sexta-feira, setembro 28, 2007

Adorno e o plugging


Era difícil ser um intelectual alemão nos anos 30. O Instituto para a Pesquisa Social, fundado em 1924 nos domínios da também recém-criada universidade de Frankfurt, nem chegara a completar uma década de atividade quando Hitler ascendeu ao poder e ordenou que seus capangas da Gestapo fechassem todos os focos de resistência ao governo nazista. Com a chapa mais quente que o solo senegalês, pensadores germânicos, marxistas e judeus como Horkheimer e Adorno tiveram que se pirulitar da terrinha, e aportaram nos EUA – aquele em 1934 e este em 1938 – para dar continuidade aos seus trabalhos.



Foi no território ianque que Adorno tomou conhecimento de uma cultura organizada em bases industriais – até então, ele ignorava “em que medida o planejamento racional e a padronização impregnavam os chamados meios de massa” (palavras do próprio). Visivelmente bolado com o caráter manipulatório e opressor do que chamou de indústria cultural - termo que se popularizaria amplamente nas décadas seguintes -, Adorno se tornou um de seus mais mordazes críticos. Seu primeiro artigo em terras americanas possui um título forte e auto-explicativo: Sobre o caráter de fetichismo e a regressão na audição.



Ater-me-ei, todavia, a um mecanismo que o autor descreve em On Popular Music, escrito ainda no final dos anos 30. Trata-se do plugging, que seria, segundo Rodrigo Duarte, a “repetição ad nauseam pelos meios de comunicação (no caso, o rádio) de uma canção, até que o público goste dela, independentemente de ela ter qualidades musicais ou não”. Esse mecanismo seria fruto de uma acordo entre as principais agências interessadas na difusão e consumo de um produto musical, ou seja, gravadora, rádio, empresário etc.



A partir daí, inicia-se um processo que Adorno descreve tal qual um roteiro, seguido pelo ouvinte após algumas audições:



1. você ouve a música e lembra vagamente de já tê-la ouvido antes;
2. você identifica a canção (é o hit tal!)
3. você submete a canção a um rótulo (isso é rock, é samba, é axé, é pop)
4. você realiza uma espécie de auto-reflexão no ato de reconhecimento (“conheço isso: isso me pertence”)
5. você faz uma transferência psicológica de reconhecimento/autoridade ao objeto (“esse hit é legal”!)



Já me vi realizando inconsciente – e conscientemente também – este ritual. A questão da familiaridade está muito relacionada às formas modernas de apreço. Conhecer é possuir, possuir é gostar, e não necessariamente nessa ordem. Uma coisa é você se pegar assobiando aquela canção detestável do “Sandy Jr.”; outra é você realmente admitir que gosta dessa canção, e muitas vezes gosta simplesmente por causa da previsibilidade, porque sabe cantar, porque já conhece, porque sabe o que vai acontecer depois.



Se eu gosto de uma música, escuto-a mil vezes, diariamente, semanalmente, sem me cansar. Sou um obsessivo em matéria de música e, fazendo um breve retrospecto, já cheguei perto de furar discos de Michael Jackson, Guns N’Roses, Metallica, Megadeth, Pantera, Sepultura, Death, Carcass, My Dying Bride, Planet Hemp, O Rappa, Nação Zumbi, Mundo Livre e Los Hermanos. Atualmente, escuto o disco da Roberta Sá todos os dias.



Será que o plugging se entranhou de maneira tão peremptória na nossa cultura que, pelo menos em matéria de música, estamos fadados a permanecer plugados?

segunda-feira, setembro 24, 2007

Cartografias

mapa da internet, por algum internauta














mapa do Brasil, por um carioca bairrista












mapa dos EUA, por um novaiorquino bairrista










mapa do mundo, por qualquer americano
(clique na foto para ver melhor)





quinta-feira, setembro 20, 2007

ERRATA




Os três camaradas ao meu lado na foto acima estão entre meus melhores amigos e, sorte a minha, são também meus colegas de banda. Após uma justa temporada de hibernação, o ERRATA está de volta, pesado e nervoso como sempre, cínico e debochado como nunca.



Se você curte rock mas quer endurecer sem perder a ternura, é só clicar aqui pra ouvir o som da banda, ou aqui pra ver a galera quebrando tudo ao vivo. E se você tem orkut, junte-se à nossa comunidade clicando aqui e faça quatro malucos felizes!

segunda-feira, setembro 17, 2007

Cartelas de identidade

Que vivemos numa sociedade de consumo, ninguém parece ter mais dúvida. Da mesma forma, sabemos que este consumo não se limita somente a mercadorias como sabão em pó, sapatos, pipocas de microondas e lapiseiras, estendendo-se também a produtos culturais como livros, discos e filmes.

De fato, o fenômeno do consumo cultural é um tema caro aos estudiosos da comunicação, porém parece ainda não ter sensibilizado um número expressivo de sociólogos, que grande parte das vezes se limitam às análises sobre o fetichismo da mercadoria e a consequente "relação fantasmagórica entre coisas" descrita pelo velho Marx no Capital.




Os poucos que se aventuram por esta seara procuram destacar, assim como seus colegas da comunicação, as relações que percebem entre consumo e identidade. Fredric Jameson, por exemplo, vê a “cultura do consumo” presente em nossa vida cotidiana e parte integrante do tecido social. Já Nestor García Canclini, um sociólogo que também navega por estudos antropológicos e da comunicação, defende que “ao consumir também se pensa, se escolhe e reelabora o sentido social”, enfatizando os vínculos entre consumo e cidadania.



Desde os anos 70, pesquisadores do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), na Inglaterra, perceberam que a construção identitária juvenil está baseada na apropriação peculiar – e muitas vezes ressignificada – de objetos providos pelo mercado e pela indústria cultural, imprimindo-lhes novos significados. No mesmo diapasão, o sociólogo brasileiro Renato Ortiz enxerga os produtos da cultura de massa, dentre eles o rock n’roll, a guitarra elétrica e os pôsters de artistas (ou mesmo de Che Guevara), como “cartelas de identidade”, que intercomunicam os indivíduos dispersos no espaço globalizado. Segundo o autor, “da totalidade dos traços-souvenirs armazenados na memória, os jovens escolhem um subconjunto, marcando desta forma sua idiossincrasia, isto é, suas diferenças em relação a outros grupos sociais”.



