domingo, março 25, 2007

O porco de Rogério das Águas




* * *




Eu ao lado de Roger Waters, no longínquo verão de 1973

sexta-feira, março 23, 2007

A incrível, triste e verdadeira história da prisão de Lyra e as agruras de um homem no cárcere privado de sua primavera madura

Por Arthur Coelho Bezerra




Fazia um calor ameno na manhã de segunda-feira, dia 12 de março, quando o fundador e faxineiro Diogo Lyra se dirigia para o seu trabalho no escritório do Fundo de Quintal Literário, que ocupa uma modesta sala em um prédio comercial do Bairro de Fátima. Como estivesse adiantado em seu horário, Lyra resolvera parar no botequim de esquina da rua Monte Alegre para tomar um pingado e comprar seu maço de cigarros, grande companheiro nos momentos de solidão que pontuam o seu fatídico dia de trabalho.



Não foi sem surpresa que Lyra, ao terminar seu desjejum, avistou um antigo amigo dos tempos de colégio, localizado no saudoso bairro do Irajá. Paulito cumprimentou-o com um largo sorriso, e Lyra dispôs-se chegar cinco minutos atrasado no escritório para ter a chance de ouvir o que a vida tinha reservado a este antigo colega – mesmo sabendo que era ele, Lyra, o responsável por abrir a porta para que a equipe do FQL pudesse dar início às suas atividades.



Paulito contou a Lyra que, embora a maior parte da sua renda mensal viesse do trabalho de michê, que desempenhava nos cantos ermos da rua do Lavradio, procurava trabalhar durante o dia como guardador de carros, ali mesmo, nas imediações da Monte Alegre. Diogo ouvia a história com um certo pesar, uma vez que seu amigo não tivera a mesma sorte que ele na vida. E foi neste momento que, comovido por uma lágrima que displicentemente rolara no rosto de Paulito, Lyra aceitou a proposta de tomar conta do ponto do amigo por não mais que cinco minutos, enquanto Paulito ia receber um dinheiro pelos serviços prestados na noite anterior. Lyra, que já fora muito gozador em sua juventude, resolveu experimentar os louros da maturidade e ser solidário com o antigo companheiro. “Tudo pela felicidade dos meus amigos”, foi o que disse com um sorriso sincero.


E passaram-se cinco, dez, quinze minutos. Lyra já se mostrava preocupado, porém não podia abandonar o amigo, e tampouco telefonar para alguém da equipe do FQL para justificar o atraso, pois que sempre fora relapso com os seus celulares que, invariavelmente, perdia nas noites de bebedeira intensa.



Já estava quase desistindo quando pára um carro importado, de vidros fumê, de onde brota um senhor gordo, engravatado, que se apresenta simplesmente como “advogado” e, jogando as chaves na direção do franzino faxineiro, pede, sem cerimônias, que este estacione o seu carro, lhe estendendo uma nota de dez reais. Antes de Diogo poder balbuciar qualquer coisa, o homem desaparece na multidão, deixando-o só com o veículo.


Quem conhece o nosso herói sabe: Diogo não tem a menor vocação para motorista. Mas o que fazer? Não podia deixar aquele veículo importado, caríssimo, parado em fila dupla no meio de uma rua tão movimentada. Queimaria o filme do amigo. Eis que novamente tomado pelo ímpeto da solidariedade, a frase “tudo pela felicidade dos meus amigos” ecoando em sua cabeça, Lyra decide encarar o desafio e entra no possante, procurando familiarizar-se com os pedais, sentindo o câmbio pela primeira vez em muitos anos, experimentando uma leve sensação de poder atrás do volante. Mas foi um momento breve.



Em poucos segundos, a sensação de segurança se transfigurou em completo medo quando Lyra sentiu o frio cano da arma lhe cutucar as costelas. Atrás da pistola, uma voz lhe ordenou em alto e bom som:




- feche a porta e pule para o banco do carona.











Continua...

quarta-feira, março 21, 2007

Rage e Ginsberg contra a Máquina



Pelo menos na minha geração, a banda que conseguiu estabelecer a melhor junção entre música e contestação sociopolítica foi Rage Against the Machine. Através de um som porrada, para o qual contribuíram diversas vertentes do rock e do hip hop, a banda californiana projetou sua raiva contra a máquina imperialista americana, engajando-se, entre outras, na causa dos guerrilheiros zapatistas e na defesa de Mumia Abu-Jamal, membro dos Panteras Negras, e de Leonard Peltier, índio da tribo Sioux (sobre o caso de Mumia você lê aqui, e sobre Peltier, aqui).


Embora o guitarrista do RATM, Tom Morello, fosse graduado em Sociologia pela Harvard (além de sobrinho do primeiro presidente do Quênia), as letras da banda sempre foram compostas pelo vocalista Zack de la Rocha, filho de uma antropóloga e de um artista de um grupo político ligado a agricultores mexicanos. Os de la Rocha entendiam bem o que significava ser chicano na “América”, uma realidade tratada em letras como People of the Sun e Without a Face.


Uma música, entretanto, chamou-me a atenção por não ter tido a letra escrita por Zack. Isto porque a tal canção, de título Hadda Been Playing On The Jukebox, é na verdade a declamação de um poema homônimo do beatnick Allen Ginsberg, escrito em 1975.




Em Hadda Been Playing On The Jukebox, Ginsberg narra diversos eventos ocorridos nos anos 60 e 70 – incluindo o assassinato de Kennedy –, fala de americanos poderosos como Rockefeller, Nixon, J. Edgar Hoover e Frank Costello, afirma que a KGB e o FBI pensam da mesma maneira e brada: “It had to be the CIA and the Mafia and the FBI”; “One big set of gangs working together in cahoots”.


Abaixo reproduzo o poema, conforme cantado por Zack no disco Live and Rare, lançado pela Sony Japan em 1998.



