quinta-feira, abril 24, 2008

O silêncio dos burgueses inocentes



Observe atentamente o quadro acima por alguns instantes, e depois tente responder para si mesmo as seguintes perguntas:


você gostou?
você reconheceu o pintor ou o estilo?
você entendeu?
Se não entendeu, ao menos tentou entender?



A pintura trata-se de uma obra de Pollock, intitulada Um (Number One). Foi pintada em 1948 e inscreve-se na tradição do expressionismo abstrato. Lemos no Wikipedia que Pollock desenvolveu uma técnica de pintura (criada por Max Ernst) chamada de “gotejamento” (dripping), ficando em pé sobre a tela e deixando a tinta pingar para elaborar, a partir dos pingos, uma obra de arte. A não-utilização de cavaletes e às vezes até de pincéis confere uma originalidade ao estilo, e é isso que será reverenciado por críticos e admiradores de arte. Não o conteúdo, mas sim a forma.


A “arte pela arte”, como queriam os poetas parnasianos e simbolistas da França do século XIX, é uma busca do primado da forma, que pressupõe o “distanciamento desinteressado” do espectador. Isto significa não estar preocupado com o que a obra de arte “quer dizer”, mas sim eleger como único objetivo da arte o prazer estético, alheando-se de quaisquer outros fins ou valores.


Esta manobra, obviamente, depende que o espectador disponha dos meios para engendrar este “distanciamento”, através de um lento processo de aprendizado. Mediante a educação artística pode-se reconhecer, por exemplo, que o quadro acima trata-se de um Pollock, ou que trata-se de um quadro expressionista – e este reconhecimento é que irá estimular o prazer estético.


Os indivíduos oriundos das classes baixas, desprovidos deste “capital cultural” (expressão do sociólogo francês Pierre Bourdieu), irão procurar algum significado naquele “borrão”, e não raro emitirão opiniões de repúdio, dizendo que “qualquer criança poderia fazer o mesmo”. Já a maioria dos indivíduos das classes mais altas, detentores do capital cultural mencionado, irão fruir esteticamente do quadro sem necessariamente buscar algum significado – ou seja, sem tentar entender o “borrão”.


E os burgueses médios ou em ascensão? Estes terão a reação menos espontânea de todas, uma vez que desejam marcar sua posição social (que está acima dos pobres) sem possuírem, no entanto, o capital cultural dos que estão no topo da hierarquia social (e por isso mesmo não precisam provar nada pra ninguém). A saída para esta situação é apenas uma: o silêncio.


Em nota do livro A Distinção, Bourdieu irá afirmar: “Às confissões pelas quais os operários diante dos quadros modernos denunciam sua exclusão (“não compreendo o que isto quer dizer” ou “isso me agrada, mas não compreendo nada”), opõe-se o silêncio entendido dos burgueses que, passando pela mesma confusão, sabem, no mínimo, que convém recusar – e, de qualquer modo, calar – a expectativa ingênua de expressão que denuncia a preocupação de compreender”.

sexta-feira, abril 11, 2008

Já vai tarde!

Charlton Heston






No sábado deste último fim de semana o inferno ganhou mais um ilustre morador. Charlton Heston, o famoso astronauta de Planeta dos Macacos (1968), o vencedor do Oscar de melhor ator em 1959 por Ben-Hur, o Moisés de Os 10 Mandamentos, morreu aos 84 anos, depois de um considerável período de hora extra na Terra.


Podíamos render-lhe uma homenagem por sua contribuição nas épicas obras cinematográficas supracitadas, não fosse a nefasta posição política que este ator assumiu junto a uma das instituições mais obtusas dos Us and A: o partido republicano.


A trajetória de vida de Heston não deixa dúvidas: seu coração batia mesmo no lado direito. Segundo o portal de notícias G1, o ator não hesitava em fazer campanha para candidatos republicanos e por várias vezes opôs-se publicamente a medidas políticas favoráveis aos negros e outras minorias. Não é à toa que o conservador John McCain, candidato à presidência dos EUA, referiu-se a Heston como "um líder na vida real".


Mas a maior mancha de sua carreira, creio, foi o apoio ao direito dos americanos de usar armas, postura que defendeu com unhas e dentes enquanto presidiu, por muitos anos, o NRA – National Rifle Association. Sua frase mais famosa, dirigida aos que apoiavam a proibição do uso de armas de fogo pela sociedade civil, era: “From my dead cold hands!”


No filme Tiros em Columbine, documentário de Michael Moore, não vemos a face do ator-herói em cima de uma biga (como em Ben-Hur), mas sim um senhor de idade que adota posturas bastante reprováveis, como visitar a cidade de Columbine para defender o uso de armas, dias depois do massacre no qual dois jovens estudantes mataram 15 pessoas em uma escola, usando espingardas, pistolas e um rifle semi-automático.


Foi ali que comecei a odiar esta figura, razão pela qual celebro o fim do que considero sua militância contra a vida. Finalmente, poderemos fazer o que o próprio Heston nos aconselhou: tirar as armas de suas mãos frias e mortas.

sexta-feira, abril 04, 2008

Menu Musical

Prato do dia (#3) - Mallu Magalhães


Sexta passada aconteceu, aqui no cidade maravilhosa, o show de encerramento do festival Evidente, produzido por Rodrigo Lariú. A grande atração era uma tal de Mallu Magalhães, e o próprio Rodrigo me disse: “cara, sei que é estranho eu te dizer isso, mas acho melhor você nem vir, o lugar tá mais do que lotado e você não vai conseguir entrar”.


Segunda-feira, na reestréia do programa do gordo mais pedante da televisão, lá estava a mesma Mallu Magalhães, que descobri tratar-se de uma paulista que canta e toca violão, banjo, gaita e escaleta. E o mais surpreendente é que estamos falando de uma garota de 15 anos.





Mallu já é um pequeno fenômeno na internet. Seu Myspace (veja aqui) já ultrapassou meio milhão de acessos. O vídeo dela tocando naquele programa que passa de madrugada, apresentado pelo garoto mais idoso da televisão, já foi visto mais de 100 mil vezes. No tal show lotado que perdi - o primeiro dela fora de Sampa -, diretores artísticos e demais picões das maiores gravadoras multinacionais se acotovelavam na primeira fila (conforme amigos me contaram depois). E tudo que ela tem gravado em estúdio, até agora, são as poucas músicas disponíveis na internet, que ela conseguiu gravar com o dinheiro que ganhou no seu aniversário de 15 anos.