Na contemporaneidade, a construção de estilos de vida passa a ser caracterizada não apenas pelo cultivo interno, mas também pelo abastecimento de repertórios culturais diversos – termo de Canclini – que são resultantes dos novos processos de interação inerentes à chamada globalização. Esta suposta democratização cultural, incensada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, passa a interferir na construção da identidade dos diferentes grupos citadinos, especialmente entre os jovens, que têm como prática a formação de “tribos”, bandos, gangues e galeras, não raro ligadas a determinados estilos musicais e modos espetaculares de aparecimento.



A observação empírica me faz crer que a música é a forma de arte que mais influencia as construções identitárias dos grupos juvenis. É principalmente a estilos musicais específicos, e não a livros, filmes, quadros ou peças de teatro, que as pessoas acabam recorrendo (intencionalmente ou não) na hora de construir uma personalidade própria ou aderir a um grupo específico. É – e digo sem muita dúvida – através de estilos musicais que as “cartelas de identidade” se mostram mais evidentes.



E, na moral, quem é que nunca se vestiu, em algum momento, tal qual um típico metaleiro, forrozeiro, funkeiro, blueseiro, micareteiro, reggaeiro, sambista, hip-hopper ou raver? Na maioria dos casos, a menor distância entre uma pessoa e seu gosto musical é um spike, uma sandália rasteira, um chapéu de palha, um abadá, um par de óculos escuros gigante ou um gorro bordado com uma folhinha de canabis sativa.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Esse grande amigo que atende pela alcunha de Cascarravias

O texto de hoje é meio que uma homenagem ao grande Cascarravias, que é o codinome internético desse meu grande amigo, natural da pequena e pacata cidade de Überlândia. Casca é conhecido entre a galera freqüentadora deste muquifo virtual como o mais ferrenho e mordaz comentador, incapaz de perdoar diatribes e arroubos emocionais de jovens mancebos, americanos pomposos ou hare-filhos de paccha hare-mama. As meninas realmente se derretem pelo cara por aqui, a ponto de aventarem a possibilidade da criação de uma comunidade no orkut em sua homenagem – algo que, emocionado, aprovo e apóio.


O que talvez poucos saibam é que, além da cabeça de homem e do coração de menino, Casca é o melhor cozinheiro do Sudeste, talvez do Brasil, quiçá de todo esse mundinho de meu Deus. Além dos homéricos churrascos, como o do meu aniversário (que você confere aqui), já vi o cara cozinhar frango com bacon ao molho de queijos, já o vi fazer um rodízio de pizzas da melhor qualidade, já o vi preparar um atum verdadeiro pra um amigo que pensava que atuns nasciam dentro de pequenas latas, e já o vi rechear tomates com atum e alcaparras, cobri-los com queijo parmesão e levá-los ao forno. Se algum dia eu abrir um restaurante, será a primeira pessoa a quem irei propor sociedade.










E para ilustrar essa homenagem gastronômica, encerro o post com uma foto do jantar que Casca preparou nesta última terça, por ocasião do 11 de Setembro: um verdadeiro rodízio de comidas árabes, que incluiu kafta, esfiha de queijo, arroz com lentilha, quibe cru, homus tahine, pasta de berinjela e salada de grão de bico com trigo. Quem estiver com fome está fudido...






terça-feira, setembro 11, 2007

America 911




Para o dia 11 de setembro, nada mais adequado que o poema America, escrito no fim dos anos 50 pelo beatnik Allen Ginsberg (sobre quem já falei aqui).


Boa leitura.









América eu te dei tudo e agora não sou nada.


América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.


América não agüento mais minha própria mente.


América quando acabaremos com a guerra humana?


Vá se foder com sua bomba atômica.


Não estou legal não me encha o saco.


Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.


América quando é que você será angelical?


Quando você tirará sua roupa?


Quando você se olhará através do túmulo?


Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?


América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?


América quando você mandará seus ovos para a Índia?


Eu estou cheio das suas exigência malucas.


Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?América afinal eu e você é que somos perfeitos e não o outro mundo.


Sua maquinaria é demais para mim.


Você me fez querer ser santo.


Deve haver algum jeito de resolver isso.


Burroughs está em Tânger acho que ele não volta mais isso é sinistro.


Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?


Estou tentando entrar no assunto.


Eu me recuso a desistir de minhas obsessões.


América pare de me empurrar sei o que estou fazendo.


América as pétalas das ameixeiras estão caindo.


Faz meses que não leio os jornais todo dia alguém é julgado por assassinato.


América eu fico sentimental por causa dos Wobblies.


América eu era um comunista quando criança e não me arrependo.


Fumo maconha toda vez que posso.


Fico em casa dias seguidos olhando as rosas no armário.


Quando vou ao Bairro Chinês fico bêbado e nunca consigo alguém para trepar.


Eu resolvi vai haver confusão.


Você devia ter me visto lendo Marx.


Meu psicanalista acha que estou muito bem.


Não direi as Orações ao Senhor.


Eu tenho visões místicas e vibrações cósmicas.


América ainda não lhe contei o que você fez com Tio Max depois que ele voltou da Rússia.


Eu estou falando com você.


Você vai deixar que sua vida emocional seja conduzida pelo Time Magazine?


Estou obcecado pelo Time Magazine.


Eu o leio toda semana.


Sua capa me encara toda vez que passo sorrateiramente pela confeitaria da esquina.


Eu o leio no porão da Biblioteca Pública de Berkeley.


Está sempre me falando de responsabilidades.


Os homens de negócios são sérios.


Os produtores de cinema são sérios.


Todo mundo é sério menos eu.


Passa pela minha cabeça que eu sou a América.


Estou de novo falando sozinho.








A Ásia se ergue contra mim.


Não tenho nenhuma chance de chinês.


