
If I'm going too fast
You're in a strange part of our town...


(melhor pedaço da música: todos param de tocar e ouve-se só uma guitarra, fazendo uma bela frase com acordes arrastados pra cima e pra baixo. Aí, entra um desenho melódico no baixo, acompanhando o riff da guitarra, e o bumbo fazendo a marcação e preparando a volta dos outros instrumentos)


Yeah, the night's not over
You're not trying hard enough,
Our lives are changing lanes
You ran me off the road,
The wait is over
I'm now taking over,
You're no longer laughing
I'm not drowning fast enough.


(solo de guitarra, daqueles bem rock n’roll tosco, com escalinhas repetidas mil vezes. Findo o solo, saem agora as duas guitarras, ficando somente a cozinha – baixo e batera)


Now every time that I look at myself
"I thought I told you
this world is not for you"


(e, novamente, a banda toda quebrando tudo)


The room is on fire as she's fixing her hair
"you sound so angry
just calm down, you found me"


I said please don't slow me down
If I'm going too fast
You're in a strange part of our town...


(fala sério, não é o melhor trecho da música? Depois de conhecer, a gente passa a ouvir a música só esperando por esse momento)


Yeah, the night's not over
You're not trying hard enough,
Our lives are changing lanes
You ran me off the road,
The wait is over
I'm now taking over,
You're no longer laughing
I'm not drowning fast enough.



Gostou do som? Então aproveita e veja aqui o clipe da música, que é todo feito de closes nos instrumentos dos caras, ou seja, praticamente a descrição que eu fiz, só que com imagens ao invés de palavras.

segunda-feira, julho 30, 2007

Um brinde democrático



Domingo frio e inóspito pros cariocas, perfeito prum estrogonofe "indoor".


E pra você que está vendo esse brinde democrático, proponho um jogo:


quem bebe o quê na foto?



(1) dida..............................................( ) uísque
(2) zucca............................................( ) cerva
(3) davos............................................( ) caipirinha
(4) bonita...........................................( ) vinho
(5) ledas.............................................( ) vinho
(6) eu..................................................( ) vinho



Resposta certa amanhã, nas intervenções.

quinta-feira, julho 26, 2007

Notas sobre o PAN

Minha bonita tem ido a alguns jogos do PAN e me informou que os estádios estão ficando vazios, mesmo nos casos em que os ingressos para venda já estão esgotados. O Comitê responsável, CO-Rio, explicou n’O Globo de hoje que, do total de 1,7 milhão de ingressos disponíveis, cerca de 300 mil foram doados para União, Governo do Estado e Prefeitura. Acho que, mesmo através do monitor, vocês conseguiram sentir o cheiro de merda que paira no ar.


Problemas na numeração dos ingressos já motivaram uma ação na justiça contra o Comitê, e a Promotoria de Defesa do Consumidor já pensa em entrar com outra ação pra investigar o que para eles pode ser um indício, mas para mim é uma certeza: existem mais falcatruas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.


Pelo menos, fico feliz em saber que ganhamos a medalha de ouro no futebol feminino, metendo 5 gols nas ianques. Certa vez, aqui mesmo no blog, um amigo estadunidense disse que o futebol era um esporte de meninas. E, de alguma forma, parece que ele tinha razão: o futebol também é um esporte de meninas, mas de meninas brazucas.


Com essa vitória, passamos Cuba e estamos em segundo lugar no ranking de medalhas do PAN. Mas sei que voltaremos ao posto de terceiro lugar. Temos vocação pra terceiro. É só ver que nenhum país, nem mesmo os EUA, tem mais medalhas de bronze que o nosso. Em matéria de ser terceiro, somos os primeiros.


E pensem bem: pelo menos nos esportes de equipes, ser terceiro é muito melhor do que ser segundo. Ser terceiro significa que você perdeu a penúltima partida, não foi pra final, mas não se deixou abalar e venceu o último jogo, garantindo o bronze. Ser prata em esportes de equipe significa que você fez uma brilhante campanha e perdeu o último jogo, ou seja, como se diz no futebol, nadou, nadou e morreu na praia. Nada mais frustrante.