Além da idade, o que há de idiossincrático é o fato desta menina de 15 anos, contrariando toda e qualquer tendência teen, ser fã de Bob Dylan, Johhny Cash, Belle & Sebastian, Elvis e Beatles. Enquanto a baiana Pitty, uma “senhora” de 30 anos, canta seu rock moderno para crianças e adolescentes, Mallu encanta adultos que poderiam ser seus pais e quiçá avós, com um repertório inspirado no cancioneiro folk norte-americano. E o faz sem tentar esconder os trejeitos juvenis que revelam tratar-se de uma menina meiga e cativante, que costuma batizar os próprios instrumentos como se fossem bichos de pelúcia e cujo caminho musical ainda tem muitas notas para serem percorridas.









* Destaque para as canções J 1, Tchubaruba (prestem atenção no piano) e para uma versão de Folsom Prison Blues, do fora-da-lei Johnny Cash.

sexta-feira, março 28, 2008

Sobre a propriedade intelectual



Escrevo este texto de supetão, no susto mesmo, pra aproveitar o gancho de uma discussão gerada no site da Rackel (tive que digitar o nome do site no link porque a autora colocou um script que te dá um esporro ao simples apertar do botão CTRL). A discussão, sobre propriedade intelectual, me é muito cara e envolve diretamente boa parte do meu trabalho profissional, que é relacionado a projetos culturais, bem como minha atividade acadêmica.


Primeiramente, quero deixar claro que sou favorável à preservação do direito autoral, no sentido filosófico da coisa. Acho que é não só uma gentileza, mas também uma questão de respeito que, ao utilizarmos obras de outrem, a autoria esteja explicitamente indicada.


Entretanto, isto não significa que tal proteção deva se revestir de uma pesada carapaça, impedindo a livre circulação de criações artísticas, descobertas científicas, técnicas e saberes. Especialmente levando-se em consideração a nossa imersão na lógica capitalista, penso que a circulação destas “mercadorias” artísticas e científicas não pode ficar submetida a interesses econômicos.


Nosso modelo de lei de propriedade intelectual é copiado (como quase todo o resto) do esquema de copyright americano. Segundo a lógica jurídica que rege a lei, se você, por exemplo, estiver rabiscando um guardanapo enquanto divide uma cerveja com os amigos numa mesa de bar, seus esboços já estão, em tese, protegidos pela lei. Se o garçom depois os colocasse na internet, você poderia, em tese, processá-lo por violação de direitos autorais. Existem tentativas de flexibilização desta lei canhestra, mas discuti-las seriamente daria material para uma dissertação de mestrado (o que foi feito, exatamente desta forma, por um camarada meu chamado Tiago Coutinho).


Em que pesem todas as questões ligadas à pirataria, seria contra meus princípios (sim, eu tenho alguns) defender uma postura que incentiva a monopolização dos conteúdos culturais e/ou científicos. Ao contrário, defendo a idéia de que todo conhecimento deve ser compartilhado, epenso o mesmo para as produções culturais. Textos, ensaios, poesias,artigos, músicas, vídeos, tudo deveria ser passível de livrereprodução, porque os vejo como patrimônio da humanidade, que contribuem para o desenvolvimento (cultural, espiritual etc.) das pessoas. Se você não quer que ninguém te copie, então melhor nem divulgar.


É claro que, se o cara usa a minha música pra ganhar dinheiro, ideal seria que alguns miguelitos também pingassem no meu bolso. E mesmo que não haja dinheiro no meio, se copiam o texto de outrem e não dão o devido crédito – porque lhes falta capacidade artística e/ou criativa e, por isso, preferem gozar com o pau dos outros – então eles que sofram suas dores de consciência (caso a possuam), e que sejam eventualmente desmascarados um dia.


Minha conclusão é a seguinte: tudo é referência! Afinal, quem é que faz um trabalho de faculdade sem referência? Quem é que escreve um artigo sem referência? Quem é que faz ciência sem referência? Certa vez, Isaac Newton disse que só chegou aonde chegou porque se debruçou nos ombros dos cientistas que vieram antes dele. E se tais ombros não estivessem acessíveis, será que ele teria brindado a humanidade com suas descobertas sobre ação e reação e as demais leis newtonianas?




* * *


Se você ficou a finzão de se inteirar acerca das alternativas que estão sendo pensadas para o modelo de copyright, vale uma visita ao site do Creative Commons. Até o nosso ministro Gil liberou os direitos de uma música para mostrar seu apoio ao projeto... e, obviamente, esta música não é nem Realce, nem Aquele Abraço e muito menos Vamos Fugir, já que essas são as que realmente rendem um trocado e ajudam a botar comida na mesa, né ministro?

segunda-feira, março 17, 2008

Sobre a vingança

Revenge, vengeance, vendetta. Desde pequeno, aprendi a apreciar filmes cuja temática assenta-se na Vingança. Dos filmes de terror trash com Jason e Freddy Krueger aos filmes policiais trash com Charles Bronson e similares, é o sentimento de vingança que encarna o verdadeiro protagonista, o mote que conduz a ação de heróis e vilões, exercendo, das entranhas à alma, uma dominação sobre a vontade, sobrepujando-se, enfim, a outras motivações (supostamente) nobres como amor ou dinheiro. Pois não há fortuna, vício ou paixão que possam sequer almejar equipararem-se à grandeza da obsessiva necessidade de se concretizar um belo e esquadrinhado plano de vingança.


Não obstante, em matéria de filmes sobre vingança os orientais costumam dar um banho nos americanos, cujas histórias são invariavelmente pueris e não dão conta da profundidade subjetiva desse sentimento. Só o cinema oriental trata disso com maestria. E nesta seara, o maior dos mestres que conheço é o sul coreano Park Chan-Wok.


Embora tenha filmado algumas histórias comerciais, o projeto que Park considera como o mais pessoal é uma série de três filmes sobre um mesmo tema. Sua “Trilogia da Vingança” é formada por Mr. Vingança (batizado em inglês de Sympathy for Mr. Vengeance, de 2002), Oldboy (de 2003) e Lady Vingança (em inglês, Sympathy for Lady Vengeance, de 2005). São três filmes excelentes, com argumentos originais e criativos e uma direção que foge dos lugares comuns tão caros à maneira hollywoodiana de se contar histórias.