Hadda Be Playing On The Jukebox


It had to be flashin' like the daily double
It had to be playin' on TV
It had to be loud mouthed on the comedy hour
It had to be announced over loud speakers

The CIA and the Mafia are in cahoots

It had to be said in old ladies' language
It had to be said in American headlines
Kennedy stretched and smiled
and got double crossed by lowlife goons and agents
Rich bankers with criminal connections
Dope pushers in CIA working with dope pushers from Cuba
working with abig time syndicate from Tampa, Florida
And it had to be said with a big mouth

It had to be moaned over factory foghorns
It had to be chattered on car radio news broadcasts
It had to be screamed in the kitchen
It had to be yelled in the basement where uncles were fighting

It had to be howled on the streets
by newsboys to bus conductors
It had to be foghorned into New York harbor
It had to echo onto hard hats
It had to turn up the volume in university ballrooms

It had to be written in library books,
footnotedIt had to be in the headlines
of the Times and Le Monde
It had to be barked on TV
It had to be heard in alleys through ballroom doors

It had to be played on wire services
It had to be bells ringing
Comedians stopped dead in the middle of a joke in Las Vegas
It had to be FBI chief J. Edgar Hoover and Frank Costello
syndicate mouthpiece meeting in Central Park,
New York weekends, reported Time magazine

It had to be the Mafia and the CIA together
starting war on Cuba, Bay of Pigs
and poison assassination headlines


It had to be dope cops in the Mafia
Who sold all their heroin in America

It had to be the FBI and organized crime
working together in cahoots against the commies

It had to be ringing on multinational cash registers
A world-wide laundry for organized criminal money

It had to be the CIA and the Mafia and the FBI together
They were bigger than Nixon
And they were bigger than war

It had to be a large room full of murder
It had to be a mounted ass- a solid mass of rage
A red hot pen
A scream in the back of the throat

It had to be a kid that can breathe
It had to be in Rockefellers' mouth
It had to be central intelligence, the family, allofthis, the agency Mafia
It had to be organized crime
One big set of gangs working together in cahoots
Hitmen
Murderers everywhere

The secret
The drunk
The brutal
The dirty and rich
On top of a slag heap of prisons

Industrial cancer
Plutonium smog
Garbage cities
Grandmas' bed soft from fathers' resentment
It had to be the rulers
They wanted law and order
And they got rich on wanting protection for the status quo

They wanted junkies
They wanted Attica
They wanted Kent State
They wanted war in Indochina, yeah

It had to be the CIA and the Mafia and the FBI

Multinational capitalists
Strong armed squads
Private detective agencies for the oh so very rich
And their armies and navies and their air force bombing planes
It had to be capitalism
The vortex of this rage
This competition
Man to man
The horses head in a capitalists' bed

The Cuban turf
It rumbles in hitmen
And gang wars across oceans
Bombing Cambodia settled the score when
Soviet pilotsmanned Egyptian fighter planes

Chiles' red democracy
Bumped off with White House pots and pans
A warning to Mediterranean governments
The secret police have been embraced for decades
The NKPD and CIA keep each other's secrets
The OGBU and DIA never hit their own
The KGB and the FBI are one mind

Brute force and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money
Brute force, world-wide, and full of money

It had to be rich and it had to be powerful
They had to murder in Indonesia 500.000
They had to murder in Indochina 2.000.000
They had to murder in Czechoslovakia
They had to murder in Chile
They had to murder in Russia


And they had to murder in America.






E pra quem não conhece, é bom lembrar que Ginsberg não estava sozinho. Além de seu livro de poesias Howl (1956), outros pilares da geração beatnick são Jack Kerouack, com o clássico On the Road (1957), e o alucinado William Burroughs, com seus Junkie (Drogado, 1953) e Naked Lunch (Almoço Nu, 1959).

sábado, março 17, 2007

Enquanto isso, no céu...

O carioquíssimo maestro Tom Jobim, recostado em uma nuvem estacionada sobre o Rio de Janeiro, se abana alucinadamente e grasna:



- Ô São Pedro, cadê as águas de março pra fechar a porra do verão?






E o Santo, que deve ser paulista, mandou uma garoazinha de merda na noite de ontem. A primeira, diga-se de passagem, que cai sobre a cidade neste mês de março.

quinta-feira, março 15, 2007

Pornostalgia

"O único cinema real é o cinema pornográfico."
Jean-Luc Godard





Não estou certo da idade, mas devia ser por volta dos dez. Fui à casa de um vizinho jogar War, Super Trunfo ou algum outro jogo que já não lembro mais. O que me lembro bem é que chegaram alguns outros amigos deste meu amigo e colocaram um filme pra assistir na sala (nós jogávamos no quarto). Quando lá cheguei, atraído pelo inconfundível som de gemidos femininos, vi na TV aquela mulher de quatro, burrão pra cima, e o cara fazendo o seu trabalho, por trás. Acreditem ou não, estavam ambos dentro de uma piscina cheia de quadradinhos de isopor, algo que nunca mais voltei a ver, fosse em filme ou na vida real.

Era o primeiro filme pornô que assistia na vida. De lá pra cá, vários outros se seguiram e, durante as décadas que se passaram, muita coisa mudou no universo daquilo que carinhosamente chamávamos de “filmes de sacanagem”.

Acredita-se que o primeiro filme pornográfico foi La Bonne Auberge. Rodado na Paris de 1908, o filme mostrava prostitutas interpretando a si mesmas em cenas de sexo explícito. Mas foi somente na década de 70 que a coisa começou a crescer (aviso logo que vai ser impossível evitar os trocadilhos neste texto).

O grande responsável pela ereção da porno-indústria foi Gerard Damiano, que dirigiu, entre 1972 e 1973, os dois maiores clássicos do estilo: Garganta Profunda (Deep Throat) e O Diabo na Carne de Miss Jones (The Devil In Miss Jones). No Wikipedia consta que Garganta foi gravado em seis dias e teve o custo irrisório de 24 mil dólares, financiados pela família mafiosa Peraino. Arrecadou cerca de 20 milhões de dólares nos EUA e por volta de 600 milhões no mundo inteiro, tornando-se o maior sucesso do gênero pornô de todos os tempos.

Mas o que importa aqui é dizer que estes filmes tinham histórias, e histórias, em minha opinião, até interessantes. Miss Jones, por exemplo, foi uma mulher que morreu virgem e, por conta disso, iria arder no inferno (o que me parece muito justo). Mas ela consegue a permissão do Diabo para voltar à Terra e experimentar tudo aquilo que havia renegado em vida - incluindo bananas e animais.