Foi exatamente o que aconteceu com as meninas de prata do vôlei e com as meninas de prata do basquete. Esses resultados levaram um conhecido meu, natural da Turquia, a afirmar que “a mulher brasileira sempre entrega o ouro no final”. Mas Marta e suas colegas de seleção podem, agora, dizer que este jovem imigrante de bigode estava errado.

terça-feira, julho 24, 2007

Fugere Urbem

Foi no próprio dia do amigo que viajei com três deles (Lelo, Digas e Ligita, além da minha bonita e sua indefectível Pantera) pro Sana, que é distrito de Macaé mas se chega mesmo por Casimiro de Abreu. Terra do reggae, dos hippies e dos bolinhos de aipim, o Sana é o local perfeito pra quem quer fugir da grande cidade e experimentar um convívio mais próximo com a natureza, como vocês poderão acompanhar nas fotos abaixo:








Pela manhã, um café com frutas colhidas no próprio pé
(na foto, um exemplar da espécie homo sapiens sapiens garantindo seu desjejum).







Depois, um refrescante banho de cachoeira.






À tarde, um passeio de charrete, na companhia de insetos exóticos.








À noite, um jantar saudável à base de alimentos orgânicos,
preparados num rústico fogão à lenha.









E pra acompanhar, um bom vinho.









O Sana é isso. Amigos, natureza, paz e muita saúde!




sexta-feira, julho 20, 2007

No dia do amigo, uma bela notícia




Hoje é dia do amigo e, por este motivo, pensei em usar este espaço pra prestar uma homenagem aos malandros que dividem comigo a foto acima. Evidentemente, há outros camaradas que também merecem atitudes deste tipo (entre eles Andrada, Iuri, Pakkatto, Tchello, Johnny e, obviamente, meu gande parceiro Davos). Porém, Lelo, Ledas e Digas são amizades que remontam à pré-história, pessoas com quem tenho contato quase diário e um convívio mais que fraterno. Um exemplo: embora esta foto já tenha uns meses, estive ainda ontem na companhia deste mesmo trio.


Então, como eu dizia, pensei em saudar os amigos mas percebi que, devido a um fato importantíssimo ocorrido hoje, vi que teria que dividir esta homenagem com outra, esta dedicada a todo o povo brasileiro:






Parabéns, Brasil, por ter se livrado de um dos seus maiores pilantras!





Adeus, ACM!!!

quinta-feira, julho 19, 2007

No menu musical de hoje...




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...Dire Straits, com Sultans of Swing

para Ledas


Leia antes de apertar o play: além de guitarrista e violonista, sou também fanático por arranjos musicais. Assim, estréio esta série onde farei alguns comentários sobre os arranjos de músicas que aprecio. Quem também é músico vai aproveitar bastante, porém buscarei usar uma linguagem que não deixe de fora quem gosta de som mas não toca nada. O upload de músicas ainda é novidade pra mim, então é legal saber de vocês se o troço está funcionando como deveria.




Sultans of Swing é, incontestavelmente, uma das músicas que mais me aprazem ouvir. Sou suspeito por ser guitarrista, mas mesmo quem não é fica impressionado com a sonoridade das frases que Mark Knopfler tira da sua guitarra, um timbre muito característico também pelo fato dele dispensar a palheta e tocar com os dedos.

Sultans está no primeiro disco do grupo, homônimo, de 1978 (ano em que nasci), e na coletânia Money For Nothing. A letra é muito boa, descreve o clima de um barzinho onde grupos de músicos tocam jazz (mais especificamente, “dixieland” e “creole”).


Logo no início, ouviremos a primeira frase da guitarra de Knopfler, e depois entra a voz do próprio – não é um grande cantor mas, pro que se propõe, resolve. Além do quê, sua guitarra de sonoridade ímpar irá costurar toda a letra com um sem-número de frases melódicas improvisadas.



A música está em acorde menor, e a mão direita do batera Pick Whiters (tive que pesquisar esse nome, confesso) está nos pratos de contratempo. Aperte o play e vamos ao arranjo:



* * *


You get a shiver in the dark
It's raining in the park but meantime
South of the river you stop and you hold everything

(agora a música vai prum acorde maior e o batera vai pro prato de condução, o que dá um brilho especial ao trecho)


A band is blowing Dixie double four time (pan, pan, pa-paran-pan)
You feel alright when you hear that music ring


(volta pro acorde menor e o batera volta pro contratempo)

You step inside but you don't see too many faces
Coming in out of the rain to hear the jazz go down


(mesmo esquema: acorde maior, baterista na condução. isso acontecerá sempre durante a música)


Too much competition too many other places
But not too many horns can make that sound
Way on downsouth way on downsouth London town


(refrão instrumental, delicioso)



You check out Guitar George he knows all the chords
Mind he's strictly rhythm he doesn't want to make it cry or sing
And an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing



And Harry doesn't mind if he doesn't make the scene
(aqui um acorde bem roquenrol)

He's got a daytime job he's doing alright
He can play honky tonk just like anything
Saving it up for Friday night
With the Sultans with the Sultan of Swing


(refrão de novo, muito bom)



And a crowd of young boys they're fooling around in the corner
Drunk and dressed in their best brown baggies and their platform soles
They don't give a damn about any trumpet playing band
It ain't what they call rock and roll
And the Sultans played Creole (creole)



(agora, depois do refrão, vem o primeiro solo, que é o primeiro orgasmo dos guitarristas e apreciadores. Se fosse pra usar uma metáfora visual, diria que o som é cristalino; se escolhesse uma metáfora tátil, diria que é aveludado. Mas na linguagem corriqueira do dia-a-dia, me limito a dizer que é foda).



And then the man he steps right up to the microphone
And says at last just as the time bell rings
(vejam a habilidade do batera neste detalhe!)



'Thank you good night now it's time to go home'
And he make it fast with one more thing
'We are the Sultans, we are the Sultans of Swing'





E, finalmente, o último solo, o gozo final. É aí que Knopfler mostra sua técnica de tocar guitarra com os dedos, alternando entre indicador e polegar para produzir frases rápidas e, ao mesmo tempo, muito definidas. O êxtase da canção é no finalzinho do solo, quando ele toca a frase mais característica da música, aquela que todo guitarrista quer aprender – e que só fica perfeita daquele jeito se tocada com os dedos. O batera também aproveita e vai pro prato de condução, pra dar aquele brilho especial. Regozijo total. Depois, fade-out, fim da música, hora de acender aquele cigarrinho...




segunda-feira, julho 16, 2007

Chocolate

contribuição do camarada Lelo


Se eu dissesse que o Brasil esculachou a Argentina, que deu um sacode, um chocolate, provavelmente me acusariam de não estar sendo imparcial. Então, vamos à manchete do próprio Clarín sobre o jogo de ontem:




Una derrota cruel: Brasil fue más en todos los aspectos


La ilusión del título quedó hecha añicos. Más allá de hechos que fueron determinantes, el equipo de Dunga ganó en lo técnico, en lo psicológico y en el azar, que siempre pesa.







Azar, né? Suponho que nossos hermanos devem ter quebrado uma casa de espelhos, porque 24 anos sem ganhar... êita azar da porra!

sexta-feira, julho 13, 2007

Atocha!

Hoje é o dia mundial do rock. Apropriadamente, neste ano caiu numa sexta-feira 13.

Ah sim, também é o dia de abertura dos jogos Pan-Americanos, aqui na Cidade Maravilha Mutante. Mas, tirando o fato de que, pra muita gente, essa sexta virou feriado (eu mesmo só trabalharei até às 13hs), o carioca não parece estar muito animado com o tal de PAN.


Ontem à noite, passei de carro pela praia de Ipanema e, totalmente por acaso, tive a oportunidade de ver a tocha olímpica passar. Quase ninguém, além dos moradores locais, foi à praia saudar a dita cuja. À noite, no jornal da Globo, mostraram a passagem da tocha com closes bem fechados, para que não desse pra perceber que pouquíssima gente fez questão de presenciar o singelo evento.


Hoje de manhã, a promessa de trânsito caótico não se concretizou – e olha que moro próximo ao Maraca! O único congestionamento que vi foi em direção à ponte Rio-Niterói, principal rota para a região dos Lagos. De fato, a abertura do PAN parece significar, para o carioca, simplesmente a possibilidade de um fim-de-semana prolongado em Búzios, Cabo Frio ou outro balneário do gênero.


Da minha parte, ainda que pouco afeito a esportes, pretendo dar minha módica contribuição torcendo para a pequena Daiane dos Santos, com suas piruetas que desafiam a lei da gravidade. E, é claro, não poderia deixar de manifestar meu apoio a Beatriz e Branca, duas atletas tijucanas (quase minhas vizinhas, portanto) que irão representar o Brasil no nado sincronizado. É promessa de espetáculo – e não só pelo nado, como vocês podem conferir na foto das gêmeas abaixo.










Bom PANdemônio pra você! E, pros nossos atletas, deixo aqui o meu honesto conselho:



ATOCHA NELES ! ! !