É bom eu verificar meus recursos nacionais.


Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha


milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2000 quilômetros por hora


e vinte e cinco mil hospícios.


Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem


nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.


Aboli os prostíbulos da França.


Tânger é o próximo lugar.


Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.








América como poderei escrever uma litania neste seu estado de bobeira?


Continuarei como Henry Ford


meus versos são tão individuais como seus carros


mais ainda todos têm sexos diferentes.


América eu lhe venderei meus versos a 2500 dólares cada


com 500 de abatimento pela sua estrofe usada.


América liberte Tom MooneyAmérica salve os legalistas espanhóis.


América Sacco & Vanzetti não podem morrer


América eu sou os garotos de Scottsboro


América quando eu tinha sete anos minha mãe me levou a uma reunião


da célula do Partido Comunista eles nos vendiam grão de bico


um bocado por um bilhete um bilhete por um tostão e todos podiam falar


todos eram angelicais e sentimentais para com os trabalhadores


era tudo tão sincero você não imagina que coisa boa era o Partido em 1935


Scott Nearing era um velho formidável gente boa de verdade


Mãe Bloor me fazia chorar


certa vez vi Israel Amster cara a cara.


Todo mundo devia ser espião.








América a verdade é que você não quer ir à guerra.


América eles são os Russos malvados.


Os Russos os Russos e esses Chineses. E esses Russos.


A Rússia nos quer comer vivos.


O poder da Rússia é louco. Ela quer tirar nossos carros de nossas garagens.


Ela quer pegar Chicago. Ela precisa de um Reader's Digest vermelho.


Ela quer botar nossas fábricas de automóveis na Sibéria.


A grande burocracia dela mandando em nossos postos de gasolina.


Isso é ruim. Ufa. Ela vai fazê os Índio aprendê vermelho.


Ela quer pretos bem grandes.


Ela quer nos fazê trabalhá dezesseis horas por dia.


Socorro!América tudo isso é muito sério.


América essa é a impressão que tenho quando assisto à televisão.


América será que isso está certo? É melhor eu pôr as mãos à obra.


É verdade que não quero me alistar no Exército


ou girar tornos em fábricas de peças de precisão.


De qualquer forma sou míope e psicopata.


América eu estou encostando meu delicado ombro à roda.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Cinema, música, ecologia e haribolzice


Foram duas viagens diferentes realizadas neste último feriadão, sendo uma a trabalho e outra a passeio. A viagem a trabalho consistiu em uma ida à Conservatória (lugar sobre o qual já falei aqui) em razão da abertura do primeiro festival Cine Música. Como Conservatória possui uma identidade fortemente musical, este evento de cinema teve como foco curtas e filmes ligados a música, como Chorinhos e Chorões, O Jaqueirão do Zeca, Vinicius, Coisa Mais Linda, o ainda em cartaz Brasileirinho e muitos outros, além de premiações e homenagens aos profissionais que se destacaram nas áreas de sonorização, mixagem de áudio e técnicas afins.



O grande chamariz do evento é o Cine Centímetro, construído pelo cinéfilo Ivo Raposo em Conservatória a partir dos objetos que obteve do Metro Tijuca, antigo cinema de rua demolido em 1978. Eu me lembro bem de quando comecei a ir ao cinema sozinho na mesma Tijuca, que no final dos anos 80 ainda contava com 7 cinemas ao redor da praça Saens Peña, sendo a verdadeira cinelândia carioca. Para os que vivem esta mesma nostalgia, é um verdadeiro deleite poder entrar, em pleno século XXI, numa réplica perfeita de um cinema de três décadas atrás.


Findos os compromissos profissionais (que também incluíram beber uísque e experimentar canapés cujos nomes não saberia pronunciar), me dirigi ao município de Silva Jardim, do outro lado do estado, para um evento de características bastante diversas. Tratava-se da segunda edição do Festival Experimental Eletrorgânico, cuja tônica era a realização de shows, performances artísticas e manifestações culturais regionais em “um ambiente projetado com princípios da permacultura e da bioconstrução, estimulando desde o primeiro momento atroca e a reciprocidade com a comunidade local” (conforme o texto oficial do evento).





A filosofia “haribol” que sustenta os ideais dos organizadores do festival é bastante radical nos seus preceitos eco-sustentáveis: todos os participantes acampam no vasto terreno, tomando banho e escovando os dentes no rio, com cuidado para não deixar sabonetes, bronzeadores, shampoos, pastas de dente ou quaisquer outros produtos químicos entrarem em contato com a água. O banheiro chama-se fossa, e trata-se de um buraco no chão onde as pessoas fazem suas necessidades de cócoras, jogando serragem em cima ao fim dos “trabalhos”. A cozinha só serve alimentos vindos direto da terra, como saladas de broto de lentilha com beterraba, sanduíches de rúcula, alface e laranja, sopas de inhame, enroladinhos de folha de couve crua com arroz e beterraba e assim por diante. Descartáveis são terminantemente proibidos e palavras como “carne” e “coca-cola” podem desencadear olhares fulminantes e comentários de reprovação.





Dentre as únicas exceções ao estilo econatural, estavam as indispensáveis cervejas vendidas no bar, os walkie-talkies que permitiam as organizadores se comunicarem, e o gerador de luz que alimentava o pequeno palco onde se apresentaram grupos dos mais diversos estilos musicais, desde a quebradeira polifônica do Água Viva até o rap do Pino Solto, passando pelo forró do Cor do Sol, pelo rock descaralhado dos Fuzileiros Nasais e do Elepê, pelo reggae, pelo samba, pelo eletrônico e por tudo mais que viesse.