Linda, de Deep Throat, descobre que não atinge o orgasmo porque tem o clitóris na garganta, o que leva a moça a enveredar pelo que os antropólogos costumam chamar de "cultura oral". É claro que ambas são histórias inverossímeis, diria até viajantes, mas servem de pretexto pra toda a putaria que daí se segue.

Nos famigerados anos 80, entretanto, os diretores pornôs começam a abandonar roteiros mirabolantes e partir pro vamos-ver da maneira mais direta possível, como no caso da moça com quadradinhos de isopor grudados na bunda, que vi quando moleque. Dois amigos perspicazes, Diogo Lyra e Bruno Cardoso, em um rompante de análise sobre a história do cinema pornô, batizaram essa fase anos 80 como a dos filmes fast-food – no que estavam cobertos de razão.

Mas aí chegaram os anos 90, os anos 00 e, com o desenvolvimento da internet, tudo mudou mais uma vez. Os filmes começam a dar lugar a cenas de poucos minutos, às vezes segundos, numa concepção funcionalista que crê que a duração dos filmes não precisa ultrapassar o tempo da punheta mais afobada. O erotismo e a insinuação caem por terra de maneira broxante, e é aí que começo a sentir saudades de um tempo que não vivi: o dos filmes de Gerard Damiano.

Existem várias outras questões ligadas a isso, como a proliferação, também astutamente detectada por Cardoso e Lyra, de vídeos amadores que seguem tendência similar a dos reality show que pululam na TV atual. Mas esses assuntos eu deixo pro espaço dos comentários, certo que estou do quanto outros olhares podem contribuir para fazer este tópico crescer - principalmente se forem olhares voyeurs.


...


Para os pornostálgicos, algumas dicas do que assistir:

1. Os dois filmes citados do Gerard Damiano, claro. Ele usava, como pseudônimo, Jerry Gerard.

2. Filmes que tratam das mudanças ocorridas na porno-indústria, como Boogie Nights e O Pornógrafo. Este último é um pouco chato, mas tem a vantagem de conter uma ceninha de sexo explícito.

3. Os Idiotas, de Lars Von Trier, que está aqui não porque é um filme excelente (o que de fato é), mas porque rola um bacanal no meio da história.

4. Qualquer filme brasileiro dos anos 80 com atrizes como Vera Fischer e Lucélia Santos, ou com Nuno Leal Maia. Também entra nessa lista o clássico Amor Estranho Amor, estrelando a eterna rainha dos baixinhos - como vocês podem atestar na foto abaixo.




Já a dica do que não assistir vai pra Brown Bunny, de Vincent Gallo. É o filme mais arrastado que já vi, motivado por um boquete nos últimos minutos que pode ser visto em qualquer Pornotube da vida.

E, para os de estômago fraco, Saló, os 120 Dias de Sodoma (Saló – Le 120 Giornate Di Sodoma) também não é recomendado. Neste filme, que transpõe as lições de "Os 120 Dias de Sodoma", do Marquês de Sade, para os últimos dias da ditadura fascista na Itália, sexo não é associado com prazer, mas sim com sangue, fezes e esperma. Talvez isto explique porque seu diretor, o italiano Pier Paolo Pasolini, foi brutalmente assassinado 20 dias antes do lançamento da película.





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Sobre a amizade

"A amizade é tal qual uma árvore: não basta que a plantemos, há de se regar constantemente seus ramos, para que floresça e nos brinde com seus frutos".


São Turos, o mais piegas dos santos.








terça-feira, março 13, 2007

Gerundismo do Futuro

Para Gigi, que sabe que português bem dizido não se correge



Tá bom, eu sei que a língua é uma coisa viva, em constante metamorfose. Sou um grande simpatizante de neologismos. Tampouco sou um xiita da língua, daqueles estilo MV Brasil que querem que e-mail seja sempre chamado de correio eletrônico – coisa que nunca faço, porque dá muito mais trabalho de falar.

O que eu condeno são adaptações esdrúxulas do informatiquês (neologismo, viram?) para a língua portuguesa. Deletar tudo bem, como evitar? Mas já ouvi gente dizendo linkar, atachar, e o que considero a pior de todas: printar. Porra, malandro, eu imprimo a merda da página, mas não me venha pedir pra printar que me arranha o ouvido, cacete!

Não é mau-humor nem é de graça. Existe uma linha tênue que separa a língua portuguesa do americanismo chulo. E, pra mim, o pior sintoma desse câncer lingüístico repousa no novo tempo verbal que está na boca de toda a população urbana carioca: o futuro do gerúndio.

O nome já é escroto, mas não consigo pensar em nada mais apropriado pra descrever essa nova “mania” verbal – que, aliás, inexiste na língua de Camões. Vejam bem: o futuro simples, aquele presente em construções como “eu irei à festa”, “acordarei às oito”, “viajarei na quinta”, ninguém usa mais. Virou tudo “vou viajar”, “vou acordar”, e até mesmo “eu vou ir à festa”. Tranqüilo, deixa rolar, também não sou nenhum purista, foda-se o nosso futuro (essa frase pode ser interpretada, inclusive, de outra forma). A gente usa o “vou” como auxiliar e pronto, taca o verbo no infinitivo.

Mas aí veio o fatídico e nocivo futuro do gerúndio, e vou lhes contar como tudo aconteceu:

Num belo dia, algum americano inventou uma profissão chamada telemarketing. E é claro que nós a importamos. O problema é que os manuais de teleatendimento e teleseilámaisoquê foram traduzidos, direto do inglês, por algum beduíno sem o menor conhecimento da língua, que abrasileirou o future continuous deles. Deu no que deu: do nada, comecei a receber ligações de bancos, lojas, planos de saúde e companhias telefônicas, e quando pedia pra me ligarem no dia seguinte – estratégia velha, mas que funciona – ouvia do telemarketeiro:

- Tudo bem, sr. Arthur, estarei retornando a ligação amanhã.

Vocês hão de convir que é um nojo. É não, era, porque agora isso se popularizou de tal forma, que não há um único indivíduo que eu conheça que não a utilize nos dias de hoje. Em qualquer empresa, é comum ouvir frases como “vou estar chegando às nove”. Aliás, desafio você, estimado leitor, a assumir aqui, publicamente, que nunca fez uso do gerundês futurístico. Eu mesmo tenho que confessar que já me peguei fazendo-o.