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quarta-feira, julho 11, 2007

Manchete

Manchete que eu gostaria de ter visto na capa de algum tablóide carioca na segunda passada:




"Argentina pega o Peru e dá de quatro"




sexta-feira, julho 06, 2007

O primeiro disco de rock

Tinha eu oito anos em 1986. Meu pai já havia se separado da minha mãe, e morava sozinho na zona sul do Rio. Tinha um Puma conversível igual ao da foto ao lado, um carro que, nos anos 80, em termos de playboyzice, só perdia pro Miúra vermelho com néon no pára-choque. E sexta sim, sexta não, ele me pegava na casa da minha mãe pra passarmos o fim de semana juntos. Geralmente, íamos direto jantar numa churrascaria ou então passávamos no Caneco 70, onde ele bebia chope com os amigos enquanto eu comia batatas fritas com Coca-Cola, pra depois irmos pro tal apê de solteiro dele.


O cara morava num dois quartos em Botafogo. Num quarto, dormia ele. No outro, dormia sua guitarra (que me foi dada de presente mais tarde e que tenho até hoje), seu amplificador, uma pequena estante com livros de aviação e uma bateria, que me proporcionou muitos momentos de empolgação – não compartilhados pelos vizinhos dele.


Vai daí que, numa dessas noites, depois de voltarmos do Caneco, chegamos em casa e ele me conta que havia comprado um disco. E diz que eu poderia ouvir, só que baixinho, pois já passava de meia noite e era um disco de rock. Ele foi então dormir e eu fiquei lá, estirado no carpete, bem perto da vitrola e com os ouvidos grudados naquelas grandes caixas de som. E, depois da marcação forte dos ton-tons e surdos da bateria e dos primeiros acordes diminutos das guitarras distorcidas, vem aquela voz mórbida, como num mantra satanista, cantando:


Cabeça dinossauro, cabeça dinossauro, cabeça, cabeça, cabeça dinossauro!


O que era aquilo? Que tipo de som minimalista era aquele que tanto me intrigava?


Pança de matute, pança de matute, pança, pança, pança de matute!


É sempre bom lembrar que a capa de um disco de vinil é algo muito mais impactante do que a de um CD. E eu olhava praquela enorme cabeça dinossauro (na verdade um esboço de Da Vinci intitulado A expressão de um homem urrando), imaginava a “pança de mamute” e o “espírito de porco” da criatura, e aquilo já era o prenúncio que anunciava qual seria o tom e o clima da bolacha que eu ouvia com extrema curiosidade.




O disco Cabeça Dinossauro é o terceiro dos Titãs. Antes disso, os caras ainda faziam uma linha meio new wave, em músicas como Sonífera Ilha e Televisão. Com o Cabeça, enveredaram pelo lado mais cru do rock n’roll, influenciado pelo punk de poucos acordes e muita intensidade nas letras. E, de fato, as músicas do disco, cujos títulos são quase todos de uma ou duas palavras, disparam versos contra as instituições e o sistema capitalista de forma geral, o que se percebe em Igreja, Polícia, Família, Estado Violência, Tô Cansado, Dívidas, AA UU, A Face do Destruidor e Homem Primata.


Uma das músicas que mais assustou aquele garoto de oito anos de família católica, que foi batizado mas que não faria catecismo ou primeira comunhão, foi Igreja. Como é que os caras tinham coragem de dizer versos hereges como aqueles?


Eu não gosto de padre Eu não gosto de madre Eu não gosto de frei. Eu não gosto de bispo Eu não gosto de Cristo Eu não digo amém. Eu não monto presépio Eu não gosto do vigário Nem da missa das seis, não!

Eu não gosto do terço Eu não gosto do berço De Jesus de Belém. Eu não gosto do papa Eu não creio na graça Do milagre de Deus. Eu não gosto da igreja Eu não entro na igreja Não tenho religião.



Mas a música que acabou mais se popularizando, até por conta da proibição de radiodifusão, foi Bichos Escrotos, uma ode às baratas, ratos e pulgas, na qual os caras mandavam oncinha pintada, zebrinha listrada e coelhinho peludo irem se foder.



Finalizando, não poderia esquecer de O Quê, música que defino como a grande viagem de heroína de Arnaldo Antunes. Até hoje, a heroína é dificílima de se encontrar abaixo da linha do Equador mas, em 1985, Arnaldo e o guitarra Tony Belloto já haviam sido presos por porte da droga. E, no ano seguinte, os Titãs fechariam sua grande obra-prima com a seguinte letra:



O que não é o que não pode ser que
Não é o que não pode ser que não é
O que não pode ser que não é o que não
Pode ser que não é!
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é o que não pode ser
Que não é!