Se você me conhece um pouco, deve estar se perguntando como é que eu sobrevivi para contar história. E sou honesto: apesar de urbanóide convicto, admiro muito a postura do pessoal do festival, que consegue negar o estilo de vida imposto pela grande cidade e ir viver tranqüilo no mato, plantando sementes e colhendo os frutos da terra sem agredir o meio ambiente. Admiro, mas não é pra mim; talvez os dois dias que fiquei por lá representem o máximo de tempo que consigo agüentar sem chuveiro, pia e vaso sanitário – além das comidas nada ecologicamente corretas da cidade. Embora curta o contato com a natureza, um camarada urbano e citadino como eu precisa, pra início de conversa, de água encanada e um quartinho azulejado pra poder sobreviver.



quinta-feira, setembro 06, 2007

Tempos pós-neo-modernos

Garota - Pai, vi no you tube que tem um celular que já vem com bluetooth e dá pra carregar mp3!

Pai - Quê que foi, filha?

Garota - Eu preciso desse celular, compra pra mim, pai!

Pai tentando compreender - Mas você já tem um, por que precisa de outro?

Garota - Porque uma amiga mandou um scrap dizendo que no flog dela tinha uma foto do celular, e que ela tinha escrito um post no blog sobre isso.

Pai confuso - Filhinha, porque não conversamos em português? Sou péssimo em idiomas estrangeiros...

Garota - ...e depois a Pri mandou um torpedo dizendo que no vibe do Guto tem um gif do aparelho.

Irmão da Garota – É, e diz que dá até pra criar um podcast.

Pai mais confuso ainda - Pode o quê?

Irmão da Garota - Cast. Aí, você usa um tracker do Bit Torrent pra disponibilizar na internet, ou joga direto num feed.

Pai atônito - Peraí, filho, feed?

Irmão da Garota - É, uma lista dos URLs do podcast.

Garota - Mas a boa é botar em RSS, né?

Irmão da Garota - É bom... aí, todo mundo que tiver um podcatcher ou podcast receiver vai poder mexer nos feeds.

Garota - Viu, pai, por que é que eu preciso tanto desse telefone?

Pai à beira de convulsões – mimimimi...

terça-feira, setembro 04, 2007

O dia mundial da hipocrisia

Segunda-feira é o dia mundial da hipocrisia. É quando glutões arrependidos e bêbados abalados pela ressaca moral decidem parar de comer, de beber, de trepar e de fazer otras cositas más.



Comigo não foi diferente. Depois de encontrar com amigos antigos que batem em minha barriga repetindo a já cliché frase "engordou hein, meu velho", resolvi que ia tentar segurar a onda. Digo tentar porque nunca levo essas propostas muito a sério. Mas era segunda, eu estava nervoso por causa de uma entrevista importante, enfim, resolvi "tentar".



O pseudo-regime durou pouquíssimo. Minha bonita bateu-me o telefone ainda pela manhã dizendo que havia sido convidada por um amigo, o Fernando, a ir em um show da - desde junho - septuagenária Elza Soares, no Estrela da Lapa. O show era para a gravação do programa Palco MPB, da rádio MPB fm, e ficamos numa mesa reservada para os convidados do Prezunic. Como este supermercado apóia o evento, pudemos ficar numa mesa estrategicamente localizada no parapeito do segundo andar (como vocês podem ver na foto abaixo), com direito a caipirinhas, caipiroskas, chopes e pãeszinhos recheados. E depois, fechamos a noite no bar da frente, o Arco Iris, que tem como principal petisco uma pequena montanha de batatas fritas cobertas por cebola, linguiça e queijo derretido. Ou seja: qualquer tentativa de "segurar a onda" estaria fadada ao fracasso.






O programa vai ao ar na rádio MPB agorinha, às 4 da tarde. Se eles não editarem, quem mora no Rio poderá ouvir, entre uma música e outra, um certo maluco gritando para Elza, lá do segundo andar:



- Eu vô, hein!

quinta-feira, agosto 30, 2007

Brasileirinho, o filme

Ontem fui ao Canecão ver o show de divulgação do filme Brasileirinho, dirigido pelo finlandês Mika Kaurismäki. O filme, que já passou em vários cantos da Europa, chegou ao Brasil na semana passada. Ainda não fui vê-lo no cinema mas, pelo que li, sei que vou gostar muito. Criticaram o fato de que o filme se foca mais nas interpretações de choros do que sobre a história desse gênero musical – o que não me parece negativo, visto que sou músico e conheço provavelmente 99% do time escalado para aparecer no filme.



Antes de ser gênero, o choro era, ainda no século XIX, a forma estilizada, chorada, que músicos brasileiros tocavam ritmos europeus como a polka, a mazurca, a valsa, o scottish. No início século XX, quando as baianas da Praça 11 (ou Pequena África, como era conhecida aquela região do centro do Rio de Janeiro) abriam suas portas para os músicos tocarem, o choro ganhava lugar de destaque nas casas, sendo tocado na sala de visitas – enquanto o ainda rudimentar samba era tocado na cozinha e os batuques de religiões afro ficavam restritos ao fundo dos quintais.



Embora o samba tenha sido o estilo musical escolhido para forjar a identidade nacional nos tempos de seu Gegê, o choro também ganhou notoriedade graças às belas composições de gente como Jacob do Bandolim, Anacleto de Medeiros, Antonio Callado, Ernesto Nazareth e o mestre inconteste, Pixinguinha. Apesar de geralmente ter uma estrutura fixa, com três partes (A, B, A, C, A, nesta ordem), há muito espaço para improvisações no choro, e muitos músicos virtuoses deixam a gente de cara com suas habilidades – eu, que sou chegado num virtuosismo, cito Raphael Rabello e Yamandu Costa no violão, e Hamilton de Holanda e Joel Nascimento no bandolim, além dos mestres supracitados e de uma porrada de gente que nem querendo eu conseguiria enumerar aqui.




Minha ligação com o choro já foi maior, na época em que eu participava da Escola Portátil de Música, um projeto porreta capitaneado por Mauricio Carrilho, Luciana Rabello e sua gangue. Entre 2004 e 2005, eu tinha que brigar com meus amigos pra ir embora mais cedo do furdunço de sexta à noite para que, no sábado, às 9 da matina, eu estivesse firme e forte tendo aulas de história do choro, harmonia musical e prática de instrumento. Violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, sopros, cada instrumento tinha uma sala e um professor específico (hoje tem até canto por lá). Quando dava meio dia, juntavam todos os cerca de 200 alunos (hoje são mais ainda) e tocávamos, todos juntos, os dois ou três choros ensaiadas no dia. Sinto grandes saudades daquela bagunça organizada: cinquenta violões, trinta pandeiros, vinte cavaquinhos, quinze flautas, dois contrabaixos acústicos, saxofones, trompetes, trombones e muita disposição.