Mr. Vingança, o primeiro da trilogia, tem como personagem central um jovem surdo de cabelos verdes que precisa adquirir um rim para sua irmã. Após gastar todas as suas economias no mercado negro, ter seu próprio rim roubado e ser demitido, ele decide apostar na idéia de seqüestrar a filha de seu ex-chefe para levantar uma grana e poder pagar o transplante da irmã. Desgraça pouca é bobagem? Pois piora. Dos três, é o filme com roteiro mais truncado, onde a motivação dos personagens vai sendo lentamente desfiada.






OldBoy foi o primeiro que assisti dos três (e na verdade a ordem dos tratores não altera o viaduto, já que os filmes não têm qualquer conexão além da sede de vingança dos personagens centrais). Há um ar de mistério perene no filme, que sempre guarda uma nova surpresa, mas o motivo da vingança é revelado logo no início: afinal, imagine ser seqüestrado por sabe-se-lá-quem e sabe-se-lá-por-quê, ser jogado num quarto somente com uma tevê, uma cama e um banheiro, e ser diariamente alimentado sem qualquer contato com os seqüestradores, sem saber quanto tempo permanecerá nesta situação, até ser finalmente libertado - também sem explicações - depois de estar preso no mesmo quarto por... 15 anos? Compreensivelmente, o desejo de vingança será a sua única – ainda que frágil – ligação com a sanidade mental.







Por fim, Lady Vingança é o filme mais fácil de se digerir, por possuir o roteiro mais simples e objetivo: trata-se de uma mulher que é injustamente presa pelo seqüestro e assassinato acidental de uma criança, cujo verdadeiro culpado é o seu marido. Embora não seja tão violento quanto os outros dois (é bom avisar aos mais fracos de estômago que não faltam cabeças, gargantas e até línguas cortadas em Mr. Vingança e OldBoy), este Lady Vingança não deixa de sê-lo, só que de forma mais sugestiva do que explícita, chegando a um final catártico cimentado na máxima “a vingança é um prato que se come frio”.



Não saberia eleger um deles como meu filme preferido, e por isso recomendo que assistam todos, na ordem que quiserem. Mas, antes de concluir este texto, quero deixar claro que, embora seja atraído pela temática, nunca vivi nem me imagino vivendo uma situação que me despertasse tais impulsos vingativos. Nesses casos, faço minhas as palavras de Dostoievski no genial “Memórias do Subsolo”:



“Já foi dito: o homem se vinga porque acredita que é justo. Quer dizer que ele encontrou a causa primeira, o fundamento: a justiça. Isto é, como ele está tranqüilizado por todos os lados, vinga-se calmamente e com êxito, convicto de que pratica uma ação honesta e justa. Mas eu não vejo nisso justiça nem qualquer espécie de virtude; se começar a vingar-me, será unicamente por maldade. Esta, naturalmente, poderia sobrepujar tudo, todas as minhas dúvidas e, de fato, poderia funcionar com pleno êxito em lugar da causa primeira, e justamente por não ser a causa. Mas que fazer se não tenho sequer maldade? O meu rancor, em virtude mais uma vez dessas execráveis leis da consciência, está sujeito à decomposição química. Quando se repara, o objeto volatiliza-se, as razões se evaporam, não se encontra o culpado, a ofensa não é mais ofensa, mas fatum, algo semelhante à dor de dentes, da qual ninguém é culpado, e, por conseguinte, resta mais uma vez a mesma saída, isto é, bater no muro, do modo mais doloroso.”







Pra quem gosta, há uma ótima crítica ao filme Lady Vingança no site Zeta Filmes, que pode ser lida clicando-se aqui.

quarta-feira, março 12, 2008

Princípio de Reciprocidade

Há pouco vi, no telejornal da noite, imagens do primeiro espanhol "inadmitido" em solo brasileiro. Foi em Fortaleza. O oficial, sem fazer a menor questão de sequer arriscar um portunhol, barrou o hispânico em alto e bom cearensês, uma vez que o gringo não apresentava endereço fixo no país - só ficava balbuciando "Jericoacoara". E a autoridade ainda completou: "estamos usando o princípio da reciprocidade e, sem endereço fixo, o senhor não entra no meu país".


Minutos mais tarde, venho até o Absurdos e vejo um comentário da Pati, uma das estudantes que foi (junto a um grande grupo de brasileiros) "inadmitida" na Espanha e, portanto, impedida de chegar ao congresso do qual participaria em Lisboa, pois no meio do seu caminho havia uma pedra - chamada "vôo com escala em Madri".


O episódio canhestro e vergonhoso despertou uma onda de apoio que pode ser lida no blog dela: P.R., 23 anos, 1.5m, terrorista internacional. Lá estão transcritas as cartas de protesto do IUPERJ (instituição onde ela estuda e onde eu já estudei, daí a proximidade da coisa), da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), da CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), uma Nota do Sindicato dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro e os textos da própria Pati e do Pedro, outro colega do Iuperj detido por 50 horas pelas autoridades espanholas.




ps - quando acabei de escrever este texto, entrei na net pra procurar uma foto do gringo e vi que mais sete hispânicos foram "inadmitidos" na cidade maravilhosa. Uma pena, porque amanhã vai dar uma praia...

terça-feira, março 04, 2008

Enxugando Gelo?

No filme O Gângster (American Gangster), de Ridley Scott, Russel Crowe interpreta um policial incorruptível que, em dado momento, descobre um milhão de dólares em poder de criminosos. Sabendo que aquele dinheiro seria interceptado e “confiscado” (leia-se roubado) por outros policiais de seu distrito, Crowe tem duas opções: ou fica com o dinheiro para si ou apreende e leva-o à delegacia - sabendo que esta segunda opção queimaria seu filme com os colegas policiais, que no seu lugar optariam por dividir o “ganho” ao invés de reportá-lo às autoridades.


Crowe faz a primeira escolha e passa a ser visto como um idiota metido a herói, e a partir daí perde todo e qualquer apoio da delegacia para suas operações. Sua honestidade, enquanto exceção, só atrapalhou sua vida profissional.


Mais adiante, o personagem de Denzel Washington dirá a Crowe que, de uma forma ou de outra, sendo ele honesto ou não, o dinheiro acabaria sendo desviado e dividido entre seus superiores. Já na prisão, Washington tenta oferecer a Crowe uma soma em dinheiro para se livrar das acusações de tráfico e assassinato, e lembra-o que, ainda que permaneça preso, outras pessoas ocuparão o seu lugar na venda de heroína no Harlem. É claro que Crowe, o certinho, nega o suborno.