E, por favor, não me interpretem mal: não tenho nada contra telemarketeiros ou contra qualquer indivíduo em particular que se valha desta – a meu ver, nefasta – construção verbal. E digo mais: gosto da linguagem chula, chego a achá-la necessária, nunca corrigiria alguém que diz “os pessoal tudo” ou o velho “a gente vamo” (tadinho do meu corretor de texto, tá ficando maluco com essas citações!). Quero mais é que o professor Pasqualete vá pra puta que o pariu. Mas confesso que me dói ver gente que diz, cheio de pompa, como se estivesse citando Os Lusíadas, “amanhã estarei lhe enviando o documento”.

Se você leu esse texto e não ficou puto com o autor, se concorda minimamente comigo, então junte-se a mim e faça um esforço pra evitar o gerundismo do futuro.
Entre nessa campanha: pela pureza da língua portuguesa!


segunda-feira, março 12, 2007

As bochechas de Dizzy

Quando eu li que o desconhecido DJ tocaria rock, jazz e fusion na festa, confesso que desconfiei, mas fui assim mesmo. E não era brincadeira: quem esteve lá ouviu de Jimi Hendrix a Herbie Hancock, de Miles Davis a Black Sabbath, de George Benson a Led Zeppelin. E com projeções das capas dos discos tocados. Eu disse discos! É impressionante para os dias de hoje mas, acreditem, o DJ só tocou vinis. Daí vem o nome da festa, "33 e 1/3", em clara menção à rotação mais comum das antigas bolachas.

Em meio àquelas capas, deparei-me com um álbum ao vivo de Dizzy Gillespie. Embora não estivesse na foto, lembrei-me no mesmo instante de que o trompetista possui o mais ostensivo par de bochechas que já vi. E, pra sorte nossa, utilizava esta característica a seu favor.



sexta-feira, março 09, 2007

Guerra e publicidade

Parodiando Tolstoi, publico aqui uma foto/campanha publicitária como intróito para os próximos escritos...



Um Busha no Brasil


Existe um Busha entre nós. Vai ficar menos de 24 horas no Brasil – mais especificamente em São Paulo, graças a Deus – mas só o fato de estar em turnê, pelo que considera a América Latrina, já é motivo de sobra para levar milhares de manifestantes às ruas, de Brasília a Manaus, de Uberlândia a Salvador. Só em Porto Alegre, foram cerca de 1.300 em frente ao Citibank. Em Goiânia, o MST reuniu 800 na porta do Wal-Mart e do McDonald's. No Maranhão, o ato anti-Bush ainda contou com a presença do governador Jackson Lago, que ajudou a enforcar uma boneco do presidente americano.





Eu trabalho ao lado do consulado americano e, por volta das 17hs, não conseguia nem ouvir meus pensamentos. Com o já clássico bordão “Ei, Bush, vai tomar no cu”, cerca de 100 estudantes e partidários do PSOL, PC do B e PSTU jogaram pedras e bombas de tinta vermelha nas vidraças do prédio. A embaixada do Recife também foi colorida de vermelho. Ainda no Rio, manifestantes fizeram um minuto de silêncio pelas "mortes causadas pela política externa dos Estados Unidos" e em seguida arremessaram garrafas de Coca-cola e do McDonald's no consulado, "devolvendo o lixo exportado por Bush" (segundo diz o texto do JB).





Mas o bicho pegou mesmo em São Paulo, cidade onde o Busha está hospedado. Nada menos que 10 mil pessoas foram às ruas protestar contra o delegado do mundo, e a nossa polícia, com a gentileza de um mastodonte que lhe é inerente, acuada por não ter como reagir contra tamanha multidão, agiu com bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes, causando a situação bizarra que vocês podem ver nas fotos abaixo (também tiradas do site do JB).






Particularmente, não endosso “caminhadas pela paz” e abraços à lagoa, convencido que estou da total ineficácia de tais atitudes. Mas acho muito importante que ocorram, tanto no Brasil quanto em países como Colômbia, Uruguai, México e Guatemala, manifestações de protesto como as de ontem. Acredito que esta é uma boa forma de mostrar ao mundo a anti-popularidade do nazistinha texano, que acaba virando notícia em diversas fontes internacionais de informação (como vocês podem ver aqui e aqui, só pra citar dois exemplos).




Mas o mais belo de tudo foi ver, aqui na Cinelândia, os tais "cerca de 100 estudantes e partidários do PSOL, PC do B e PSTU" unirem-se às outras 200 pessoas que se concentravam na passeata pelo Dia Internacional das Mulheres, todos a par do quão convergente são as razões que levam ambos os grupos a protestar nas ruas do Centro do Rio.



quinta-feira, março 08, 2007

Chiquinha é que era mulher de verdade

"Toda mulher é meio Leila Diniz"

Rita Lee


Hoje é o Dia Internacional da Mulher e eu, no afã de prestar minha humilde homenagem, propus-me a discorrer sobre algumas mulheres que se destacaram nas artes brasileiras, pela bravura e coragem com que se impuseram no dominante mundo masculino. Tarefa, esta, que se mostrou impossível, frente ao incomensurável número de candidatas.

Afinal, como eu poderia levar à frente tal proposta sem falar de cantoras como Eliseth Cardoso, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Elis Regina e tantas outras? Seria possível deixar de fora da lista a pintora Tarsila do Amaral, autora do belo Abaporu, ou escritoras como Pagu – também de inspiração antropófaga – e Clarice Lispector? E como não mencionar Leila Diniz, atriz que protagonizou a primeira gravidez de biquíni que se tem notícia por aqui, autora de frases como "trepo de manhã, de tarde e de noite"?




Impossível tarefa a minha, como podem perceber. Resignado, acabei por eleger uma única mulher, que aqui representará simbolicamente o baluarte da presença feminina nas artes brasileiras e sua incansável luta por espaço e reconhecimento. Estou falando de Chiquinha Gonzaga.