Essas recordações me vêm à memória sempre que vejo shows como o de ontem, onde músicos da primeira divisão do choro brasileiro como Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo Souza (os caras do Trio Madeira Brasil), Yamandu Costa, os irmãos Beto e Henrique Cazes, Nelsinho do Pandeiro e Cesinha (pai e filho), Tereza Cristina, Pedro Miranda, Zé da Velha e Silvério Pontes têm a oportunidade de dividir o mesmo palco e a mesma satisfação de tocar para um público numeroso e compenetrado. Torço pra que chorinhos e chorões continuem tendo espaço para que possam, com seus talentos, perpetuar este estilo tipicamente brasileiro, nascido e criado na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Seja marginal, seja herói

Chamar alguém de marginal nos dias de hoje tem uma forte conotação pejorativa, mas nem sempre foi assim. Quando o termo começou a ser utilizado na literatura social, o marginal era visto de forma positiva.


Robert Park, por exemplo, que tinha grande interesse em contatos e conflitos culturais, acreditava que “é na mente do homem marginal – onde têm lugar as mudanças e as fusões da cultura – que melhor podemos estudar o processo da civilização e do progresso”. Isso foi em 1928. Antes disso, Georg Simmel já havia dito, em O estranho, que o marginal encontra-se numa posição especial de objetividade e abertura, que lhe aguça as percepções e a criatividade.


Como ocorre no braço de um rio, estar à margem é estar distante da parte mais profunda, ou seja, estar menos suscetível à ação da correnteza, num local onde você tem onde se segurar e não ser levado pelo fluxo das doutrinas e das idéias pré-moldadas. Ser marginal, portanto, é não rezar a cartilha do conformismo e ter mais autonomia individual em relação ao que se pensa, faz e acredita.


É claro que quase todos querem, de alguma forma, ser aceitos em algum grupo como iguais, ao mesmo tempo em que desejam ser únicos e exclusivos, preservando suas idiossincrasias e particularidades. Mas há um preço a ser pago por aqueles que desejam contestar certas regras ou – pior ainda – quebrá-las. Vou ilustrar este argumento com um simples exemplo:


1995, auge do metal entre a minha galera: vestidos de jeans rasgados e camisas pretas, independente da intensidade do calor senegalês carioca, ouvíamos apenas músicas que falavam sobre morte, demônio, cadáveres e escatologias afins. Eu namorava então uma menina metaleira que usava, precisamente, 17 pulseiras de couro no antebraço esquerdo. Eis que, em seu aniversário, com todos os amigos dela enfurnados naquele pequeno apartamento em Bonsucesso, botei o CD Vamo Batê Lata, dos Paralamas do (Bom) Sucesso.




Até quem nunca foi fã do metal extremo pode imaginar os olhares de reprovação que recebi. Aquela galera odiava música brasileira (com exceção de Sepultura, Sarcófago, Ratos de Porão, Korzus e algumas bandas punk) e abominava percussão; a única coisa que neguinho batia era cabeça. E por mais que eu argumentasse que o João Barone era um batera foda e tinha até bumbo duplo no disco, não consegui conter a fúria dos headbangers.





Hoje, o termo marginal está associado ao que se convencionou (erroneamente, claro) chamar de bandido. No mesmo diapasão, criticar e contestar os padrões sociais, religiosos ou políticos só faz de você um marginal se for pobre; se tiver um pouco de grana, provavelmente irão te chamar de “alternativo”.


E com globalizações e demais processos homogeneizantes à vista, tem-se cada vez menos espaço para ser diferente: basicamente, só quem pode fazê-lo livremente são os adolescentes: “seja você, mesmo que seja bizarro”, canta a baiana Pitty, para delírio dos teens. Mas seja você por enquanto, porque depois da faculdade, meu velho, vai ter que cortar esse cabelo ridículo, sentar em frente a um computador e começar a receber ordens de um recalcado qualquer.


Parece pesadelo? Bom, por aqui isso tem outro nome: chamam de sucesso profissional.







As posições de Park e Simmel foram extraídas de O Mito da Marginalidade, livro de Janice Perlman.

terça-feira, agosto 21, 2007

No tempo em que Plutão era planeta

Título descaradamente vilipendiado de Diogo Lyra



Durante toda a minha vida escolar, aprendi que tínhamos 9 planetas no nosso Sistema Solar: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Este último sempre foi um dos que mais me intrigava, por ser o mais nanico e também o mais distante do Sol; imaginava eu que, se vivêssemos naquele frio planetinha, jamais completaríamos sequer um ano de existência – que lá tem a duração de 248 dos nossos.


Então – sendo agora obrigado a recorrer a um dos piores trocadilhos da astronomia – imaginem o quão puto, mas muito puto, putão mesmo, eu fiquei quando soube que o curioso nano-planeta havia sido rebaixado para a segunda divisão dos corpos celestes, sendo levado a dividir modestos campos de várzea com Éris e Ceres.


Pois bem: o que já era motivo de tristeza e indignação, levando alguns amigos a reportarem-se saudosa e nostalgicamente ao tempo em que plutão era planeta, praticamente transformou-se em motivo de chacota quando, ao pesquisar no Wikipedia (a enciclopédia dos que são do tempo em que Plutão já jogava na segundona), descobri que Plutão, desde 2006, é classificado como planeta ANÃO!!!


É ou não é uma sacanagem? Afinal, somos nós, terráqueos, que inventamos tais categorias escusas. Do alto de nossa arrogância, consideramos que Plutão não passa de um salva-vidas de aquário, de um reles pintor de rodapé. Já posso ouvir astrônomos e mesmo astrólogos fazendo chacota com nosso irmão caçula: Pedala, Plutão!, é o que imagino gritarem.