A questão aqui é: tentar ser um fruto honesto numa árvore de corrupção é válido ou estar-se-ia apenas enxugando gelo? É possível ser um político probo em um partido corrupto? É possível ser um policial honesto numa corporação desonesta?


Quando traficantes são presos, lemos nos jornais a quantidade de armamento e drogas apreendidas. Dinheiro, nunca. Em muitos casos, os lucros das bocas de fumo estouradas, bem como relógios e outros objetos de valor, são apreendidos pelos participantes da operação, sob o curioso nome “espólio de guerra”. E se fosse você, aceitaria receber sua parte? Acreditaria na história de que esse dinheiro veio de viciado e, portanto, não tem dono? Ou não aceitaria o dinheiro mas teria medo de denunciar os envolvidos, tornando-se portanto conivente?


Todo mundo reclama da corrupção, mas não parece haver um interesse real em combatê-la de maneira eficaz. O cara que reclama do policial desonesto prefere dar 50 pratas pro “seu guarda” do que ter o carro apreendido. Pessoas enchem a boca pra falar de honestidade e de igualdade para todos, mas quem negaria um ingresso especial para furar filas de shows e jogos de futebol?


Pode parecer exagero, mas às vezes tendo a achar que, em muitos casos, a honestidade que se almeja não passa de uma grande hipocrisia. E sem medo de usar o maior de todos os clichês, ouso afirmar: a culpa é da cultura propagada pelo sistema capitalista.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Só podem estar de sacanagem

Manchete do jornal O Globo de hoje (sobre a recuperação de computadores com informações sigilosas da Petrobrás que haviam furtados):



"Furto na Petrobrás foi crime comum e não espionagem"




Na capa do Jornal do Brasil, lê-se: "Segundo a Polícia Federal, eles (os ladrões) não sabiam que tinham roubado dados sobre o Campo de Jupiter, megafonte de gás que a estatal anunciou ter descoberto em Janeiro".


...



Manchete do Globo online sobre fato ocorrido hoje:


"Sargento da PM é assassinado com mais de 30 tiros na linha Amarela"






Frase extraída da notícia: "Policias do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE) acreditam que o crime teria sido uma tentativa de assalto, mas por causa do grande número de marcas de tiros no veículo, não está descartada a hipótese de execução" (grifo meu).

http://oglobo.globo.com/rio/mat/2008/02/29/sargento_da_pm_assassinado_com_mais_de_30_tiros_na_linha_amarela-426019778.asp



...



Casca, me diz uma coisa: alguém aí tá achando que a gente é palhaço?


terça-feira, fevereiro 26, 2008

Ditado Flamenguista



Antes Tardelli do que nunca!








Na foto, Diego Tardelli comemora o gol feito aos 46 do segundo tempo,
que deu a vitória (de virada) ao Flamengo, campeão da Taça Guanabara de 2008.






sexta-feira, fevereiro 22, 2008

A liberdade que Cuba lança

Mil reflexões podem ser feitas a partir da saída de Fidel Castro do poder cubano. Mas com tantos discursos que deturpam e prostituem o significado da palavra "liberdade", usada sem moderação pelos candidatos à presidência norte-americana quando se referem ao futuro que desejam para a ilhota embargada, prefiro ficar com o singelo desenho do cartunista Angeli, corroborando a máxima que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras:








E tenho dito.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Música e moralidade

- Creio que a música me agrada por sua completa ausência de moralidade. Todo o resto é moral, e procuro algo que não o seja. O moral nunca me trouxe nada que não seja doloroso.


(...)


- Afirmaste certa vez - disse-me um dia - que a música te agradava por ser totalmente destituída de moralidade. Está certo. Mas o que importa é que tu também não sejas moralista. Não há porque te comparares com os demais, e se a natureza te criou para morcego, não deves aspirar a ser avestruz. Às vezes te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos dos da maioria. Deixa-te disso. Contempla o fogo, as nuvens e quando surgirem presságios e as vozes soarem em tua alma abandona-te a elas sem perguntares se isso convém ou é do gosto do senhor teu pai ou do professor ou de algum bom deus qualquer".




Trechos extraídos do livro Demian, de Herman Hesse.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

O aposentado de Copa

O senhor de pele clara e olhos verde-acinzentados pode ser encontrado no Pavão Azul, local para onde fui levado por minha bonita por indicação de amigos dela. O pé-sujo incrustado em Copacabana oferece o mínimo que se espera de qualquer boteco: cerveja gelada de garrafa e um petisco decente – no caso, pasteizinhos. Cheio de gente, tivemos que esperar uma mesa vagar, e o simpático senhor que bebia sozinho em uma das mesas – vamos aqui chamá-lo de Seu Copa – gentilmente convidou-nos a ocupar as cadeiras vazias.


Naturalmente, não pudemos declinar o convite, nem esquivar-nos do papo que Seu Copa já engatou antes que pudéssemos esquentar os assentos daquelas cadeiras de plástico. Como Seu Copa mencionava antigos presidentes, rapidamente apurei o ouvido na esperança de ouvir histórias interessantes dos tempos de outrora. E mais rapidamente ainda, Seu Copa começou a revelar traços marcantes de seu posicionamento político.


Sempre afável, de fala mansa e pausadamente, Seu Copa desculpava-se por ser uma pessoa antiquada, e dizia que ainda tinha muito que aprender com os novos tempos. Porém, em que pesassem essas revelações, Seu Copa defendia que a miscigenação representava um risco para a integridade das culturas; para ele, uma vez que brancos e pretos (termos usados por ele) se misturassem, tanto a cultura negra quanto a cultura branca seriam diluídas e sairiam perdendo. E concluiu que melhor seria se os brancos ficassem entre os brancos e os pretos entre os pretos, aproveitando para posicionar-se contra o regime de cotas para negros das universidades.


Neste ponto, Seu Copa apressou-se em dizer que não era racista, que inclusive tinha amigos pretos, “alguns até mesmo com doutorado”, e que estes mesmos pretos doutos achavam uma humilhação ter algum tipo de vantagem competitiva (quase pude imaginá-los aplaudindo uma suposta sociedade meritocrática).