Hoje não gosto mais do Titãs (aliás, desde o Acústico), mas ainda considero Cabeça Dinossauro o melhor disco daquela geração BRock dos anos 80.





E o primeiro disco (de rock ou não) que te marcou, lembra qual foi?

terça-feira, julho 03, 2007

Sobre a "mercadorização" da vida moderna

Quando comecei a estudar sociologia, há relativamente pouco tempo – em 2003, pra ser exato –, o primeiro livro que caiu em minhas mãos (emprestado por Diana, uma de minhas amigas mais próximas) foi A Grande Transformação, de Karl Polanyi. E as teorias contidas no livro, a respeito da grande transformação que ocorreu na sociedade moderna do século XIX pra cá, também causaram uma grande transformação no meu modo de ver as coisas, pois que despertaram meu interesse neste fantástico (não achei adjetivo melhor) processo de preponderância dos valores econômicos sobre tudo mais que existe. Ou, pra ter mais a ver com o que pretendo dizer, da possibilidade de quantificação valorativa de tudo que existe.


O advento da sociedade de mercado abstrai as particularidades de todas as coisas, conferindo-lhes valores monetários – para Marx, o tal “valor de troca”. E Polanyi mostra como esta orientação mercadológica da sociedade burguesa, a primeira civilização a se basear em fundamentos econômicos, parte de um tripé fundamental, que é a quantificação valorativa do trabalho, da terra e da própria moeda, o dinheiro. Segundo ele, "a ampliação do mecanismo de mercado aos componentes da indústria - trabalho, terra e dinheiro - foi a conseqüência inevitável da introdução do sistema fabril numa sociedade comercial". Mas vejam o real significado destas três coisas para Polanyi:


"Trabalho é apenas um outro nome para a atividade humana que acompanha a própria vida que, por sua vez, não é produzida para a venda. Terra é apenas outro nome para a natureza, que não é produzida pelo homem. Finalmente, o dinheiro é apenas um símbolo do poder de compra e, como regra, ele não é produzido mas adquire vida através do mecanismo dos bancos e das finanças estatais".


Logo, Terra, Trabalho e Dinheiro não foram produzidos como mercadorias, mas apenas tratadas como se o fossem – e por isso, chamadas pelo autor de mercadorias fictícias (ou aparentes). E é esta transformação, ocorrida a partir da organização da economia através do mercado, que gera uma condição de subordinação dos homens ao capital e, consequentemente, um tipo alienado de sociabilidade, já que o nexo social entre os indivíduos, mediado pelo valor, exprime-se como uma “relação entre coisas” (nos termos do velho Marx).


Este é o tripé básico da “mercadorização” da vida moderna; todavia, conforme fui percebendo com o tempo, estamos tão mergulhados nesta realidade que não seria exagero afirmar que toda e qualquer coisa pode ser reduzida à lógica econômica. Até mesmo a própria vida, como vemos nos experimentos genéticos e na especulação do valor sobre remédios e tratamentos médicos, e também no ar que respiramos, como ocorre quando se estabelecem vendas de cotas de poluição para países mega-industrializados como nossos vizinhos ianques (um dos diversos assuntos levantados no excelente documentário canadense The Corporation).




E, é claro, não seria diferente com a cultura. As manifestações culturais e artísticas, as danças, rituais, os trabalhos artesanais, a subjetividade do homem como um todo, enfim, tudo pode ser economicamente mensurado pelo “espírito” capitalista de nossa sociedadezinha pueril. E quando a necessidade, real ou adquirida, de ter la plata no bolso emerge às vistas do homem, essa valoração mercadológica passa a assumir contornos nocivos, passa a se mostrar preponderante, passa a ditar as regras, orientar as práticas e influenciar as criações. Passa a objetivar a subjetividade.


Por isso, não devemos ficar surpresos quando vemos artesãos indígenas adaptando seus “produtos” de forma a “terem utilidade”, além de enfeitar a casa dos turistas compradores. Ou quando observamos que danças populares são formatadas em espetáculos para que as elites possam aplaudir de pé (após terem pago o ingresso, claro).


Sinal dos tempos: quanto mais submersos nesta lógica de mercado, mais difícil torna-se sequer notar o condicionamento econômico do qual até mesmo nossa subjetividade encontra-se refém.




* * *




(até que este seria um bom tema de doutorado... mas, sei lá, acho que vou banir esta idéia e fazer um MBA em marketing, que dá mais dinheiro...)