Não obstante, visto em um contexto mais universal, nosso próprio planetinha azul não passa de um pequeno grão, de uma verdadeira poeirinha cósmica, como vocês poderão observar abaixo.

































Pois é, perto do Sol não somos merda nenhuma, e perto de outras estrelas de maior grandeza não somos nem mesmo visíveis, o que mostra nossa imensurável pequenez neste universo que nos cerca. E é com este espírito de humildade terrena que inicio, desde já, uma campanha de dimensões astronômicas, certo de que não estarei sozinho na defesa dessa reivindicação, expressa no refrão que bradaremos, eu e todos os meus companheiros, aos quatro cantos da galáxia:



ÃO ÃO ÃO

Queremos Plutão

Na primeira divisão!



sexta-feira, agosto 17, 2007

Uma bela e singela redação

para Gigi e Vivi



A redação que transcrevo abaixo foi feita por uma aluna do curso de Letras da UFPE, vencedora de um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa. Como tenho grande interesse por línguas (com e sem trocadilho) e queria divulgar esse texto pra muitos amigos, achei que a melhor maneira de fazê-lo seria publicá-lo aqui. Então vamos ao texto:




* * *



Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.


Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.


O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.


Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.


Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.


Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.


Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.


É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.


Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.


Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.


Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.


O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Nietzsche e o egoísmo

Sou, como todo ser humano (ainda que poucos estejam dispostos a admiti-lo), egoísta. Lembro que, quando criança, defendia a tese de que tudo que fazemos possui, necessariamente, algum intuito de satisfação pessoal. Mesmo quando aparentemente fazemos algo direcionado a outrem – como dar flores à namorada ou algum dinheiro a um sujeito pobre – a motivação tem um fundo de auto-regozijo, expresso, por exemplo, na satisfação pessoal de se estar fazendo algum bem a outra pessoa.


Defender abertamente essa teoria tinha um preço: as pessoas tendiam a me achar uma criança auto-centrada (risco que, pelo visto, correrei para sempre). Por isso, fiquei bastante feliz em ver que Friedrich Nietzsche parece concordar com tal pensamento.


O trecho que citarei abaixo não foi escrito pelo filósofo; na verdade, li pouquíssima coisa da obra de Nietzsche (erro que pretendo corrigir na primeira oportunidade que tiver). Pertence, de fato, ao livro Quando Nietzsche chorou, primeiro romance do psicoterapeuta Irvin D. Yalom, que usa de seus atributos literários e intelectuais para narrar um fictício encontro entre o filósofo e Josef Brauer, um dos pais da psicanálise e mentor de Freud (que também é personagem do livro).


Lá pelas tantas, quando Nietzsche questiona o doutor sobre suas reais motivações em querer tratá-lo, Breuer tenta explicar que ajudar as pessoas a aliviar suas dores é sua atividade – resposta que não satisfaz Nietzsche. Vendo a negação do filósofo em aceitar tal argumento, Breuer devolve-lhe a mesma pergunta: “Para quê, então, filosofa?”. E recebe a seguinte porrada do bigodudo:



“Ah! Existe uma importante distinção entre nós. Eu não alego que filosofo para si, enquanto o senhor, doutor, continua fingindo que sua motivação é servir-me, aliviar minha dor. Tais alegações nada têm a ver com a motivação humana. Elas fazem parte da mentalidade de escravo astutamente engendrada pela propaganda sacerdotal. Disseque suas motivações mais profundamente! Achará que jamais alguém fez algo totalmente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. (...) Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado.”

quinta-feira, agosto 09, 2007

Einstein e o Socialismo

Minha querida amiga Dida fez a tradução de um texto de Einstein chamado "Por que Socialismo?", para ser publicado no jornal eletrônico que seus alunos (os dela, claro) estão criando na Cândido Mendes de Niterói. Com isto, Dida nos presenteou com a possibilidade de entrar em contato com algumas opiniões políticas do grande gênio da física, às quais não teríamos acesso devido ao nosso parco conhecimento de alemão (com algumas exceções, né Jana?).

Trata-se de um artigo escrito para o lançamento do primeiro volume da famosa revista de esquerda norte-americana Monthly Review, saído em 1949. Quem tiver curiosidade de ler o texto na íntegra pode enviar um e-mail para errata@oi.com.br solicitando-o. Abaixo, reproduzo alguns trechos deste ótimo texto para o deleite de vocês, queridos leitores.

Por que Socialismo?

Albert Einstein (maio de 1949)


(...) O homem é, a um só e mesmo tempo, um ser solitário e social. Enquanto ser solitário ele almeja proteger sua própria existência e aquela daqueles que são mais próximos a ele, para satisfazer seus desejos pessoais e para desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, ele busca ganhar o reconhecimento e o afeto de seus companheiros humanos, compartilhar seus prazeres, confortá-los em suas dores, e melhorar suas condições de vida. Apenas a existência dessas ambições variadas, e freqüentemente conflituosas, dá conta do caráter especial de um homem, e a sua combinação específica determina a extensão com que um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interno e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa desses dois impulsos seja fixada principalmente pela herança. Mas a personalidade que finalmente emerge é largamente formada pelo ambiente no qual aconteceu a um homem encontrar-se durante seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade na qual ele cresceu, pela tradição dessa sociedade, e pela sua avaliação de tipos particulares de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa para o ser humano individual a soma total de suas relações diretas ou indiretas com seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo está apto a pensar, se empenhar e trabalhar por si mesmo; mas ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele ou compreendê-lo fora da moldura da sociedade. É a sociedade que provê o homem de comida, vestuário, lar, ferramentas de trabalho, linguagem, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo de pensamento; sua vida é tornada possível pelo trabalho e pelas realizações de vários milhões no passado e no presente, os quais estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.


(...) O homem adquire de nascimento, através da hereditariedade, uma constituição biológica que nós podemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante seu tempo de vida o homem adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade através da comunicação e de vários outros tipos de influência. É essa constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita à mudança, e que determina numa grande extensão a relação entre o indivíduo e a sociedade. A moderna antropologia nos ensinou, através do método comparativo de investigação das assim chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir tremendamente dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam em sociedade. É por isso que aqueles que estão se empenhando em aprimorar a sorte do Homem podem aumentar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilar uns aos outros ou a estar à mercê de um destino cruel auto infligido.