Daí pra frente, enquanto as garrafas de Original pousavam em nossa mesa, fui questionando Seu Copa sobre seu passado. Contou-me que era aposentado da FAB (onde meu pai trabalhava como piloto quando nasci) e que viveu os anos da “revolução”, referindo-se ao golpe militar de 1964. Disse-me que, àquela época, teve que fazer uma escolha entre o comunismo de Fidel e a “liberdade que os Estados Unidos traziam”, optando, assim como a maioria de seus colegas, pela segunda opção. Orgulhoso, abriu um sorriso para contar que, hoje, tinha a certeza de ter feito a escolha certa.


Daí pra frente, nossos amigos chegaram e já éramos sete pessoas na mesa – contando com nosso ilustre personagem, que dizia sentir-se muito bem na companhia da juventude e aproveitou para pedir uma farta rodada de pastéis para a mesa, por sua conta. Vendo seu grande interesse por assuntos da política e sua marcante postura em assuntos deste campo, passei a citar alguns personagens da nossa história recente para extrair suas opiniões e impressões. Revelei, por exemplo, que guardava alguma simpatia por Jango, o presidente deposto pelo regime militar. Para Seu Copa, Jango foi “um fraco que se deixou levar” – no caso, pelos ideais socialistas, que realmente não parecem fazer a cabeça do aposentado de Copacabana.


- E quanto a Lamarca, o que o senhor acha dele?
- Esse foi um traidor filho da puta! Não gosto nem de ouvir o nome.
(...)
- E o Che Guevara?
- Um assassino repugnante! Um assassino, um filho da puta!
(...)
- E quanto ao Brizola, seu Copa?
- Odeio! Odeio o Brizola! O Brizola acabou com o Rio de Janeiro por causa dessa simpatia que ele tinha com as favelas.



Não há, garanto, qualquer exagero nas declarações supracitadas. Pra dizer a verdade, fui ficando tão impressionado com o depoimento de Seu Copa que puxei um guardanapo da mesa, saquei uma caneta da mochila e comecei a anotar as frases do aposentado, que saíam pausadamente de sua boca, enquanto aqueles olhos nórdicos sorriam para os convivas presentes à mesa.


À exceção de uns poucos e delicados momentos, procurei não discordar daquele senhor, talvez por estar um pouco cansado deste papel, talvez por acreditar que dificilmente alguma coisa mudaria na cabeça dele àquela altura. E tenho certeza que Seu Copa foi dormir com um largo sorriso naquele dia, feliz por ter passado bons momentos na companhia da juventude.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Tambores pré-carnavalescos

Alô povão, agora é sério! Carro de som, dezenas de ritmistas, centenas de foliões, muita chuva, trânsito congestionado, cenário caótico... o carnaval chegou às Laranjeiras!


As fotos abaixo são do bloco Imprensa que eu gamo, formado por jornalistas e que há anos desfila pelo bairro. Neste 2008, o dia não poderia ter sido mais apropriado: domingão, 20 de Janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.


A última foto, que tirei da janela de casa, mostra como o bagulho estava frenético. E se a carne é de carnaval, o coração é igual.


















terça-feira, janeiro 15, 2008

Sopros pré-carnavalescos

A tônica deste fim de semana coube a duas bandas de nome grande e com grande diversidade de instrumentos de sopro, indo do grave do trombone ao agudo da flauta transversa, passando por saxofones, trompetes, gaita e clarinete - naipes de metais que anunciam o carnaval vindouro!





A banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju é formada por 10 músicos, dentre os quais um flautista, dois saxofonistas, um gaitista e um trombonista ensandecido, como se vê na foto acima e na foto abaixo, tiradas durante a apresentação dos caras no Circo Voador, sexta passada. Entre levadas de rock, samba e ska, um pé fincado nos ritmos latinos e muita disposição no palco. Impressionante ver centenas de cariocas cantando várias letras de uma banda ainda desconhecida do grande público - um clima que lembra (guardadas as devidas proporções) os shows do Los Hermanos (o som do Móveis tem, inclusive, várias passagens que me remeteram ao primeiro disco dos barbudos da PUC-Rio).








E por falar em Hermanos, o que dizer de uma banda que possui músicos do Brasil, Argentina, Colômbina, Chile e Venezuela, e que tocam ritmos como salsa, cumbia, merengue, frevo, reggae, choro e samba? É simples: mistura com cachaça que fica muito bom.







A banda Songoro Cosongo (que se apresenta sábado no Humaitá Pra Peixe) possui 8 integrantes, mas o bloco de carnaval que leva o mesmo nome e que está ensaiando todos os domingos de Janeiro em Santa Teresa contava, anteontem, com quatro trompetes, quatro saxofones, quatro trombones, uma flauta, um clarinete e cerca de quinze percussionistas, entre agogôs, claves, caixas, alfaias, timbales e tamboras. Foi o primeiro ensaio de bloco do qual participei neste Janeiro - mês que será, aliás, muito curto para abrigar tantos blocos e fuzarcas organizadas para o esquenta do carnaval que, apesar de só começar oficialmente na virada do mês, já parece estar em curso pra muita gente.




segunda-feira, janeiro 07, 2008

A sua segurança é um problema seu

O filme Nação Fast Food, de Richard Linklater, é uma mistura de Super Size Me com Pão e Rosas. O primeiro todo mundo conhece: é aquele documentário no qual o cara resolve passar um mês só comendo produtos vendidos no McDonald’s. Os resultados da “dieta do palhaço” são catastróficos, com destaque para o momento em que o cara, à revelia dos conselhos de seus médicos, diz que prosseguirá com a dieta até o fim. Um dos médicos tenta convencê-lo a tomar pelo menos alguns complementos alimentares, para não descaralhar com sua saúde por completo. E o maluco responde: “não posso, esses complementos não são vendidos no McDonald’s”.


Já Pão e Rosas é um excelente filme do também excelente diretor Ken Loach, cujo roteiro é centrado na imigração ilegal de mexicanos, que vão para os “Us and A” ser capachos dos americanos, atraídos por salários do maravilhoso mundo dos subempregos que, mesmo sendo baixos, superam em muito as cifras pagas na terra natal de nossos hermanos chicanos.


Nação Fast Food toca nestes dois pontos ao mostrar a história de um grupo de imigrantes mexicanos, que cruzam a fronteira ilegalmente para trabalhar na linha de produção dos hambúrgueres que engordarão os adiposos estadunidenses – desde o abate dos bois até a produção dos hambúrgueres em si, passando por todos aqueles processos aprazíveis de tiragem de pele, separação de rins e estômago, drenagem de litros e litros de sangue... uma beleza.


