Ontem fui ao Canecão ver o show de divulgação do filme Brasileirinho, dirigido pelo finlandês Mika Kaurismäki. O filme, que já passou em vários cantos da Europa, chegou ao Brasil na semana passada. Ainda não fui vê-lo no cinema mas, pelo que li, sei que vou gostar muito. Criticaram o fato de que o filme se foca mais nas interpretações de choros do que sobre a história desse gênero musical – o que não me parece negativo, visto que sou músico e conheço provavelmente 99% do time escalado para aparecer no filme.Antes de ser gênero, o choro era, ainda no século XIX, a forma estilizada, chorada, que músicos brasileiros tocavam ritmos europeus como a polka, a mazurca, a valsa, o scottish. No início século XX, quando as baianas da Praça 11 (ou Pequena África, como era conhecida aquela região do centro do Rio de Janeiro) abriam suas portas para os músicos tocarem, o choro ganhava lugar de destaque nas casas, sendo tocado na sala de visitas – enquanto o ainda rudimentar samba era tocado na cozinha e os batuques de religiões afro ficavam restritos ao fundo dos quintais.
Embora o samba tenha sido o estilo musical escolhido para forjar a identidade nacional nos tempos de seu Gegê, o choro também ganhou notoriedade graças às belas composições de gente como Jacob do Bandolim, Anacleto de Medeiros, Antonio Callado, Ernesto Nazareth e o mestre inconteste, Pixinguinha. Apesar de geralmente ter uma estrutura fixa, com três partes (A, B, A, C, A, nesta ordem), há muito espaço para improvisações no choro, e muitos músicos virtuoses deixam a gente de cara com suas habilidades – eu, que sou chegado num virtuosismo, cito Raphael Rabello e Yamandu Costa no violão, e Hamilton de Holanda e Joel Nascimento no bandolim, além dos mestres supracitados e de uma porrada de gente que nem querendo eu conseguiria enumerar aqui.Minha ligação com o choro já foi maior, na época em que eu participava da Escola Portátil de Música, um projeto porreta capitaneado por Mauricio Carrilho, Luciana Rabello e sua gangue. Entre 2004 e 2005, eu tinha que brigar com meus amigos pra ir embora mais cedo do furdunço de sexta à noite para que, no sábado, às 9 da matina, eu estivesse firme e forte tendo aulas de história do choro, harmonia musical e prática de instrumento. Violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, sopros, cada instrumento tinha uma sala e um professor específico (hoje tem até canto por lá). Quando dava meio dia, juntavam todos os cerca de 200 alunos (hoje são mais ainda) e tocávamos, todos juntos, os dois ou três choros ensaiadas no dia. Sinto grandes saudades daquela bagunça organizada: cinquenta violões, trinta pandeiros, vinte cavaquinhos, quinze flautas, dois contrabaixos acústicos, saxofones, trompetes, trombones e muita disposição.

Essas recordações me vêm à memória sempre que vejo shows como o de ontem, onde músicos da primeira divisão do choro brasileiro como Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo Souza (os caras do Trio Madeira Brasil), Yamandu Costa, os irmãos Beto e Henrique Cazes, Nelsinho do Pandeiro e Cesinha (pai e filho), Tereza Cristina, Pedro Miranda, Zé da Velha e Silvério Pontes têm a oportunidade de dividir o mesmo palco e a mesma satisfação de tocar para um público numeroso e compenetrado. Torço pra que chorinhos e chorões continuem tendo espaço para que possam, com seus talentos, perpetuar este estilo tipicamente brasileiro, nascido e criado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.


