Se nós nos perguntarmos como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser mudadas a fim de tornar a vida humana tão satisfatória quanto for possível, nós deveríamos estar constantemente conscientes do fato de que existem certas condições que são impossíveis de modificar. Como mencionado antes, a natureza biológica do homem não está, para todos os fins práticos, sujeita à mudança. Mais ainda, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos poucos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente munidas dos bens que são indispensáveis à continuação de sua existência, uma extrema divisão do trabalho e um aparato produtivo altamente centralizados são absolutamente necessários. Já foi para sempre o tempo – o qual, olhando para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um leve exagero dizer que a humanidade constitui já hoje uma comunidade planetária de produção e consumo.


Agora alcancei o ponto em que eu posso brevemente indicar o que constitui para mim a essência da crise do nosso tempo. Ela concerne à relação entre indivíduo e sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência em relação à sociedade. Mas ele não experimenta essa dependência como um patrimônio positivo, como um laço orgânico ou como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência econômica. Mais ainda, sua posição em sociedade é tal que os impulsos egoístas de sua constituição estão sendo constantemente acentuados, enquanto seus impulsos sociais, que são fracos por natureza, deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, estão sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros não conscientes de seu próprio egoísmo, eles se sentem inseguros, solitários e privados do ingênuo, simples e não sofisticado aproveitamento da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como ela é, através de sua devoção à sociedade.


A anarquia econômica da sociedade capitalista tal como existe hoje é, em minha opinião, a real origem do mal. Vemos antes de nós uma enorme comunidade de produtores, cujos membros estão almejando incessantemente tirar uns dos outros os frutos do seu trabalho coletivo – não pela força, mas no geral em cumprimento fiel das leis legalmente estabelecidas. A esse respeito, é importante nos darmos conta de que os meios de produção – que correspondem, por assim dizer, à inteira capacidade produtiva que é necessária para a produção de bens de consumo, tanto quanto de bens de capital – podem ser legalmente, e o são em sua maior parte, a propriedade privada de indivíduos.


(...) O capital privado tende a se tornar concentrado em poucas mãos, em parte por causa da competição entre os capitalistas, e em parte pelo desenvolvimento tecnológico, e a crescente divisão do trabalho encoraja a formação de grandes unidades de produção às expensas das pequenas. O resultado desse desenvolvimento é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isso é verdade visto que os membros do corpo legislativo são selecionados pelos partidos políticos, largamente financiados ou de alguma forma influenciados pelos capitalistas privados, que, para todos os fins, separam o eleitorado do governo eleito. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem os interesses dos setores desprivilegiados da população. Mais do que isso, sob tais condições os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Portanto, seria extremamente difícil para o cidadão individual, e mesmo impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer um uso inteligente de seus direitos políticos.


(...) A produção é orientada pelo lucro, não pelo uso. Não há previsão de que todos aqueles aptos e desejosos de trabalho estejam em posição de encontrar emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador está constantemente com medo de perder seu emprego. Desde que desempregados e mal pagos, os trabalhadores não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é restrita, e um grande sofrimento é a conseqüência. O progresso tecnológico resulta freqüentemente em mais desemprego do que em um alívio do fardo do trabalho para todos. A motivação do lucro, em conjunção com a competição entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição ilimitada leva a um enorme desperdício de trabalho e ao enfraquecimento da consciência dos indivíduos, a qual mencionei acima.


Eu considero esse enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educacional como um todo sofre desse mal. Uma atitude competitiva é inculcada no estudante, que é treinado para adorar o sucesso aquisitivo como preparação para a sua futura carreira.


Estou convencido de que há apenas um caminho para eliminar esses graves males, nomeadamente através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educacional que seria orientado para fins sociais. Numa tal economia, os meios de produção são possuídos pela sociedade ela mesma, e são utilizados de uma maneira planejada. Uma economia planejada que ajustasse a produção às necessidades da comunidade distribuiria o trabalho a ser feito entre todos aqueles aptos a trabalhar, e garantiria uma vida decente a cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, somada à promoção de suas habilidades inatas, procuraria desenvolver nele um senso de responsabilidade para com seus companheiros homens, em lugar da glorificação do poder e do sucesso em nossa sociedade presente.


Contudo, é necessário recordar que uma economia planejada ainda não é o socialismo. Uma economia planejada como tal deve ser acompanhada pela desescravização do indivíduo. O alcance do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: como é possível, em vista de uma abrangente centralização do poder econômico-político, prevenir que a burocracia torne-se toda poderosa e onipresente? Como os direitos do indivíduo podem ser protegidos, e com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia ser assegurado?


Claridade sobre os fins e problemas do socialismo é da maior significância em nossa idade de transição. Dado que nas presentes circunstâncias a discussão livre e desimpedida desses problemas tornou-se um poderoso tabu, eu considero que a fundação dessa revista constitua um importante serviço público.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Aos 29





Ontem, domingão, fiz vinte e poucos pela última vez na vida. Comemorei com carnes, cervejas, caipirinhas, caipiroskas, rock n’roll ao vivo e muitas pessoas especiais, que deram o próprio sangue para estar comigo nesse momento tão singelo.







O evento só aconteceu graças à ajuda e colaboração de muita gente boa e, dentre essas pessoas, faço questão de destacar e homenagear o camarada Andrada, que pilotou a churrasqueira com a maestria e o ódio de sempre.





Um brinde a todos os meus grandes amigos e amigas,

e até o próximo furdunço!

terça-feira, julho 31, 2007

No menu musical de hoje...




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...The Strokes, com Reptilia

Leia antes de apertar o play: Nunca gostei daquilo que, no rock, chamam de “indie”. Mas gosto da banda The Strokes, e tem gente que fala que o som deles é indie. Problema deles. Pra mim, o som do grupo do filho de John Casablancas, dono da Elite Models, que conta com o brasileiro Fabrício nas baquetas, é um rock seco e cru, que não considero tão distante de outras bandas que são rotuladas como grunge ou punk ou outra sub-divisão qualquer, entre as tantas que existem no bom e velho roquenrol.