O ponto é que estes trabalhadores recebem 10 dólares por hora, pagos em dinheiro ao fim do dia (U$ 80), enquanto no México (segundo é dito no filme) receberiam algo em torno de “five bucks a day”. O personagem de Bruce Willis, que faz uma ponta de 5 minutos no filme (embora apareça na capa como ator principal), diz que “admira essa gente”, porque são “hardworkers”. Alguém aí acredita que trabalhar nos EUA nesses termos é uma oportunidade de ouro? Bom, como diriam os próprios gringos, think again.


Os mexicanos recebem dinheiro “in cash”. Por serem ilegais, não podem ter carteira assinada ou coisa parecida. E como o trabalho envolve riscos, assistem de tempos em tempos a vídeos sobre segurança no trabalho, que enfatizam que “a segurança depende de você”. Ou seja, os contratantes praticamente lavam as mãos e se esquivam de toda e qualquer responsabilidade ao colocarem trabalhadores não-especializados em contato com máquinas perigosas que ocasionalmente lhes cortam dedos, mãos, às vezes pernas inteiras. E quando algum trabalhador desses sofre um acidente, são feitos testes no hospital para detectar a presença de substâncias ilegais no sangue. Ora, é sabido que muitos destes trabalhadores precisam dobrar turnos e ter dois empregos para pagar suas despesas na “land of oportunity”, o que muitas vezes exige o uso de meta-anfetaminas e outras drogas do gênero. E se a empresa encontra tais drogas no sangue do funcionário, pode demiti-lo sem pagar qualquer direito, sem pagar sequer o tratamento feito por causa de um acidente de trabalho, ocorrido dentro da própria empresa.


E o pior é que nem precisamos ir até o outro lado da América para observar este comportamento. Esta manhã, por exemplo, ao pegar o metrô para o trabalho, ouvi algumas “dicas de segurança” pelo alto-falante da estação, tais como andar com a mochila na frente do corpo, não botar o celular no bolso de trás etc. A mensagem terminava com a seguinte pérola: “cuidar da sua segurança também é responsabilidade sua”.


Quer dizer que até dentro do metrô as autoridades se isentam da responsabilidade que possuem? Quer dizer que a garantia de segurança cabe a mim mesmo? Quer dizer que devo mudar de idéia em relação à minha postura pró-desarmamento, cagar para o postulado weberiano de monopólio da violência pelo Estado e comprar uma 9mm ou uma 380 para assumir minha própria “segurança”?



Essas são as questões que me afligiram durante o dia de hoje. E como este blog é construído com a ajuda dos leitores, queria saber a opinião de vocês em relação a estas questões, aproveitando para fazer uma pergunta que vai de encontro a este tema: vocês concordam com a proposta de algumas associações de moradores de impingir um boicote ao pagamento do IPTU, já que o imposto serviria, entre outras coisas, para o Estado garantir segurança para os contribuintes, função que há muito não consegue exercer?



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sábado, dezembro 29, 2007

Mudança



Há mais de um mês eu procurava sair do perrengue que é levar mais de uma hora pra chegar ao trabalho e quase duas pra voltar pra casa. Visitava sites de imobiliárias quase diariamente, e fazia o difícil percurso de conhecer um número incomensurável de apartamentos, a grande maioria toscos e apertados.


Esta é uma diferença marcante entre a zona norte e a zona sul do Rio de Janeiro. Naquela, os apartamentos são suficientemente amplos, enquanto nesta qualquer quarto e sala é um ovo, não de avestruz ou galinha, mas de codorna mesmo. As pessoas que realizam a transição zona norte - zona sul geralmente se contentam em morar em cubículos, já que, afinal de contas, estão indo para a zona sul. Não foi o meu caso. Minha mudança tinha a ver com a distância e com as intermináveis horas que eu perdia de vida dentro de ônibus, muitas vezes lotados. Por isso não bastava ser zona sul no sentido estrito do termo – ou seja, Copacabana, Ipanema, Leblon. Não queria nada disso, mas sim um lugar que fosse bem perto do trabalho. Por isso, me concentrei na área que considero “centro-sul” do Rio: Flamengo, Catete, Laranjeiras (a parte baixa, claro).


E foi neste último bairro que consegui ser feliz: uma sucessão de acasos e lances de sorte fizeram de mim um ilustre morador do bairro das Laranjeiras, a uma quadra do metrô do Largo do Machado, a quinze minutos (e não mais 1h40) do trabalho. A Internet foi instalada há pouco, e posso finalmente voltar a escrever, ler e-mails, essas coisas. Mudar é um perrengue sem tamanho, e a sensação de ansiedade com todas as mudanças se mistura ao estresse de resolver pendengas com Light, CEG, Telemar, Oi, proprietários, administradores e cartórios.


Mas o mais difícil é adaptar-se a viver no olho do furacão. Até semana passada, eu morava no pacato bairro do Grajaú, que um amigo chamara (com certo exagero) de “a Urca da zona norte”, tal a tranqüilidade do bairro, com suas ruas cheias de tamarindeiras, seus botecos com bêbados conhecidos (e não alcoólatras anônimos) e suas confeitarias magistrais (me dói saber que o Vilamore não estará mais a passos de distância). O silêncio reinava no meu apartamento – a não ser quando era eu mesmo o causador de barulhos até altas madrugadas, que já me renderam penosas multas de três dígitos.




visual da minha janela no Grajaú, com ampla área verde
e o Morro dos Macacos ao fundo.





Agora, parece que estou no centro de convenções da Babilônia: carros, ônibus, comércio, lojas Americanas na porta de casa, mil pedestres pululando por todos os lados, um frenesi rasgado. Sei que sentirei falta do meu cantinho aprazível da zona norte, mas não há nada que pague a tranqüilidade de se morar perto do trabalho e, claro, do boêmio bairro da Lapa, destino de 90% das minhas incursões noturnas.




visual do novo apê em Laranjeiras, com a pontinha do Morro da Urca
e do Pão de Açúcar de brinde.



Ano novo vem aí e, já que estou no caos urbano mesmo, e valendo-me da máxima de que um peido a mais não é nada pra quem já está cagado, passarei o reveillon em Copacabana, na companhia de 2 milhões de pessoas e ao som de 22 mil bombas e fogos de artifício. Quem viver verá.



Beijos a todos e boas entradas, independente de sua preferência.