Tida atualmente como uma das maiores compositoras e instrumentistas da música brasileira de todos os tempos, Chiquinha Gonzaga (1847-1935) possui uma obra que conta com mais de 2000 composições – sendo a marcha carnavalesca Ó Abre Alas a mais conhecida delas. Esta pianista carioca passou a vida enfrentando preconceitos – em site dedicado a ela, Maurício Oliveira revela que Chiquinha foi renegada pelos pais, desfez casamentos, ficou longe dos filhos e foi alvo de toda espécie de sátiras e piadas.

Isto porque Chiquinha, do alto de seus arroubos de um feminismo totalmente justificável, peitava a sociedade conservadora da capital federal da segunda metade do século XVIII. Numa época em que o violão era associado à marginalidade, como já mencionei aqui, Chiquinha utilizava esse mesmo instrumento sem pudores, como que estendendo a língua para os guardiões do conservadorismo. E acabou trazendo para seu lado Nair de Teffé, esposa do então presidente marechal Hermes da Fonseca, em episódio que merece ser narrado.

Em 1914, durante o evento de despedida do governo do marechal, realizado no Palácio do Catete (sede do governo federal), a “moderninha” primeira-dama saca um violão e dedilha, sem pudores, o tango popular O Corta-Jaca - autoria de Chiquinha - na presença da alta sociedade do Rio, além de boa parte do corpo diplomático. Reparem como este feito agradou o senador e “encilheiro” Rui Barbosa, segundo suas próprias palavras no Senado:


“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das boas maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de Wagner, e não se quer que a consciência desse país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”


Influência de nossa Chiquinha, seu Rui! Esta musicista brasileira, a primeira de destaque nacional e internacional, foi, de fato, uma guerreira, como atestam a sua participação em comícios contra a escravatura e seu engajamento na causa republicana – que podem ser lidos, em detalhes, aqui.






E, finalmente, encerro essa ode com uma bela frase da pianista: numa época em que o conservadorismo da sociedade carioca não admitia acintes como separações e divórcios, ao ouvir do (primeiro) marido a exigência de que escolhesse entre ele e a música, Chiquinha manda-lhe na lata a seguinte pérola:


“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia”.









É isso. Parabéns, principalmente às guerreiras.



terça-feira, março 06, 2007

1974

Em 1974, o bicho estava pegando no Brasil. Em meio à crise mundial do petróleo e o fim do chamado milagre econômico brasileiro, o penúltimo general do nosso período ditatorial, Ernesto Geisel, assumia a presidência anunciando o prenúncio de um lento processo de transição rumo à democracia.

Tal anúncio não impediu que o jornalista Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura e professor de comunicação da USP, fosse assassinado nas dependências do DOI-Codi em São Paulo no ano seguinte. Segundo Carlos Guilherme Mota, no livro Ideologia da Cultura Brasileira (2002, p. 291), esse fato gerou “uma discussão significativa sobre o papel do intelectual – e suas formas de organização – em face da atividade cultural e política”.

É no calor destes acontecimentos de 1975 que Florestan Fernandes publica A Revolução Burguesa no Brasil, livro no qual procurou avaliar historicamente o modelo autocrático-burguês em vigência; além disso, duas importantes obras sobre a História do Brasil tiveram, oportunamente no mesmo ano, uma segunda edição: Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, e Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal.

Mas se 1975 foi tão importante para a literatura histórico-social brasileira, creio que o ano de 1974 representou um marco para a música popular do país. Isso pode ser facilmente atestado com base no lançamento das obras de quatro dos nossos cantores e compositores de primeira grandeza: Chico Buarque, Jorge Ben, Gilberto Gil e Tim Maia.


Nos idos de 1974, Chico Buarque enfrentava sérios problemas com os censores do regime militar que, depois de terem sido feito de idiotas pela malandragem dos versos do compositor, passaram a proibir qualquer música que levasse a sua assinatura. O sagaz Chico saiu-se com essa: além de lançar o disco Sinal Fechado, de título auto-explicativo e contendo apenas canções de outras pessoas, criou um pseudônimo para si próprio – Julinho da Adelaide, que assinou três músicas, dentre elas “Acorda Amor”, gravada neste disco (Chame o ladrão, chame o ladrão!). A irreverência foi tanta que Julinho chegou a dar uma entrevista ao escritor Mário Prata, para o jornal Última Hora, que você lê aqui.



Jorge Ben, por sua vez, apareceu em 74 com o mágico A Tábua de Esmeralda, disco inspirado na obra do alquimista Hermes Trimegistos – como se vê nas músicas “Os Alquimistas Estão Chegando”, “Errare Humanun Est” e “Hermes Trimegistos e Sua Celeste Tábua de Esmeralda”. No blog Bolachas Grátis há uma bela resenha sobre o disco; aqui, além de “Brother” e “Zumbi”, belos odes à cultura afro-americana do norte e do sul, destaco a canção “O Homem da Gravata Florida”, que narra os fantásticos poderes de uma gravata que “é um jardim suspenso dependurado no pescoço de um homem simpático e feliz” (a letra, na íntegra, você confere aqui).



Sobre Gilberto Gil ao vivo, também de 1974, basta dizer que é, sem dúvida, seu disco mais lisérgico. Não cabe acrescentar qualquer comentário aos sagazes apontamentos do camarada Diogo Lyra, postados no seu Fundo de Quintal Literário, que você lê aqui.




E, finalmente, enquanto Chico militava na política, Jorge se inspirava na alquimia e o nosso atual Ministro da Cultura viajava na psicodelia, Tim Maia mergulhava fundo na Cultura Racional. Contam os passarinhos verdes que, após gravar dois discos inteiros em 1974, Tim se converteu à seita de Manuel Jacinto Coelho (uma espécie de Edir Macedo da ufologia, segundo dizem) e reescreveu todas as letras, lançando nos anos seguintes os discos Tim Maia Racional, volumes 1 e 2. Quem conhece sabe que os versos são pura lavagem cerebral, beirando o risível, mas a qualidade sonora e o suingue de sua banda são incontestáveis. Sobre como Tim Maia pirou com o livro Universo em Desencanto, você lê aqui.


Pra manter-me nos quatro exemplos, nem vou falar do emocionante Elis & Tom, do mesmo ano, e muito menos de Caetano, porque o único disco dele que realmente gosto, Transa, é de 1972. Encerro esse texto com a convicção de que, em 1974, enquanto o país estava fudido em termos de política, a criatividade musical dos nossos menestréis andava de vento em popa.

quinta-feira, março 01, 2007

LSD - 60 years


Uma imagem psicodélica pra homenagear a postagem abaixo...