Reptilia é minha música favorita do Strokes. É a segunda faixa do segundo disco deles, Room of Fire. E o que mais gosto nela é exatamente o arranjo: como trata-se de um rock bem cru, feito com duas guitarras, baixo, batera e voz, a solução encontrada pelos caras para sofisticar o arranjo é alternar a presença dos instrumentos que são tocados. O resultado são trechos com guitarra sem baixo e bateria, trecho com baixo e bateria sem guitarras, trechos com voz, guitarra e bateria sem baixo, enfim, toda sorte de combinações possíveis, como iremos conferir agora. Aperte o play e vamos nessa!

* * *


(a música começa com bateria e baixo, aquele baixo bem simples, uma só nota martelada com palheta mesmo. Depois, entram as duas guitarras distorcidas, uma fazendo os acordes da base, junto com o baixo, e a outra uma frase melódica dessas que grudam em nossos ouvidos. Quando o vocal entra, saem o baixo e a guitarra base e ficam a bateria e o tal riff melódico)


He seemed impressed by the way you came in
"Tell us a story
I know you're not boring"


(volta o baixo, cimentando o chão da base)


I was afraid that you would not insist.
"You sound so sleepy
just take this, now leave me"


(e agora volta a guitarra base, rasgando tudo. O vocal distorcido ajuda a aumentar a sujeira)

I said please don't slow me down
If I'm going too fast
You're in a strange part of our town...


(melhor pedaço da música: todos param de tocar e ouve-se só uma guitarra, fazendo uma bela frase com acordes arrastados pra cima e pra baixo. Aí, entra um desenho melódico no baixo, acompanhando o riff da guitarra, e o bumbo fazendo a marcação e preparando a volta dos outros instrumentos)


Yeah, the night's not over
You're not trying hard enough,
Our lives are changing lanes
You ran me off the road,
The wait is over
I'm now taking over,
You're no longer laughing
I'm not drowning fast enough.


(solo de guitarra, daqueles bem rock n’roll tosco, com escalinhas repetidas mil vezes. Findo o solo, saem agora as duas guitarras, ficando somente a cozinha – baixo e batera)


Now every time that I look at myself
"I thought I told you
this world is not for you"


(e, novamente, a banda toda quebrando tudo)


The room is on fire as she's fixing her hair
"you sound so angry
just calm down, you found me"


I said please don't slow me down
If I'm going too fast
You're in a strange part of our town...


(fala sério, não é o melhor trecho da música? Depois de conhecer, a gente passa a ouvir a música só esperando por esse momento)


Yeah, the night's not over
You're not trying hard enough,
Our lives are changing lanes
You ran me off the road,
The wait is over
I'm now taking over,
You're no longer laughing
I'm not drowning fast enough.



Gostou do som? Então aproveita e veja aqui o clipe da música, que é todo feito de closes nos instrumentos dos caras, ou seja, praticamente a descrição que eu fiz, só que com imagens ao invés de palavras.

segunda-feira, julho 30, 2007

Um brinde democrático



Domingo frio e inóspito pros cariocas, perfeito prum estrogonofe "indoor".


E pra você que está vendo esse brinde democrático, proponho um jogo:


quem bebe o quê na foto?



(1) dida..............................................( ) uísque
(2) zucca............................................( ) cerva
(3) davos............................................( ) caipirinha
(4) bonita...........................................( ) vinho
(5) ledas.............................................( ) vinho
(6) eu..................................................( ) vinho



Resposta certa amanhã, nas intervenções.

quinta-feira, julho 26, 2007

Notas sobre o PAN

Minha bonita tem ido a alguns jogos do PAN e me informou que os estádios estão ficando vazios, mesmo nos casos em que os ingressos para venda já estão esgotados. O Comitê responsável, CO-Rio, explicou n’O Globo de hoje que, do total de 1,7 milhão de ingressos disponíveis, cerca de 300 mil foram doados para União, Governo do Estado e Prefeitura. Acho que, mesmo através do monitor, vocês conseguiram sentir o cheiro de merda que paira no ar.


Problemas na numeração dos ingressos já motivaram uma ação na justiça contra o Comitê, e a Promotoria de Defesa do Consumidor já pensa em entrar com outra ação pra investigar o que para eles pode ser um indício, mas para mim é uma certeza: existem mais falcatruas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.


Pelo menos, fico feliz em saber que ganhamos a medalha de ouro no futebol feminino, metendo 5 gols nas ianques. Certa vez, aqui mesmo no blog, um amigo estadunidense disse que o futebol era um esporte de meninas. E, de alguma forma, parece que ele tinha razão: o futebol também é um esporte de meninas, mas de meninas brazucas.


Com essa vitória, passamos Cuba e estamos em segundo lugar no ranking de medalhas do PAN. Mas sei que voltaremos ao posto de terceiro lugar. Temos vocação pra terceiro. É só ver que nenhum país, nem mesmo os EUA, tem mais medalhas de bronze que o nosso. Em matéria de ser terceiro, somos os primeiros.


E pensem bem: pelo menos nos esportes de equipes, ser terceiro é muito melhor do que ser segundo. Ser terceiro significa que você perdeu a penúltima partida, não foi pra final, mas não se deixou abalar e venceu o último jogo, garantindo o bronze. Ser prata em esportes de equipe significa que você fez uma brilhante campanha e perdeu o último jogo, ou seja, como se diz no futebol, nadou, nadou e morreu na praia. Nada mais frustrante.


Foi exatamente o que aconteceu com as meninas de prata do vôlei e com as meninas de prata do basquete. Esses resultados levaram um conhecido meu, natural da Turquia, a afirmar que “a mulher brasileira sempre entrega o ouro no final”. Mas Marta e suas colegas de seleção podem, agora, dizer que este jovem imigrante de bigode estava errado.