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terça-feira, dezembro 11, 2007

Show dia sim, dia não


Quinta-feira: Paulinho da Viola no Canecão



Sempre tive uma birra com o Canecão. Mesmo estando localizado em terreno da UFRJ, e pagando um aluguel irrisório, eles insistem em cobrar preços exorbitantes para os shows. Durante uma época, não aceitavam minha carteirinha de estudante por ser do Mestrado, como se mestrando não fosse estudante (aliás, foi a época em que mais estudei na vida).


Atualmente, por conta de uma política de democratização cultural, é possível comprar ingressos a 20 reais (10 estudante) mas só no próprio dia, chegando uma hora antes da bilheteria abrir. E pra sentar num lugar péssimo Como eu disse à Gigi, é como assistir um show numa poltrona da classe econômica da TAM, com os joelhos batendo na da frente. E a ruiva, loucamente apaixonada pelo da Viola, comprou ingresso Rayovac: setor AAA. Com direito a bafo de Elton Medeiros no cangote.


Ao adentrar o grande Caneco, eis que o céu desaba numa chuva torrencial. E nós felizes pra cacete, protegidos pelas grossas paredes da casa de show, ouvindo Paulinho cantar “não sou em quem me navega, quem me navega é o mar” enquanto a tempestade inundava a cidade de São Sebastião.


Naturalmente que não me propus a ficar nas apertadas poltronas, e fui com minha bonita assistir de pé o show. A banda é afinada e o cenário é ótimo, ficando à mercê da iluminação que faz com que cada música tenha uma cor, indo do vermelho de Coração Leviano ao azul de Dança da Solidão, passando pelo verde, pelo laranja, e daí por diante. O modelo Acústico MTV, apesar de desgastado, não influi muito num show de samba, mantendo violões, cavaquinhos e instrumentos percussivos. E a serenidade do Paulinho, que já debati aqui, faz com que qualquer apreciador de samba se deixe levar pelas suas harmonias descomplicadas e por seus singelos versos.





Sábado: The Police no Maracanã

Confesso que, apesar de gostar de futebol, vou muito pouco ao Maracanã. De modo que todo o perrengue para entrar no gramado no dia do show do The Police (havia algumas dezenas de milhares de pessoas fazendo o mesmo) fica pra trás quando se avista o gigante anel do estádio repleto de gente. Melhor ainda é quando isso acontece ao som de uma boa banda de rock – no caso, falo dos Paralamas, pra mim uma das poucas bandas de rock dos anos 80 que não estragou a própria carreira nas décadas subseqüentes.


Alguns podem achar estranha esta opinião, mas acho que Herbert, que nunca foi um grande cantor, está mais afinado do que antes do acidente que lhe confinou à cadeira de rodas. A banda continua indefectível – aliás, os músicos do Paralamas também se diferenciam de seus colegas da geração BRock por serem excelentes instrumentistas. E a forte influência do The Police fica clara, especialmente nas canções mais antigas.


Falando nos coroas britânicos, Sting, Andy Summers e Stuart Copeland, embora não demonstrem tanta “química” juntos, ainda conseguem animar milhares de pessoas com seus hits inesquecíveis. Há excessos nos solos de Summers (o cara não é nenhum Clapton para dar uma de guitarrista virtuose), mas a voz de Sting continua afinada e as viradas de Copeland continuam bem azeitadas. Mas o impressionante mesmo são os nababescos telões e a iluminação dos caras. E, claro, erram, como sempre erram nestes portentosos eventos, os organizadores e produtores por não facilitar o acesso da galera do gramado às bebidas, gerando enormes filas nos poucos postos de venda.





Segunda-feira: Maria Rita no Rival

Este show da Maria Rita foi a última gravação do programa Palco MPB de 2007, onde artistas cantam suas músicas intercaladas com conversas descontraídas mediadas pelo apresentador do programa. Fui crente que meu nome estaria na lista de convidados. Não estava, mas o porteiro me deixou entrar mesmo assim (terá sido por pena?). A porta do teatro Rival estava abarrotada de gente que queria ver e ouvir a filha de Elis. Destacavam-se alguns grupos de mulheres ensandecidas, que gritavam histericamente durante o show da cantora como se estivessem diante dos Fab Four nos anos 60.


Tal como no formato do Acústico MTV do Paulinho, a apresentação de Maria Rita é alicerçada por uma grande preocupação com a produção do espetáculo, desde a iluminação até o figurino da cantora (um vestido curto daqueles hiper brilhantes, feitos de lantejoulas ou coisa que valha). Os músicos também são excelentes, contando, entre outros, com o experiente Jota Moraes no piano e na flauta, com Sylvinho Mazzuca no contrabaixo acústico (que acompanha a cantora desde o primeiro disco) e com o emergente Leandro Sapucahy, que produziu o último trabalho da cantora e divide a percussão no palco com Neni Brown.


Com todos estes cuidados, não há muito onde errar. No repertório do show aparecem os destaques dos dois primeiros discos (como as três músicas do hermano Camelo que ela gravou no disco de estréia), mas o grosso é baseado no último, Samba Meu. Criticado por ser impecavelmente produzido, puxando alguns arranjos para uma linha jazzista e perdendo, assim, aquele gosto do bom samba de roda, penso que um dos pontos positivos do disco é o fato de apostar em sambas novos, e não cair na mesmice de repetir os mesmos lá-la-iás que se ouve em qualquer noite no Democráticos ou em outra casa de samba da Lapa.


No fim do show, Arlindo Cruz, autor de seis sambas gravados pela cantora em Samba Meu, apareceu com sua imensa barriga para dar uma canja. A platéia caiu no samba, reforçando a idéia de que show bom é show de graça. E se a voz da cantora ainda lembra a da mãe, pra mim foda-se: a voz do novo queridinho do samba Diogo Nogueira também lembra bastante a do pai João, e alguém o critica por isso?



Como música é minha paixão número um, pretendo continuar neste ritmo: num dia música com cerveja, no outro o merecido descanso pra começar tudo de novo. Aguardem os próximos relatos.

terça-feira, dezembro 04, 2007

"Antigamente" e "hoje em dia"




O filho que um dia terei nascerá num mundo dominado pela tecnologia digital. Das fotos aos vídeos, das fotocópias aos textos, das músicas aos caixas de supermercado e balanças das farmácias, tudo obedecerá (como já obedece) o mesmo sistema de digitalização de dados, deixando a velha mecânica de lado.