Aos 27

Estou com 28 anos, o que significa que escapei da morte. Explico: desde minha adolescência, sempre temi chegar aos 27 anos, idade fatal para os adeptos do rock n’roll.

Alguns metaleiros satanistas que eu ouvia aos 15 anos diziam que se matariam aos 33, idade em que morreu Jesus Cristo. Além de pela-sacos, eram verdadeiros mentirosos, pois estão vivos até hoje. 27 é a verdadeira idade do cão para os roqueiros. Se não acreditam, acompanhem esse três exemplos contundentes:



Caso 1: Jimi Hendrix
Conhecido, entre outras coisas, por queimar sua guitarra no palco e passar ácido na testa para lamber o próprio suor lisérgico durante seus shows, Hendrix morreu em 18 de setembro de 1970, após tomar barbitúricos, dormir e ficar sufocado com o próprio vômito. Seu disco de estréia, Are You Experienced, é de 1967, o que significa que em apenas três anos de carreira – sem trocadilho dessa vez – esse guitarrista canhoto de Seattle marcou profundamente a história do rock, sendo considerado, por muita gente, o melhor de todos os tempos.






Caso 2: Jim Morrison
Vocalista do The Doors, já nos primeiros ensaios da banda bebia doses industriais de uísque misturado a comprimidos para se descontrair. Durante a carreira – não pensem em besteiras! – o Rei Lagarto passou a gostar tanto de LSD que, ao contrário dos outros integrantes da banda, engolia imediatamente qualquer ácido que ganhasse de seus fãs na rua. Morreu em Paris no verão de 1971, dentro de sua banheira, provavelmente por overdose de heroína.





Caso 3: Janis Joplin
Na reportagem da revista Trip consta que, desde a época do colégio, a louca costumava entrar de cabeça no uísque, na maconha, nas anfetaminas, no ácido, no tabaco, na vodca, na cocaína, na metadona, na heroína e no biscoito com marmelada. Quando veio ao Brasil, no ano do nosso tri, Janis foi expulsa do Copacabana Palace (por nadar nua na piscina) e quase presa na praia de Copacabana (por nadar nua no mar). Morreu de overdose de heroína quatro meses depois, em 4 de outubro de 1970 – portanto, dias após Hendrix, e alguns meses antes de Morrison.



Jimi, Jim e Janis, todos mortos aos 27 anos de idade.



Quando Kurt Cobain se matou, em 1994, também contava com exatos 27 anos. Na época, eu tinha 16 e achava Pearl Jam mil vezes melhor – não tive aquela formação punk de amigos como o Cascarravias, o que significa que, ao invés de músicas de três acordes de bandas como Ramones, Sex Pistols e Dead Kennedys, preferia as harmonias trabalhadas de Metallica, Megadeth, Pantera e Sepultura.

Voltando ao ponto: em 1994, achei que Kurt estava querendo era aparecer, metendo uma bala na cabeça pra entrar pro rol dos “mortos aos 27”. É claro que hoje percebo que, na verdade, o cara havia de fato chegado ao seu limite, e que a vida lhe seria insuportável depois disso.

Com Kurt são, portanto, quatro exemplos contundentes de roqueiros que se foram com a mesma idade. No rap, temos o exemplo de Mano Brown, do Racionais MCs, com os versos da música Capítulo 4, Versículo 3: “Permaneço vivo, luzindo a mística / 27 anos, contrariando a estatística”. No samba, temos o absurdo caso de Noel Rosa, que morreu tuberculoso aos 26. Mas no rock o bicho pega mesmo aos 27.



Aqui quem fala é Absurdos Turos, mais um sobrevivente.










Dedicado a Leo Andrada, que é roqueiro mas vai passar dos 27.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Buena Vista, malo gobierno

Quase todo mundo viu e muita gente se emocionou com o documentário Buena Vista Social Club (1999), principalmente nas cenas que mostram a apresentação daqueles senhores cubanos, hoje já quase todos mortos, no suntuoso palco do novaiorquino Carnegie Hall. Segundo a enciclopédia virtual Wikipedia, esse show “transformou a vida dessas pessoas”.


E também transformou a vida de um americano: Ry Cooder, músico e produtor que viajou a Havana em 1996 para reunir os músicos em questão, entre eles Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa e Rubén Gonzáles.

Porém, a vida de Cooder não mudou por causa do prêmio Grammy que recebeu, graças ao seu trabalho no disco Buena Vista Social Club, e sim pela multa de 25 mil dólares que levou do governo dos Estados Unidos, por ter gravado o disco com os cubanos sem a autorização governamental necessária.

Cooder não se intimidou; pagou a multa e manteve sua parceria com os cubanos. Até que, em 2003, tomou a porrada fatal, conforme informou a Folha de São Paulo de 22 de março desse ano:



"Após ser multado esta semana em US$ 100 mil por tocar nos discos de dois artistas cubanos -Manuel Galban e Ibrahim Ferrer-, o guitarrista Ry Cooder (que havia participado do filme-projeto "Buena Vista Social Club") disse anteontem que "provavelmente nunca mais poderá colaborar" com músicos daquele país. O governo dos EUA multou Cooder com base na norma Trading with the Enemy Act, que proíbe relações comerciais de cidadãos norte-americanos com Cuba, sob embargo desde 1962".





Ry Cooder fez um trabalho de incomensurável valor para a música e para a cultura cubana, mas é americano e pagou caro por isso. Se tivesse perguntado a opinião do diretor do Buena Vista, um conhecido alemão, teria certamente ouvido de volta:







Win Wenders e Aprendenders!

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Sobre a privacidade

Neste ano passei a metade do carnaval no Rio (até domingo) e a outra metade em Pernambuco, entre Recife e Olinda. Poderia dissertar, por longos parágrafos, a respeito dos contrastes entre ambos os estados, ressaltar seus pontos positivos e enaltecer, enfim, a festa do aval da carne, conforme é concebida nesses pólos culturais diversos. O assunto, todavia, será de outra natureza.