Quem tem mais de 20 anos acompanhou o descortinar deste mundo digital, em muitos casos surpreendendo-se com a velocidade nauseante com que os símbolos da tecnologia de outrora foram descartados. Estes, que chamarei carinhosamente de velhos, não conseguem aplacar o sentimento nostálgico que lhes invade quando pensam em “antigamente”. Antigamente, muitas vezes, é um lugar idealizado descolado da realidade, construído a partir de lembranças seletivas que tendem a fazer deste “antigamente” um lugar muito mais plácido e interessante do que o “hoje em dia”, termo que representa a morada dos que chamarei pejorativamente de jovens.


Os velhos acham que o mundo de “hoje em dia” é mais violento, mais corrompido, mais esvaziado de valores do que o mundo de “antigamente”; acreditam que os jovens de “hoje em dia” não têm a consciência e a participação política dos jovens de “antigamente” e, com grande freqüência, valem-se de exemplos lúdicos dos tempos de “antigamente” para desqualificar as diversões tecnológicas tão caras aos jovens de “hoje em dia”.


Não há dúvida: embora fascinado pelas inovações tecnológicas do mundo de “hoje em dia”, me identifico mesmo é com o bonde dos velhos. E sinto, a cada ano que passa, a invasão deste saudosismo quando penso nas diferenças que existirão entre o “hoje em dia” do meu filho e o “antigamente” de seu pai:


Meu filho irá franzir a sobrancelha quando avistar minha Olivetti Lettera 82. Meu filho irá se referir ao telefone do jeito que eu me referia ao aparelho dentário: fixo e móvel. Meu filho terá alguma dificuldade em posicionar uma agulha no sulco que divide uma música da outra num disco de vinil. Meu filho sempre terá o impulso de olhar atrás da câmera após tirar uma foto para ver como ficou, e nunca compreenderá como é que um dia pagamos tão caro por um filme com apenas 12 “poses” que não podem ser vistas, deletadas ou refeitas. Aliás, meu filho nem saberá o que é um filme de câmera, e talvez eu tenha que ensiná-lo como é que a luz imprime imagens dentro daquela caixinha escura utilizando um papel fotográfico dentro de uma lata de Nescau (tal como fez meu professor de fotografia na oitava série).


Meu filho estranhará saber que, há pouco tempo atrás, só se assistia televisão na própria televisão, e só havia uma em cada domicílio familiar. Não fará idéia da utilidade que um par de palitos com bombril na ponta já tiveram em nossas vidas. Olhará com curiosidade todos os itens mencionados acima, bem como fitas de Atari, VHS, cassetes e disquetes. E, finalmente, meu filho não conseguirá, por mais hercúleo que seja o esforço, imaginar que “antigamente” a vida era possível sem computador e telefone celular.


Eu sou do bonde dos velhos, e o bonde dos velhos não entende o sintomático ditado da era digital:




sexta-feira, novembro 23, 2007

4

Em 1991, ano do Rock In Rio II, o jovem Arthur arranhava incipientes solos e acordes em sua primeira guitarra, uma Gianinni Stratosonic preta que tinha um adesivo do Bart Simpson, comprada um ano antes. I used to love her foi a primeira canção que aquele garoto de 12 anos que queria mudar o mundo aprendeu a tocar, fruto da influência das bandas que se apresentaram no festival supracitado.


E foi neste mesmo ano de 1991 que o jovem Arthur conheceu um magrelo cabeludo chamado Leonardo Villas Boas, vizinho de bairro com um ano a mais de vida e de experiência guitarrística. No mesmo dia em que se conheceram, o jovem Lelo emprestou ao jovem Arthur uma fita cassete e um disco de vinil, que influenciariam decisivamente o gosto musical deste último.





A fita cassete continha a gravação do quarto disco do Led Zeppelin (sem título, conhecido como IV, ZoSo ou Four Symbols), disco cujo valor devido o jovem Arthur só daria anos mais tarde. E o vinil tratava-se de ...And Justice For All, do Metallica. Aparentemente, não são notadas maiores semelhanças entre os dois álbuns, tirando o fato de serem ambos bons discos de rock. Mas atentem para o detalhe percebido por um cara que, apesar de ser das letras, é também fascinado por relações numéricas:


Led Zeppelin IV, de 1971, é, obviamente, o quarto disco do Led. E ...And Justice, de 1988, é o quarto disco do Metallica. A quarta faixa do quarto disco do Led é Stairway to heaven, talvez a balada de rock mais conhecida do mundo (o disco é um dos mais vendidos do mundo, ultrapassando as 30 milhões de cópias). E a quarta faixa do quarto disco do Metallica é One, a balada mais conhecida da banda e o primeiro clipe deles oficialmente lançado. Ambas as canções são baladas épicas que duram em torno de 7 minutos, com vários climas, indo do dedilhado melódico ao peso da distorção, com um super solo de guitarra no fim. E foram as duas canções que praticamente me hipnotizaram naquele dia longínquo.


Na época, eu já simpatizava bastante com o número 4, que é o andamento básico de quase todo roquenrol (além de representar milhares de outras coisas, como os 4 elementos da natureza, os 4 pontos cardeais, os 4 cavaleiros do apocalipse, os 4 tipos durkheimianos de suicídio etc.). Mas depois desta fenomenal coincidência, elegi definitivamente o 4 como meu número da sorte.







Se você também é fascinado por relações numéricas, a ponto de ficar efetuando operações aritméticas com os números da placa do carro da frente, vá ler O Homem que Calculava, de Malba Tahan. E se você curte um bom rock n’roll, vá ouvir não só o quarto álbum, mas TODA a discografia do Led Zeppelin!

segunda-feira, novembro 19, 2007

Exercícios de Retórica

Certeza XXIII:
Queria ser a pessoa inconstante que sou para sempre. Mas como estou sempre mudando, isso dificilmente acontecerá.



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Aforisma IV:
Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que acreditam que existem dois tipos de pessoas no mundo, e as que discordam dessa visão.



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Lei XLII:
A frase “eu nunca minto” pode ser usada por qualquer um. Um potencial mentiroso estaria apenas mentindo mais uma vez e, afinal de contas, o que é um peido pra quem já tá cagado?



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Axioma XII:
Se algum amigo, chefe ou caso amoroso discordar constantemente do que você diz, simplesmente diga: “você nunca concorda comigo!!!”. Qualquer que seja a resposta, a pessoa lhe dará razão.



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Regra I:
Toda regra tem sua exceção. Com exceção desta.