Durante os dias de festa – excetuando-se aqueles blocos em que os foliões são agraciados com jatos d’água em quantidade industrial – levei minha digi-cam para clicar os momentos mais cool das baladas. Enchi, propositalmente, esta última frase de expressões bestas pra levantar o ponto em questão: assim como eu, centenas de foliões empunharam seus aparatos eletrônicos – gravadores, mp3 players, celulares e câmeras – para digitalizar a bagunça. Em meio a tantos cliques, não foi difícil ouvir reclamações de pessoas que sentiam ter a privacidade vilipendiada pelos paparazzi que hoje se multiplicam na multidão festeira, especialmente naqueles blocos onde o consumo de substâncias ilícitas é via de regra.

Essa queixa junta-se às dos que buscam emprego e evitam participar de certas comunidades no orkut porque temem o crivo severo de alguns nazi-departamentos de RH. Sinal dos tempos: o espaço privado encontra-se cada vez mais enclausurado, tendo como um dos últimos refúgios a própria mente do indivíduo – até, claro, a ciência nos brindar com algum processo de leitura de pensamentos, que sirva de pré-requisito para cargos em grandes nazi-empresas.

A multiplicação e facilidade de uso dos equipamentos eletrônicos de gravação de som e imagem uniu-se matrimonialmente aos elevados índices de insegurança, gerando como fruto o fim da privacidade que, no entanto, aparece travestido de benesse social. “Não fornicarás no elevador” é o primeiro mandamento de quem tem a camerazinha apontada para si. Ou como diria BNegão: "Sorria! Você está com o filme queimado!"

Entretanto, ao invés de debatermos esta questão seriamente, parecemos exaltar a explosão e o crescimento fermentado do espaço público, nos tornando, como eu, como você e como quase todo mundo, blogueiros, orkuteiros e espectadores do Big Brother, escancarando na rede tudo aquilo que um dia fora de foro íntimo e nos sentindo impelidos à bisbilhotice da vida alheia.

Com tudo isso em mente, dessa vez resolvi guardar as dezenas de fotos que tirei nesses últimos dias de folia para mim e meus amigos, evitando a exposição demasiada – atitude que minha bonita com certeza aprovará. Mas afirmo que não tenho uma opinião unilateral sobre o assunto; só levanto a bola para, mais uma vez, provocar o amigo e incansável internauta a refletir sobre o tópico e botar a mão na cuíca.








Se você é exceção e não leu, corra atrás de 1984, de George Orwell. E aproveita e vá ler também Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Dois livros escritos na primeira metade do século XX que narram um futuro desprovido de espaço privado. A diferença: em Orwell, o governo impõe esta perda de privacidade; já em Huxley, é a própria sociedade que a deseja.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

tirinha

Fudeu! O Dahmer iniciou uma série impagável, chamada Pequeno Mundo Blogueiro.
Pra quem não conhece o trabalho do cara, dá só uma sacada no teor da tirinha:



Garanto que deu até pra ouvir a voz do Faustão no último quadrinho.

Quem quiser ver mais pode clicar aqui.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sobre a indústria fonográfica

Na semana passada fui a Recife participar da Feira Música Brasil, um evento que agrega rodadas de negócios – voltadas principalmente para músicos e selos independentes – e conferências, além, é claro, de shows – sexta passada, dia 9 de FRevereiro, além do aniversário de minha irmã mais nova, foi também o dia de comemoração dos 100 anos do frevo.

Mas o que eu quero mesmo é dividir com o leitor alguns dos dados e análises que os conferencistas explanaram acerca da situação da indústria fonográfica. Os que são do ramo, e creio que até os mais desavisados, sabem que a indústria fonográfica passa por profundas transformações, majoritariamente impulsionadas pelos avanços tecnológicos que, mediante a pirataria e o compartilhamento desenfreado de músicas e vídeos na internet, derrubou criticamente os índices de venda, alterando peremptoriamente a forma de atuação das grandes gravadoras – que no Brasil são quatro, cinco se contarmos com a Som Livre, que juntas detêm mais de 90% do nosso mercado de discos.

Fico a imaginar altos executivos de Warners, Sonys, Universais e EMIs da vida, batendo com a cabeça na parede na tentativa de arrumar uma maneira de manter seus índices lucrativos em alta, pra que tenham condições de manter suas picapes 4x4 de cabine dupla – além dos hábitos adictos que por ventura possam ter. Mas confesso que é um pouco difícil ficar triste com esse panorama, porque muito antes desta revolução tecnológica, quando as gravadoras detinham o monopólio do suporte físico (vinil ou CD), já engendravam práticas nefastas junto aos veículos de comunicação.

Quem já ouviu rádio sabe do que estou falando: em um dia inteiro de programação, metade (12hs) é preenchida com músicas, o que dá uma média de 450 canções tocadas – lembrando, por dia. Só que a prática do jabá faz com que, segundo palestrantes que ouvi, uma rádio toque de 150 a 200 músicas diferentes – POR ANO! Sendo o rádio o principal veículo de divulgação musical, não é exagero afirmar que a prática do jabá matiza, recrudesce, destrói a diversidade musical brasileira. E, como sabemos, essa diversidade é um dos nossos maiores orgulhos.

Hoje, com todas as mudanças tecnológicas apontadas, as majors não contratam mais um grande número de artistas, como costumavam fazer, nem apostam nas carreiras destes a longo prazo. Como sempre, a merda grassa pro lado dos empregados – nesse caso, os artistas.

Mas não priemos cânico, porque no fim do túnel as pequenas gravadoras e selos independentes empunham uma lanterna, modesta, mas que já ilumina o caminho a ser trilhado. É só comparar: no primeiro semestre de 2004, a Warner lançou 7 CDs no Brasil, enquanto a Biscoito Fino, que cresce a cada dia, lançou 19, segundo afirmaram os palestrantes. No site da Warner constam 17 artistas nacionais no casting, enquanto no da independente Deckdisc são 25 e no da Biscoito, especializada em música brasileira, são em torno de 150!

É claro que o buraco é bem mais embaixo – no bolso, exatamente. Os preços de CDs e DVDs são estratosféricos, então as classes baixas compram CDs piratas – que abocanham cerca de 60% da venda de discos hoje – e as classes médias e altas fazem download. Em termos de qualidade estas últimas se fodem, porque estão se acostumando a ouvir aquela merda comprimida que é o MP3, ao ponto de não conseguirem mais diferenciá-lo de uma faixa de áudio não comprimida.

Pra que o mercado fonográfico se reestruture, o governo precisa se coçar. Por exemplo, entender que disco é cultura, e que ao invés de pagar quase 40% do valor em imposto, poderia muito bem ter imposto zero, como ocorre com os livros. Outra atuação interessante – e, digo mais, urgente – seria cobrar das rádios uma programação diferenciada, algo inclusive previsto na Constituição, sob pena de perda de concessão. Bem que o moço do meu lado, que além de ministro é músico, poderia ajudar-nos nesse sentido... mas creio que há interesses adversos, sempre há interesses...





Quer perturbar o ministro com essas reivindicações? Faça-o aqui.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Sobre o texto sobre o boicote

O texto sobre boicote que postei aqui provocou um número recorde de intervenções, o que tornou impossível a tarefa de responder a todos. É claro que fiquei satisfeito em ver tantas opiniões divergentes, gente que nunca vi que concorda comigo, gente que conheço há mais de dez anos e que discorda de tudo. "Toda unanimidade é burra", diria Nelson Rodrigues, ou "viva a diversidade", como bradou minha amiga Lelê. De fato, o número de comentários só não foi maior porque alguns sagazes, captando o espírito da coisa, resolveram boicotar o próprio texto.

Mas algumas coisas eu gostaria de esmiuçar de forma mais clara: não sou contra os boicotes, muito pelo contrário, admiro as pessoas que têm culhão pra engendrar esse tipo de iniciativa. Principalmente quando os “boicoteiros” já passaram dos 20, contrariando a (bem sacada, vamos admitir) frase que o cartunista André Dahmer empresta ao grande Emir: “Ideais são enfeites que os jovens usam por 5 ou 10 anos”.

Minha opinião, na verdade, discute o resultado prático dos boicotes, que pra mim é muito baixo. Nisso concordo com o amigo Athos, quando este diz que dificilmente o palhaço Ronald perde o sorriso quando ele ou minha bonita deixam de consumir o delicioso Cheddar – até porque provavelmente o Pakkato deve ingerir, sozinho, a cota dos três juntos.

Outra crítica ao boicote é a mesma que, num plano mais pesado – que eu vou evitar de destrinchar aqui pra não ter que ler 250 intervenções me espinafrando – eu faria às ONGs que pululam no nosso sistema neo-liberalzinho de merda: o problema não são as iniciativas calcadas na vontade de fazer a diferença no mundo através de posturas ativas, mas sim deixar de cobrar dos governos a parte de responsabilidade social que lhes cabe, contribuindo para isentá-los das suas principais obrigações.

Resumindo, sou a favor de qualquer tipo de iniciativa contra-hegemônica, incluindo-se aí a prática do boicote. Mas creio que o idealismo e a energia que movem tal prática poderiam ser melhor empregados. Fosse eu de outra época, estaria agora citando os levantes populares como exemplo, mas infelizmente sou do tempo em que levante popular é a burguesia vestida de branco, no calçadão do Arpoador, em protesto à socialite que foi morta nas redondezas.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

batuque em Itaipuaçu

Começando pela esquerda, que é por onde se deve começar:
Lelê na cerva, Davos no triângulo, Arruda - aniversariante e anfitrião - no xequerê, minha bonita no caxixi, Santiago no djembê,
Guido no derbak e eu nas lentes.
Valeu Lord!

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

sobre o boicote

Enquanto idealista não-pragmático, só existe uma coisa que eu boicoto: o boicote. Minha bonita tem uma lista negra de empresas que ela boicota de maneira bastante convicta: McDonald’s, Coca-Cola, Shell, Esso, Nike e várias outras que, diariamente, tornam nosso mundinho um lugar pior pra se viver.

Eu, por minha vez, não tenho a iniciativa, a força, sequer a coragem de levar pra frente qualquer tipo de boicote, mesmo depois de ter assistido filmes como The Corporation – que, aliás, deve ser visto por todos os seres humanos que têm a vida afetada pela atuação das corporações multinacionais (será que alguém se inclui fora dessa lista?).

A verdade, pelo menos vista do meu ângulo, é que eu prefiro ser essa contradição ambulante do que ter uma opinião rígida sobre tudo. Assim, me sinto livre para acender um cigarro enquanto critico a indústria tabagista. Porque por mais que se queira estabelecer qualquer tipo de “consumo responsável”, creio que a própria expressão já traz em si uma inevitável contradição. Ou será que o mais responsável dos consumidores vai se recusar a entrar num carro, num ônibus ou num avião, potentes produtores de CO2, em protesto ao desenfreado aquecimento global?

Tem mais uma coisa: não levo fé na história do “cada um faz a sua parte”, como as histórias cor-de-rosa que o Betinho contava nos anúncios da Globo – lembram daquela do passarinho que tentava apagar um incêndio na floresta enchendo o bico de água? Pra mim é balela. Separar meu lixo em casa, talvez convencer mais dois ou três amigos heróicos a fazerem o mesmo, nada disso vai ter efeito num escopo mais amplo.

Eu acredito é em responsabilidades coletivas, impostas por governos caso preciso. Se iniciativas como o Protocolo de Kioto fossem levadas a sério, se as empresas que contratam mão-de-obra infantil fossem legalmente proibidas de vender seus produtos no mercado, talvez não seria tão forte a crença de que cabe ao cidadão comum, sozinho e deixado às moscas pelo Estado, correr atrás do prejuízo causado por pessoas jurídicas com alto poder de destruição.

Visto dessa forma, o boicote socialmente responsável é apenas mais uma forma de individualismo e, como tal, fruto dos demônios do capetalismo. E não é o boicote, mas só a responsabilidade coletiva que tira os demônios das pessoas.




Para saber mais sobre os efeitos nefastos de algumas corporações, assista documentários como Super Size Me (sobre o McDonald’s), Roger & Me (sobre a General Motors), The Big One (sobre a Nike), Beyond Citizen Kane (sobre a Rede Globo) e The Corporation (sobre várias delas).